XI Congresso Ciências do Desporto e Educação Física
dos países de língua portuguesa

Arnaldo José HERNANDEZ
Departamento de Ortopedia e Traumatologia, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo;
Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, Brasil.

Introdução
Apesar de a atividade física abranger inúmeras formas de prática,
o esporte de alto rendimento é aquele que maior presença nos meios
de comunicação e maior apelo econômico tem apresentado. A
medicina do esporte lida com diferentes aspectos dessa prática, desde
a avaliação clínica pré-participação até a situação dramática da morte
súbita no esporte, passando por todas as ações médicas entre esses
dois extremos. Nessa gama de atividades a traumatologia do esporte
apresenta destaque, não por sua maior importância, mas pela
freqüência com que acomete seus praticantes, sendo uma das
principais causas de abandono do esporte competitivo.
As lesões esportivas acometem todos os segmentos corporais,
não poupando nem mesmo os dentes. Sua gravidade é variável,
mas, mesmo aquelas que não põem em risco a vida do indivíduo,
com freqüência o afastam da prática, ainda que temporariamente.
Essas lesões são, didaticamente, agrupadas em lesões
macrotraumáticas e microtraumáticas, sendo que o segundo
grupo é responsável por mais de 50% de todas elas. As lesões
esportivas acometem todos os gêneros e todas as faixas etárias.
As macrotraumáticas são mais comuns no esporte de contato e

entre os mais jovens, já as microtraumáticas costumam surgir
nos indivíduos de maior faixa etária e associadas a fenômenos
degenerativos. Nos Estados Unidos da América, o custo
estimado para tratamento das lesões esportivas é de US$ 282
milhões, anualmente. Tais custos e riscos aos indivíduos só
podem ser minimizados por meio de estudos epidemiológicos
que permitam estratégias de prevenção que, uma vez
implementadas, possam mostrar-se eficazes. Mesmo com sua
aplicação essas lesões continuarão a ocorrer e ainda teremos
que abordá-las de forma mais efetiva.
Nesse sentido, além da prevenção, outros problemas se
apresentam de forma patente. Na sua presença, quais as alternativas
de tratamento melhor se aplicam a cada situação e como permitir
um retorno rápido, não prematuro e seguro, à competição. Além
disso, quais as perspectivas futuras que a ciência vislumbra, por meio
da engenharia genética ou utilização de células tronco, no tratamento
dessas condições. Todos esses pontos, por mais que já tenham sido
estudados, são fundamentais na avaliação das perspectivas da
traumatologia esportiva no esporte de alto rendimento.

Mesa Redonda
Perspectivas do Esporte de Alto Rendimento

Perspectivas da traumatologia esportiva no esporte de alto rendimento

Discussão
Os estudos epidemiológicos, apesar de, na maioria das vezes,
trazerem conhecimento dos fatos relativos a uma situação, nem
sempre permitem a compreensão das reais causas do problema.
A caracterização dos fatores de risco, intrínsecos e extrínsecos,
são o primeiro passo na implementação de medidas preventivas
que passa, obrigatoriamente, pela compreensão do mecanismo
de lesão. O exemplo clássico dessa situação vem do futebol
americano. Na década de 1970, o número de traumatismos
raquimedulares, com lesão neurológica grave ou fatal, foi
alarmante. O Colégio Nacional de Associações Atléticas
conduziu um estudo, por meio da análise biomecânica de
videoteipes do "ataque de cabeça" (spear tackling). A modificação
e observação rigorosa das regras nesse esporte, a mudança da
técnica e dos equipamentos esportivos diminuíram,
significativamente, essas ocorrências. Embora já se conhecesse
tal risco previamente, apenas o conhecimento isolado do
problema, sem a compreensão correta da sua fundamentação
biomecânica, não permitiu a sua abordagem adequada.
O desenvolvimento de novos equipamentos, como capacetes
de proteção nos esportes sobre rodas e os chamados "esportes

radicais ou de aventura" previnem até 85% dos traumatismos
cranianos. Da mesma forma os protetores bucais também
diminuem a ocorrências de lesões orofaciais. Apesar de existirem
evidencias de benefícios na utilização de diversos equipamentos
na prevenção de lesões, ainda existe muito a ser determinado. A
utilização de protetores de tornozelo, embora com evidências
favoráveis, ainda merecem estudos, biomecânicos e clínicos, mais
profundos. Aparelhos para proteção do joelho ainda carecem
de comprovação científica. As mudanças do terreno de prática
esportiva também podem minimizar a ocorrência de lesões. O
estudo dos fatores extrínsecos de lesão do aparelho locomotor
é ainda um campo aberto para inúmeras pesquisas científicas.
Por outro lado, a identificação de fatores de risco intrínsecos
na gênese da lesão esportiva é bem estabelecida em muitas
situações. O conhecimento de que lesões prévias, obtido por
meio da simples história clínica do atleta, é um importante fator
prognóstico de futuras lesões, fato bem estabelecido para as
lesões do joelho. Infelizmente, mesmo em países onde a medicina
do esporte é mais bem estruturada, ainda existem problemas na
efetiva avaliação pré-participação, na opinião dos próprios atletas.

Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.20, p.181-83, set. 2006. Suplemento n.5. · 181

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O nível de condicionamento físico, embora sugira clara
associação com o risco de lesão, ainda carece de documentação
científica nesse sentido. O mesmo pode ser dito em relação aos
programas de alongamento muscular e aquecimento préatividade. As dificuldades, práticas e éticas, em conduzir estudos
clínicos nessas áreas são evidentes. Por outro lado, a presença
de distúrbios do alinhamento do membro inferior, interferem
comprovadamente na geração de lesões dessa região. O grande
desafio futuro na medicina e ciências dos esportes está no
controle neuro-muscular da atividade física. Sua compreensão e
relação com as lesões do esporte são ainda rudimentares. A
reprogramação neuro-motora é, em tese, factível, e poderia ser
de grande utilidade na prevenção de lesões.
Uma vez estabelecida a lesão, um dos pontos críticos no
esporte de alto rendimento é a definição do momento oportuno
para o retorno à atividade competitiva. A resposta a essa situação
certamente não é padronizada e depende do diagnóstico e
tratamento realizado, do esporte, e, quando for o caso, da posição
do esportista em questão e das características individuais do atleta.
O retorno à competição, muitas vezes, ocorre quando o atleta
ainda não está plenamente recuperado, o que pode ser
demonstrado pelo seu menor desempenho nas etapas iniciais
do retorno à atividade. Um exemplo freqüente na prática
esportiva é o retorno pós-reconstrução do ligamento cruzado
anterior. Embora o retorno pleno à atividade seja considerado a
regra nessa situação, apesar dos mesmos níveis de resultados

nas avaliações clínicas nem sempre todos conseguem retomar a
pratica esportiva no mesmo nível pré-lesão, tal fato está associado
a outros aspectos que ainda não conseguimos identificar
(psicológicos, biomecânicos, neuro-motores, entre outros) e que
merecem ser mais bem estudados. A busca por critérios mais
claros para o retorno à competição, nas deferentes leões
esportivas, é fundamental para a segurança desses atletas.
Uma nova perspectiva no tratamento das lesões esportivas,
ainda na fronteira do conhecimento humano, é a possibilidade
da utilização da bioengenharia e das pesquisas com células tronco
(toti ou multipotentes) na reparação dos tecidos do aparelho
locomotor. As lesões dos ligamentos, tendões e especialmente
da cartilagem articular ainda constituem desafios para a medicina
do esporte. A possibilidade de reconstituição desses tecidos poderá
permitir um retorno ao esporte com mais segurança e menor
morbidade ao paciente. Embora já existam modelos de arcabouços
de biomaterias para implantação de cultura de condrócitos e fatores
de crescimento, ainda em fase de experimentação clínicas, o maior
número de estudos ainda está na fase experimentação animal. A
utilização de células tronco mesenquimais para reconstituição de
tendões em eqüinos e coelhos já demonstra a possibilidade real de
incremento nas propriedades mecânicas das estruturas estudadas. A
mesma perspectiva existe para a cartilagem articular. A associação de
moldes de colágeno, ou biomateriais similares, às culturas de células
adultas, células tronco mesenquimais ou fatores de crescimento é
uma possibilidade real.

Conclusão
A medicina do esporte apresenta grandes áreas de interface
com o esporte de alto rendimento. No campo da traumatologia
esportiva o conhecimento epidemiológico das afecções, a
identificação dos fatores de risco em cada situação, o tratamento
mais recomendado e o retorno seguro à competição, embora
tenham sofrido um grande processo de evolução nas últimas

décadas, ainda se constituem em grandes desafios dessa
especialidade médica. As perspectivas futuras da medicina do
esporte passam, obrigatoriamente, pelas pesquisas no campo
da neuromotricidade e da bioengenharia, particularmente na
avaliação da viabilidade da utilização de células tronco no
aparelho locomotor.

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