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BIOTECNOLOGIA NA ÁREA DE SÚDE HUMANA E ANIMAL
BIOENGENHARIA E BIOMIMÉTICA
"It is not the strongest of the species
that survive, nor the most intelligent,
but the one most responsive to change"
- Charles Darwin

INTRODUÇÃO
O texto apresentado abaixo avalia o status de pesquisa e desenvolvimento
tecnológico no Brasil, na área de biotecnologia molecular aplicada a ciências
médicas e veterinárias, da genômica e do desenvolvimento de bioengenharia e
biomimética, abrangendo a engenharia de complexos moleculares que podem
substituir as moléculas estruturais de tecidos e órgãos e a engenharia celular e
tecidual, visando a substituição terapêutica de estruturas multicelulares, teciduais ou
equivalentes a órgãos.
A biotecnologia conheceu nas últimas décadas do século XX uma expansão
intensa, tanto na aquisição de novos conhecimentos, quanto no desenvolvimento de
processos tecnológicos e de sua aplicação na área de produção de insumos para a
área de saúde e de prestação de serviços. Ela segue atualmente múltiplas
vertentes, freqüentemente complementares e interativas.
-

A BIOTECNOLOGIA

AGROPECUÁRIA E DE

PRODUÇÃO

DE

ALIMENTOS envolve

estudos de novos produtos alimentares, de aplicação de microrganismos
geneticamente modificados, animais e plantas transgênicas, e melhoria de
qualidade dos vegetais e animais relevantes para a indústria agropecuária. Essa
área é também intimamente ligada à biotecnologia da preservação e melhoria
ambiental e estudo da biodegradação de poluentes gasosos, líquidos e sólidos do
solo.

2

-

A BIOTECNOLOGIA MOLECULAR envolve estudos e desenvolvimento da

química combinatorial de biomoléculas, os processos de biotransformação e
aplicação de biocatalisadores, a tecnologia de ácidos nucléicos, a engenharia de
proteínas, a aplicação de moléculas menores em controles de metabolismo e em
farmacologia. As suas aplicações são essencialmente dirigidas para a área de
obtenção de produtos industriais de alto valor agregado. Na área de saúde, incluemse nessa vertente a construção e produção de moléculas recombinantes de ácidos
nucléicos e de proteínas, usadas em vacinação humana e animal e em terapia
molecular na medicina, e de moléculas estruturais usada em engenharia tecidual,
discutidas abaixo.
-

A BIOTECNOLOGIA CELULAR APLICADA À MEDICINA E SAÚDE envolve a área de

genômica, com sua extensão para a terapia gênica, diagnóstico, prognóstico,
tratamento e prevenção de doenças e de modulação de defeitos metabólicos. Uma
área emergente da biotecnologia médica é a engenharia de tecidos e órgãos,
associada com a biologia estrutural e a biomimética. Essa área é profundamente
ancorada em conhecimentos da biologia dos sistemas supramoleculares, da
biologia celular e tecidual, da biologia do desenvolvimento e da forma, e dos
sistemas integradores dos organismos superiores.

BIOTECNOLOGIA MOLECULAR
A biotecnologia de moléculas contendo a informação genética trabalha com
construções moleculares necessárias para a expressão de proteínas em
bioprocessos industriais usando os organismos vivos, ou a produção de vetores
visando a transferência de genes requerida em terapia gênica. Os conceitos
científicos básicos da construção de vetores estão atualmente bem elaborados. O
desenvolvimento nessa área deve envolver essencialmente a otimização de vetores
visando a sua maior estabilidade de produtividade.
Os vetores a serem usados em terapia gênica devem ainda passar por
processos de aperfeiçoamento consideráveis: serão necessários vetores contendo
os promotores que controlam rigorosamente a expressão de genes, sendo induzidos
quando necessário, expressos de maneira tecido-específica, capazes de responder

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fisiologicamente às necessidade do organismo tratado, e passíveis de serem
inativados ou de causar a morte de células transfectadas, quando esse
procedimento for necessário frente à evolução do quadro clínico do paciente tratado.
O construção das regiões promotoras de segunda geração deverá tornar a
aplicação de terapia gênica mais segura, regulando a expressão de genes
introduzidos e garantindo a ausência de produtos ou efeitos secundários não
desejados. Os vetores plasmidiais são relativamente seguros, embora sensíveis às
nucleases e, consequentemente, instáveis e caros. Progressos recentes em
modificação das propriedades dos plamídios associando-os ou encapsulando-os
com polímeros que prolongam a sua vida útil, ou associação com ligantes que
promovem a sua internalização celular mediados por receptores específicos, estão
melhorando as perspectivas de uso desses vetores e indicam os caminhos a serem
seguidos. Os vetores virais possuem a eficiência de transfecção alta, porém
apresentam problemas complexos de toxicidade, patogenicidade e indução da
resposta imune hiper-aguda. Os acidentes recentes ocorridos na fase clínica de
tratamentos por terapia gênica nos EUA mostram que os processo atualmente
propostos estão longe de serem perfeitos, e um campo amplo de pesquisa em
terapia gênica está ainda aberto.
A produção de proteínas recombinantes em grande escala já abrange os
substitutos de hormônios ou mediadores intercelulares humanos e proteínas virais
potencialmente usadas na vacinação ou imunomodulação em humanos e animais. A
produção de proteínas recombinantes envolve um série de passos, iniciando-se com
a identificação e caracterização genética da proteína e das suas propriedades
bioquímicas, e a definição dos requisitos estruturais para a sua atividade funcional,
como o processamento pós-traducional, glicosilação, formação de heterodímeros
etc. A produção propriamente dita envolve a escolha do vetor de expressão, a
escolha de células em função da complexidade de processamento molecular
necessário para a obtenção da proteína funcional, o aperfeiçoamento do
bioprocesso de produção, e a separação, purificação e preparo para o uso médico
da proteína. O uso médico de mediadores hormonais, fatores de crescimento e
citocinas está em franca expansão, em função de avanços consideráveis
alcançados na compreensão de vias de sinalização intercelular e intracelular. As

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enzimas envolvidas foram freqüentemente identificadas e caracterizadas, abrindo a
possibilidade da estimulação ou inibição de suas atividades. Uma nova geração de
moléculas moduladoras das atividades enzimáticas está encontrando aplicação
farmacológica ampla.
A atenção particular deverá ser dada à expressão de proteínas em sistemas
alternativos, além de sistemas tradicionais que usam microrganismos ou células
animais. Os sistemas mais complexos devem permitir a expressão simultânea de
mais de um gene com obtenção de proteínas heterodiméricas, como o sistema de
expressão em Neurospora. A expressão de proteínas humanas em vegetais e
animais superiores é muito promissora, devendo levar à produção de complexos
moleculares fisiologicamente ativos, com um rendimento produtivo muito mais
importante, a baixo custo.
* * *
No Brasil, a primeira parte dos processos citados pode ser feita, em grande
parte, nas instituições acadêmicas de pesquisa biomédica. O Brasil possui centros
de excelência em bioquímica, ciências biomédicas e farmacológicas, assim como na
área de imunologia dirigida para a vacinação. A competência de pesquisas nessa
área já está instalada, e recursos humanos de mais alto nível estão disponíveis.
Todas as análises de capacidade e produtividade científica nacional apontam essas
áreas como de excelência, tanto em termos de geração de novos dados científicos,
como em termos de capacidade de formação de recursos humanos. A atenção
particular deverá ser dada às doenças transmissíveis de animais. Algumas delas
são bem conhecidas na agropecuária global (peste suína, febre aftosa), e os
processos tradicionais de tratamento e prevenção são disponíveis e aplicados no
Brasil. Outras (tripanosomiase bovina, retroviroses eqüinas), são específicas e
emergentes na parte central da América Latina, e as pesquisas da sua prevenção e
cura deverão ser feitas essencialmente no parque científico brasileiro. O apoio
contínuo e intenso a essas instituições deve visar a amplificação de recursos
humanos novos e a sua fixação no país, e a capacitação das instituições instaladas
a incorporarem as técnicas novas e as informações oriundas da genômica.

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A segunda parte do desenvolvimento da biotecnologia molecular envolve,
além de pesquisas acadêmicas, a validação e a implantação de processos
industriais. Embora existam no Brasil centros de excelência em engenharia de
processos, a interação com a área de biotecnologia não está enraizada, e
mecanismos de estimulação dessa interação deverão ser implementados. No
mercado internacional, a produção em grande escala de proteínas recombinantes é
reconhecidamente um gargalo, já que a capacidade instalada de produção está
plenamente saturada. O lançamento recente de várias proteínas de uso
potencialmente muito amplo, e a sua aprovação pela FDA, gerou uma demanda que
não pode ser atendida nas instalações existentes. Essa parte de desenvolvimento
tecnológico requer investimentos vultuosos e uma estreita interação com o setor
produtivo. No âmbito internacional, essa parte de desenvolvimento, garantindo
investimentos e lucros vultosos, é feita essencialmente nas grandes empresas
farmacêuticas multinacionais. Devemos notar que a maioria de companhias
menores de pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia oriundas da esfera
acadêmica, criadas nos EUA e na Europa na década de 80, foi comprada por
empresas gigantes multinacionais de industria químico-farmacêutica. No Brasil, o
estado atual nessa área foi agravado pelo fato que a maior parte das industrias
farmacêuticas que atuam no país são as multinacionais que não desenvolvem
nenhuma pesquisa no país. A transferência de patentes das companhias
multinacionais pelo uso abusivo de pipeline, que acompanhou a implantação das
patentes na área de biotecnologia, permitiu o registro das patentes antigas como
novas, gerando uma dificuldade adicional na implantação de processos de produção
no país. Cabe ao poder público introduzir urgentemente as correções necessárias,
limitando o poder da proteção de processos industriais vitais para a área de saúde
no país (como já proposto para os antivirais usados no tratamento de infeção por
HIV) e introduzindo os métodos corretivos que permitirão a transferência de
investimentos de empresas multinacionais para o setor de pesquisa e
desenvolvimento no país. Devemos notar que, à diferença de outros países
industrializados onde os centros de pesquisa e desenvolvimento são em grande
parte localizados em instituições privadas, no Brasil esses centros de competência
instalada fazem parte de sistema público acadêmico e de instituições
governamentais de pesquisa, que possuem uma estrutura e quadros científicos de

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excelente nível. Já que a experiência prévia nos ensina que não será possível
obrigar as empresas multinacionais instalarem novos centros de pesquisa no país,
devem ser previstos mecanismos de transferência criteriosa de incentivos
financeiros para o setor de pesquisa já instalado no país. No lugar de ensaios de
transferência de modelos que operam nos EUA e Europa, devemos procurar
implantar um modelo original, centrado nas estruturas já existentes no país. O
exemplo recente e extremamente frutuoso da intensa expansão de estruturas
públicas e acadêmicas instaladas no Estado de São Paulo, devida ao financiamento
criterioso e amplo da FAPESP e dos organismos associados em torno do Projeto
Genoma, deve ser seguido pelo poder federal. Nesse caso, a transferência de
competência adquirida no setor público para a área industrial já está sendo
realizado naturalmente, mostrando a viabilidade desse modelo de desenvolvimento.
Em função da irregularidade de investimentos, a pesquisa e o desenvolvimento de
bioprocessos no país está ainda insuficiente, e os centros que já possuem núcleos
instalados devem receber o apoio adequado para um desenvolvimento rápido.

GENÔMICA
Os avanços impressionantes da genômica na última década terão efeitos
consideráveis na área médica. O sequenciamento do genoma humano nos traz a
informação do tamanho do problema a ser estudado. O numero menor do que
esperado de genes identificados nos ensina que a sua interatividade e os
fenômenos pós-transcricionais são mais amplos e mais relevantes do que
inicialmente avaliados. Enquanto a beleza da simplicidade do código genético nos
permite o uso de sistemas automatizados de sequenciamento e uma análise
computacional

da

sua

estrutura,

a

compreensão

da

sua

função

e,

consequentemente, dos desvios patológicos, envolve sistemas conceituais teóricos
e operacionais muito mais complexos. Por um lado, estudos combinatórios de
seqüências associadas estatisticamente com certas patologias nos fornecem
ferramentas potencialmente úteis em aplicações médicas imediatas da genômica. A
capacidade de identificação de fatores genéticos de risco individual ou populacional
para o desenvolvimento de certas patologias traz claramente benefícios na
predictibilidade de riscos decorrentes de certos padrões de interação com o meio

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ambiente e a possibilidade de prevenção das conseqüências não desejadas.
Enquanto o sistema público de saúde no país é ainda o mediador principal da
prevenção e assistência médica da grande parte da população nacional, esforços
adequados serão necessário para a transferência de novos conhecimento e a sua
disponibilidade para a população em geral. Por outro lado, a compreensão plena
dos mecanismos celulares e moleculares envolvidos na fisiologia e patologia
humana vão requer estudos extensos em bioquímica estrutural e funcional de
proteínas e, ainda muito mais, da função de sistemas complexos celulares, teciduais
e sistêmicos. A iniciativa da integração das unidades científicas e acadêmicas
nacionais, liderada atualmente pelo Estado de São Paulo, mostra o caminho e
indica a necessidade de integração nacional maior.
* * *
Graças ao esforço da FAPESP associada, na área de saúde, com o Instituto
Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer de São Paulo, o Brasil é atualmente um dois
países mais desenvolvidos na área de genômica, e a infraestrura instalada garante
a manutenção dessa posição no próximos anos. Esse esforço pode servir de
exemplo para outras áreas. O sequenciamento de genoma humano, e o projeto de
análise de genoma do câncer, representam muito mais um início de uma nova era
de pesquisa biomédica do que um resultado final. As aplicações médicas desse
conhecimento dependem da capacidade de análise de sistemas complexos, já que
a maioria de patologias dominantes (doenças cardio-vasculares, doenças
degenerativas,

câncer,

doenças

infeciosas)

são

dependentes

de

fatores

multigênicos. Em paralelo com a capacidade já instalada de estudos genômicos
moleculares, o Brasil dispõe de uma capacidade invejável de pesquisa instalada na
área de estudos celulares e de sistemas complexos, capazes de entrar em
pesquisas da época pós-genômica. Esses centros são essencialmente localizados
em grandes Universidades Federais (destacam-se as UFRJ, UFRGS, UNIFESP,
UFMG) e, na área de infectologia, nos centros de pesquisa da FIOCRUZ. O
Governo Federal deve prever e planejar um esforço particular nessa área, para
valorizar esse capital de excelência de recursos humanos já existente.

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BIOENGENHARIA E BIOMIMÉTICA

"Ten Millenia ago the development of agriculture freed humanity
from a reliance on whatever sustenance nature was kind enough
to provide. The development of tissue engineering should provide
an analogous freedom from the limitations of the human body"
- D. Mooney, T. Mikos
A área emergente de bioengenharia médica visa a substituição terapêutica
de estruturas multicelulares, teciduais ou equivalentes a órgãos. Ela pode ser
qualificada de "Medicina Regenerativa", pois visa o reparo de tecidos lesados ou
degenerados por substitutos funcionalmente e estruturalmente equivalentes. A
bioengenharia abrange os processos que usam as células vivas autólogas,
alogenéicas ou xenogenéicas como agentes terapéuticos. A biomimética usa
moléculas e estruturas supramoleculares para induzir processos de regeneração
mediados por células endógenas, ou combina o uso de células exógenas, mais
freqüentemente manipuladas ex vivo ou cultivadas in vitro.
A MEDICINA REGENERATIVA procura controlar e ampliar a capacidade natural
de regeneração de tecidos. A regeneração mantém naturalmente a homeostasia
tecidual, substituindo continuamente as células gastas. Os tecidos altamente
expostos ao estresse externo são intensamente regenerados, como o epitélio
intestinal ou cutâneo, assim como os tecidos caracterizados pela alta taxa de
renovação contínua, como as células sangüíneas. Por outro lado, ela pode
eventualmente reparar, quando necessário, os tecidos lesados por trauma, doença
ou senescência. A Medicina Regenerativa busca criar condições ideais para o
reparo e a substituição de tecidos lesados, fornecendo elementos celulares
requeridos, os fatores de proliferação e diferenciação celular que podem garantir a
geração

de

quantidade

suficiente

de

células

novas,

e

as

estruturas

supramoleculares que providenciam a organização espacial plenamente funcional
de novos tecidos gerados e a sua integração sistêmica. O conjunto dessas ações

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representa o campo de ação da bioengenharia, compreendendo a engenharia
celular e tecidual, e a biomimética.
A importância crescente da Medicina Regenerativa é devida às modificações
demográficas e sociais. O aumento progressivo da idade média das populações
humanas, e em particular das populações urbanas, gera a necessidade de garantir
cada vez mais a qualidade da vida, compatível com um custo e uma carga social
aceitáveis. Calcula-se que o número de habitantes de terceira idade (65-85 anos)
triplicará nos próximos 50 anos, e o número de habitantes em senectude crescente
(>85 anos) será multiplicado por seis. O segundo desses dois grupos consome vinte
vezes mais custos da assistência médica e duas vezes mais internação hospitalar
do que o primeiro. As doenças degenerativas são a causa essencial e crescente
dessa carga social, causando a deterioração da qualidade de vida e aumento dos
custos da assistência médica. - Por outro lado, as populações jovens, vivendo em
aglomerações de alta densidade, estão mais expostas a lesões traumáticas.
Embora numericamente menos significativas, essas lesões tem um altíssimo custo
social, gerando freqüentemente pessoas jovens debilitadas ou permanentemente
incapacitadas para uma vida normal e produtiva. Em populações urbanas do Brasil,
as lesões traumáticas são a primeira causa tanto da internação hospitalar quanto da
morte na segunda e terceira décadas da vida dos jovens.
Ambas as situações exigem terapias que possam preservar, melhorar, e/ou
restaurar as funções teciduais. Contrastando com a produção de fármacos,
antibióticos ou vacinas que podem ser usados indistintamente por um grande
número

de

habitantes,

a

Medicina

Regenerativa

é

individual,

dirigida

especificamente a cada um dos casos atendidos, no seu contexto particular. Tratase portanto de uma medicina individualizada, cuja ação pode envolver duas etapas,
independentes ou associadas:
-

a manipulação ex vivo de células do próprio paciente, sua expansão,
diferenciação e integração potencial em estruturas ordenadas superiores,
que serão re-introduzidas nas regiões lesadas e integradas no processo
de regeneração (bioengenharia ou engenharia tecidual);

10

-

a introdução, nas regiões lesadas, de estruturas supramoleculares,
semelhantes aos elementos de matriz extracelular e mediadores
intercelulares associados, facilitando a mobilização, expansão e
integração de populações de células regenerativas internas, fomentando
o reparo de lesões ou de regeneração e renovação de tecidos
degenerados (biomimética).

Ambos os processos se beneficiam dos avanços espetaculares da
genômica, tendo potencialmente acesso às informações necessárias para definir o
perfil do paciente, as necessidades de células envolvidas nos procedimentos
planejados, e controlando a interação entre as células manipuladas, os tecidos
internos e os elementos estruturais extracelulares. Os conhecimentos mais amplos
da área de pós-genômica são a base conceptual dessa parte de medicina,
requerendo uma extensão de conhecimentos genômicos para os das organizações
celulares, das interações e de funções celulares, e da função das estruturas
supracelulares.
Dois novos conceitos justificam atualmente a renovação dos projetos em
bioengenharia:
- No últimos anos, o conceito do uso potencial da célula tronco-progenitora,
de origem embrionária ou de organismo adulto, introduziu novas perspectivas em
tratamento celular de patologia teciduais. A possibilidade de cultivo de células
progenitoras embrionárias (embryonic stem cells ­ ESC) humanas a partir de
blastocístos obtidos por fecundação in vitro, permitiu propor transplantes de células
embrionárias totipotentes em tecidos degenerados, conseguindo uma regeneração
in situ de populações celulares funcionais. Aplicações clínicas já foram obtidas em
tratamento de doenças degenerativas do sistema nervos central. Enquanto os
implantes nos sítios imunologicamente privilegiados não encontram obstáculos
maiores, uso de células embrionárias alogenéicas enfrenta o problema de rejeição
imunológica. Uma das soluções atualmente estudadas é o transplante do núcleo de
células do receptor para as células embrionárias cultivadas, gerando assim clones
de células autólogas com características de células progenitoras embrionárias
totipotentes.

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- Uma via alternativa foi vislumbrada com estudos recentes, mostrando que o
organismo adulto possui uma reserva de células tronco-progenitoras pluripotentes.
A fonte mas ampla é aparentemente a medula óssea, cujas células tronco mostram
a capacidade de diferenciação praticamente totipotente, incluindo (em modelos
animais) uma capacidade de diferenciação em um ampla gama de células de
origem mesenquimal, endodérmica e ectodérmica. Como essas células podem ser
facilmente colhidas, e potencialmente cultivadas ex vivo, esse novo conceito abre
amplas possibilidades de seu uso em medicina regenerativa, nos sistemas
autólogos e portanto isentos de problema de rejeição imunológica. Além das células
progenitoras medulares, vários tecidos guardam a reserva interna de células pouco
diferenciadas com capacidade de regeneração. As células satélites de fibras
musculares esqueléticas são um dos exemplos clássicos, assim como pericitos
pericapilares. Estudos recentes mostraram que, embora engajadas em uma via, ou
em um número limitado de vias de diferenciação (committed stem cells), essas
células podem ser induzidas em transdiferenciação, como por exemplo a obtenção
de condroblástos e osteoblástos a partir de células satélites musculares ou de preadipócitos. Resultados semelhantes foram obtidos com células do sistema nervoso
central: sabemos hoje que células tronco-progenitoras existem no sistema nervoso
central adulto, podendo dar origem a neurônios e astrócitos. Essas observações
abrem uma perspectiva ilimitada para a medicina regenerativas cujos limites
parecem ser cada dia mais amplos.
A possibilidade de diferenciação alternativa de células progenitoras, induzida
por ambiente tecidual in situ ou ex vivo, levanta a segunda questão atualmente
relevante: quais os mecanismos moleculares que determinam ou induzem a
diferenciação de células tronco-progenitoras em um fenótipo particular, e qual a
relação entre os fenômenos algo opostos e complementares de proliferação e
diferenciação celular, ambos requeridos para a aplicação em medicina regenerativa.
Conhecimento de fatores de crescimento e de diferenciação celular secretados para
o ambiente intercelular, e de elementos estruturais intercelulares que compõem o
"ambiente tecidual", mostra cada vez mais a importância de complexos
multimoleculares organizados. Essas estruturas de ordem de organização superior
adquirem as propriedades novas que não representam mais o somatório das

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propriedade de seus elementos isolados. A complexidade dessas estruturas
representa o desafio para a biomimética funcional, que deseja criar as condições
adequadas para a mobilização de células pluripotentes endógenas, ou introduzidas
após a amplificação e manipulação dessas células ex vivo.
* * *
As inovações conceituais e tecnológicas representam o trilho central do
desenvolvimento de Bioengenharia tecidual. Diferente da Biotecnologia Molecular e
Genômica, os modelos do crescimento da bioengenharia e biomimética ainda não
estão estabelecidos. Nos EUA, mais de 90% de investimentos nessa área, que
somaram na década de 90 mais de 3 bilhões US$, com um crescimento em
2000/2001 superior a 1,5 bilhão US$, são oriundos da área industrial privada. No
entanto, a análise de perfil dos investimentos mostra que a área privada investe
essencialmente em processos já estabelecidos. Cinco de maiores companhias
americanas de engenharia tecidual têm como o produto principal os substitutos de
pele. Visando corrigir essa falta de visão prospectiva, as agências públicas federais
dos EUA estão aumentando o seu esforço, tendo investido na mesma década 83,2
milhões US$, dos quis 19,3 US$ em 2000.
No Brasil, a demanda para os procedimentos médicos de bioengenharia
tecidual origina-se tanto na área hospitalar privada quanto em centros médicos
públicos. Para a rede privada ela representa a possibilidade de oferecer um
tratamento de alta complexidade a um público qualificado com poder aquisitivo
compatível com o custo alto e habituado às despesas envolvendo tratamento e
prevenção médica. Para a rede pública, a demanda origina-se na obrigação de
atender a procura e resolver patologias crônicas complexas e lesões graves, que
geram para a sociedade um custo extremamente elevado. Embora exista o
interesse da rede privada nessa área, a sua capacidade (e vontade) de investimento
é limitada. No estado de Rio de Janeiro 80% de atendimentos médicos classificados
pelo SUS como de "alta complexidade" são realizados na rede pública,
principalmente nos hospitais UFRJ e nos Institutos Nacionais de Câncer e de
Traumato-Ortopedia. A situação é semelhante em outros estados. Seguindo a
experiência dos EUA, cabe ao Governo Federal prever os mecanismos de interação
entre as partes interessadas e, mais uma vez, fornecer o apoio adequado aos

13

grupos já instalados no país que possuem um capital elevado em recursos
humanos.
* * *
Em conclusão, apesar das irregularidades cíclicas no apoio à pesquisa e
desenvolvimento no país, em conseqüência do esforço do CNPq, CAPES,
Ministérios de Ciência e Tecnologia, Saúde e Agricultura, algumas das Fundações
Estaduais, e algumas Fundações de direito privado, o Brasil possui uma capacidade
de pesquisa instalada e um acervo de recursos humanos consideráveis. A diferença
dos Estados Unidos, nos países de Oriente, e em alguns dos países da Europa,
quase o total volume dessa capacidade é localizado em estruturas federais ou
estaduais. Esse modelo representa a originalidade do sistema de ciência e
tecnologia brasileiro. Ele pode ser plenamente aproveitado na medida que:
-

o

setor

público

se

encarregue

de

continuar

centralizando

e

implementando a capacidade de desenvolvimento científico do país;
-

o setor público estabeleça os mecanismos claros e eficientes para a
transferência e fluxo de investimentos privados para as instituições
públicas com a capacidade de desenvolvimento e de recursos humanos
já instalada;

-

o setor público estabeleça os mecanismos claros e eficientes para o
retorno de benefícios, divididos de maneira justa entre o setor produtivo e
o setor de pesquisa e desenvolvimento público, já que os dois setores
são dissociados no caso do Brasil, embora ambos tenham interesse
direto no desenvolvimento econômico e social da nação.

Radovan Borojevic
Departamento de Histologia e Embriologia,
Programa Avançado de Biologia Celular Aplicada à Medicina,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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