A Bioengenharia na Requalificação fluvial da
Ribeira de Odelouca

Nuno Rebelo

Dissertação de Mestrado em Engenharia do Ambiente

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
VILA REAL, 2015

Júri de apreciação
Presidente do Júri: ______________________________
1º Vogal: ______________________________
2º Vogal: ______________________________
Classificação: ______________________________
Data de apreciação: ______________________________

B

O orientador
______________________________________________________________________
Professor Doutor Rui Manuel Vítor Cortes

Coorientador
_______________________________________________________________________
Professor Doutor António Luís Crespi
C

AGRADECIMENTOS
Ao concluir a minha dissertação de mestrado, não posso deixar de agradecer a
todos os que, de alguma forma, contribuíram para a sua realização:
Ao Professor Doutor Rui Cortes, por ter aceitado a orientação deste trabalho, por
todos os ensinamentos que me transmitiu, pela sua disponibilidade e pela sua amizade.
Ao Professor Doutor António Crespi, por ter também aceitado a orientação deste
trabalho, por todos os ensinamentos que me transmitiu, pela sua disponibilidade, por
toda a confiança que me transmitia nos trabalhos de campo.
Às Doutoras Samantha Hughes e Simone Varandas pelo apoio incondicional
prestado, pelo conhecimento e pelo incentivo que me transmitiram.
À equipa do Laboratório de Ecologia Fluvial, nomeadamente ao Vítor Pereira, ao
Joaquim Jesus, à Marisa Lopes e à Cátia Santos pela ajuda prestada no laboratório, pelos
dados fornecidos e pelo bom ambiente de trabalho.
Aos meus amigos Igor e Marlene que acompanharam esta jornada, que me
cederam a sua casa para tratar de assuntos relativos à dissertação e pelos conselhos que
sempre me deram.
A toda a família Coelho que sempre me acolheu como um membro da família,
que dispensou grande parte do seu tempo para me ajudar em tudo aquilo que eu
precisava e pelo amor que sempre me transmitiram.
À Diana, poucas serão as palavras para agradecer tudo aquilo que sempre fez por
mim... Companheira, boa amiga, conselheira, paciente e sempre presente são
qualidades que destaco nesta grande mulher. A ti meu Amor nunca conseguirei
agradecer.
Aos meus manos, Bela, José e Angelita e respetivos cônjuges, Alcino, Cidália e
Hélder pelo apoio incondicional e pelo orgulho que sempre demonstraram ter pelo meu
trabalho.
À minha querida Mãe, por estar sempre ao meu lado e por estar sempre pronta
para mais um conselho.
À minha estrela, que me guia lá do Céu, a ti dedico todo este trabalho. Obrigado
por tudo meu querido Pai.

iv

ÍNDICE GERAL

AGRADECIMENTOS
ÍNDICE GERAL

IV
V

ÍNDICE DE FIGURAS

VII

ÍNDICE DE TABELAS

VIII

RESUMO

IX

ABSTRACT

X

1. INTRODUÇÃO

1

1.1.
Diretiva Habitats, Lei da Água e Diretiva-Quadro da Água, e o Estado Ecológico da Ribeira de
Odelouca
1
1.2.

A Engenharia Natural

4

1.3. Os macroinvertebrados bentónicos como bioindicadores

6

1.3.

7

Objetivos

2. CARACTERIZAÇÃO AMBIENTAL DA BACIA HIDROGRÁFICA DA RIBEIRA DE
ODELOUCA
9
2.1. Geologia e geomorfologia

9

2.2. Clima e precipitação

11

2.3. Tipos de solo

12

2.4. Uso do Solo

13

2.5. Caracterização ecológica

13

2.6. Pressões antropogénicas

14

3. A BIOENGENHARIA NA REQUALIFICAÇÃO NA RIBEIRA DE ODELOUCA
3.1. Caracterização dos Troços selecionados para intervenção:

16
17

v

3.1.1.Troço A
3.1.2.Troço B
3.1.3.Troço C
3.1.4.Troço D
3.1.5.Troço E
3.1.6.Troço F e G
3.1.7 Troço H
3.1.8. Troço I
3.1.9. Troço J
3.1.10. Troço K
3.1.11.Troço L
3.1.12. Troço M
3.1.13. Troço N

4. MATERIAL E MÉTODOS

17
17
17
18
18
18
20
20
21
21
23
23
24

25

4.1. Caracterização físico-química da água

25

4.2. Caracterização hidromorfológica

25

4.3. Macroinvertebrados bentónicos
4.3.1. Índices IPtIN e IPtIS

26
27

4.4. Caracterização da Flora

28

5. RESULTADOS

32

5.1. Caracterização físico-química da água

32

5.2. Caracterização hidromorfológica

32

5.3. Macroinvertebrados bentónicos

34

5.3. Inventários Florísticos

36

6. ANÁLISE DE RESULTADOS E DISCUSSÃO

42

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

47

BIBLIOGRAFIA

48

ANEXOS

52

Anexo I

52

vi

ÍNDICE DE FIGURAS
Figura 1 - Bacia Hidrográfica da Ribeira de Odelouca

9

Figura 2 - Variação da Altitude na bacia hidrográfica do rio Arade

10

Figura 3 - Geologia da bacia hidrográfica do rio Arade

10

Figura 4 - Precipitação média anual na Bacia Hidrográfica do Rio Arade

11

Figura 5 - Temperatura média anual na Bacia Hidrográfica do Rio Arade

12

Figura 6 - Principais tipos de solo encontrados na bacia hidrográfica do Arade.

12

Figura 7 - Ocupação do solo na Bacia Hidrográfica do Arade

13

Figura 8 - Pressões antropogénicas existentes na Bacia Hidrográfica do Arade

15

Figura 9 - Mapa dos troços intervencionados na Requalificação Ambiental de Odelouca

16

Figura 10 ­ Troço intervencionado F e G

19

Figura 11 - Troço intervencionado H

20

Figura 12 - Troço intervencionado I

22

Figura 13 - Troço intervencionado K

24

Figura 14 - Troço intervencionado M

25

Figura 15- Inventários realizados nos locais intervencionados F e G (Troço 1)

30

Figura 16 - Inventários realizados no local intervencionado I (troço 2)

30

Figura 17 - Inventários realizados no local intervencionado M (troço 3)

31

Figura 18 - Inventários realizados no local intervencionado K (troço 4)

31
32

Figura 19 - Inventários realizados no local controlo D
Figura 20 - Número de espécies encontradas nos 29 inventários realizados

38
41

Figura 21 - Análise canónica discriminante
42
Figura 22 - Amplitudes máximas para distribuição da diversidade funcional fisionómica
42
Figura 23 - Amplitudes máximas para distribuição da diversidade funcional biogeográfica
44
Figura 24 - Presença ou ausência de Arundo donax nos troços intervencionados.

vii

ÍNDICE DE TABELAS

Tabela 1 - Modificação de Habitat Modification Score para Habitat Modification Class

27

Tabela 2 - Escala de abundancia-dominância de Braun-Blanquet

29

Tabela 3 - Parâmetros físico-químicos obtidos a partir das amostras recolhidas em Maio de
2012.

34

Tabela 4 - Classificação da qualidade hidromorfológica, nos diferentes locais de amostragem, de
acordo com o Habitat Modification Score (HMS) em Maio de 2013.

34

Tabela 5 - Classificação da qualidade hidromorfológica dos troços de acordo com o River Habitat
Survey (RHS) em Maio de 2013

35

Tabela 6 - Classificação da qualidade hidromorfológica, nos diferentes locais de amostragem, de
acordo com o índice de qualidade do bosque ribeirinho (QBR) em Maio de 2013

35

Tabela 7 - Classificação do elemento biológico macroinvertebrados bentónicos nos diferentes
locais de amostragem em Maio de 2013.

36

Tabela 8 - Comparação da classificação do elemento biológico macroinvertebrados bentónicos
nos diferentes locais de amostragem em Maio de 2013 com os anos anteriores (2011 e 2012).

37

Tabela 9 - Distribuição da diversidade fisionómica

39

Tabela 10 - Distribuição da diversidade fisionómica biogeográfica

40

viii

RESUMO
A crescente preocupação com o estado dos ecossistemas fluviais, e a
implementação da Diretiva Quadro da Água que pressupõe a sua proteção e
requalificação, levou a que várias equipas por todo o país, ao abrigo da Lei nacional da
água, iniciassem várias medidas de monitorização e intervenção. Este estudo reflete
uma dessas ações, levada a cabo na ribeira de Odelouca.
Esta ribeira, sujeita a vários tipos de pressões antropogénicas e distúrbios de
ordem ambiental, e caracterizada por vários fenómenos erosivos e presença de espécies
exóticas potencialmente invasoras, foi objeto de intervenção em vários troços, através
de técnicas de bioengenharia, de modo a restaurar a sua diversidade taxonómica e
funcional, a conectividade entre os seus troços, as condições de estabilização das suas
margens, e de modo geral, melhorar a sua qualidade ecológica.
Foi possível verificar, de modo ainda preliminar, devido a alguns aspetos a
melhorar na metodologia, que é possível aumentar a diversidade taxonómica e
funcional, bem como as condições gerais de qualidade do ecossistema fluvial, a partir
da utilização de algumas técnicas utilizadas, tais como enrocamentos de base vegetados
e aplicação de geotêxtil.
Assim sendo, a utilização destas técnicas revelou-se útil, mas será necessário que
se aprofundem conhecimentos sobre as ligações bióticas e abióticas intrínsecas ao
ecossistema, de modo a que se possa inferir acerca do seu estado com mais rigor e
precisão, a todos os níveis, desde os parâmetros físico químicos, até às comunidades
biológicas analisadas.
Além disso, uma monitorização contínua revelar-se-á essencial, para
comparação da evolução espácio-temporal das comunidades e condições do referido
ecossistema.

Palavras-chave:
Bioengenharia,
Requalificação,
Flora,
Arundo
Macroinvertebrados, Ribeira de Odelouca, Diretiva-Quadro da Água.

donax,

ix

ABSTRACT
Bioengineering in the fluvial requalification of Ribeira de
Odelouca
The growing concern about fluvial ecosystems status and the implementation of
Water Framework Directive, which presupposes its protection and requalification, led
several teams all over the country, following the national water law, to start several
measures of monitorization and intervention. This study reflects one of those actions,
carried out at Ribeira de Odelouca.
This water line, subject to several anthropogenic pressures and environmental
disorders, and characterized by several erosive phenomena and the presence of
potentially invasive exotic species, was object of intervention in several sections,
through bioengineering techniques, in order to restore its functional and taxonomic
diversity, its sections' connectivity, its margins' stabilization and, in a general way, to
improve its ecological quality.
It was possible to verify, still in a preliminary way, due to some issues to improve
concerning the methodology, that it is possible to increase the functional and taxonomic
diversity, as well as the overall conditions of the fluvial ecosystem quality, through some
of the used techniques, such as vegetated stone walls and geotextile application.
Nevertheless, the use of these techniques revealed itself useful but it will be
necessary to enlarge the knowledge about the biotic and abiotic connections, inherent
to the ecosystem, in order to conclude about its status more precisely, at all levels, from
physico-chemical parameters, to the studied biological communities.
Besides this, a continuous monitorization will reveal itself essential, in order to
compare the communities' space-time evolution and conditions of the referred
ecosystem.

Keywords:

Bioengineering,

Requalification,

Flora,

Arundo

donax,

Macroinvertebrate, Ribeira de Odelouca, Water Framework Directive.

x

1. INTRODUÇÃO
1.1. Diretiva Habitats, Lei da Água e Diretiva-Quadro da Água, e o
Estado Ecológico da Ribeira de Odelouca
O património natural e a sua conservação têm vindo a constituir uma crescente
preocupação política no seio dos Estados-Membros pertencentes à Comunidade
Económica Europeia nas últimas décadas.
De facto, concluiu-se que a degradação dos habitats naturais em território
europeu, e consequentemente da biodiversidade, dificultam um desenvolvimento
sustentável, sendo de interesse geral que estas situações sejam revertidas. Para tal, foi
então necessário criar medidas a nível comunitário para reabilitar ou manter os habitats
e as espécies mais ameaçados.
Nasce assim a Rede Natura 2000, que, através da aplicação de duas diretivas
comunitárias, A Diretiva Habitats (92/43/CEE) e a Diretiva Aves (79/409/CEE), constitui
um instrumento político fundamental para a conservação da natureza e da
biodiversidade na União Europeia.
A Diretiva Aves foi transposta para a legislação nacional em 1991 através do
Decreto de Lei 75/91, de 14 de Fevereiro. A Diretiva Habitats foi transposta para a
legislação nacional pelo Decreto de Lei 226/97 de 27 de Agosto. As diretivas europeias
foram uniformizadas na legislação nacional no Decreto de Lei n.º 140/99, de 24 de abril,
republicado pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de Fevereiro.
A Diretiva Habitats tem como objetivos centrais a conservação dos habitats
naturais, além da flora e fauna selvagens, através da criação Sítios de Importância
Comunitária (SIC), que passaram mais tarde a ser denominados Zonas Especiais de
Conservação (ZEC), selecionados de acordo com critérios específicos descritos no anexo
III da referida diretiva. A rede Natura 2000 integra ainda, além das ZEC, as Zonas de
Proteção Especial (ZPE), designadas segundo a Diretiva Aves.
De modo geral, a Diretiva Habitats regula, relativamente às espécies selvagens
(com a exceção das aves), a sua captura, abate, colheita, detenção, transporte, comércio
e relativamente aos habitats naturais, as medidas de mitigação de perturbações ou
1

destruição, bem como medidas de gestão, conservação ou reabilitação, se necessária.
(DIRECTIVA 92/43/CEE DO CONSELHO, de 21 de Maio de 1992; www.icnf.pt).
O Sítio Arade/Odelouca, segundo a Rede Natura 2000, foi classificado através da
Resolução do Conselho de Ministros n.º 142/97 de 28 de Agosto, constituindo uma
condicionante ao abrigo do Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de Abril com o código
PTCON0052. Segundo Jesus (2008), o Plano Sectorial da Rede define como principais
ameaças a este sítio as dragagens; a poluição difusa de origem agrícola; a poluição da
água provocada por efluentes de suiniculturas, sobretudo na ribeira de Odelouca; corte
de vegetação ripícola; atividades desportivas de moto náutica na zona estuarina do
Arade e construção de barragens. Segundo este plano é essencial que se dê prioridade
à melhoria da qualidade da água, a manutenção da morfologia do leito do rio e a
preservação da vegetação ribeirinha.
A proteção da água é já há algumas décadas uma preocupação no seio dos
Estados-Membros pertencentes à Comunidade Económica Europeia e, posteriormente
à União Europeia. A 16 de junho de 1975 foi iniciada a legislação relativa à qualidade das
águas superficiais destinadas à produção de água potável, com a diretiva 75/440/CEE
(CEE, 1975).
A qualidade das águas destinadas ao consumo humano foi legislada a 15 de junho
de 1980, aquando da implementação da Diretiva 80/770/CEE (CEE, 1980).
No ano 2000, e numa necessidade de melhoramento da gestão e proteção das
águas superficiais da Comunidade Europeia através de uma política comunitária
integrada, surge a Diretiva-Quadro da Água (DQA), Diretiva 2000/60/CE do Parlamento
e do Conselho, de 23 de Outubro de 2000, que propõe várias medidas que, se efetuadas
em conjunto, deverão contribuir para a eliminação das substâncias poluentes
prioritárias, a diminuição gradual de emissões de substâncias perigosas para as águas, a
promoção da utilização sustentável da água (de modo a proteger também os
ecossistemas que dela dependem de forma direta e o desenvolvimento das
potencialidades de utilização das águas comunitárias), e ainda o alcance ou a
manutenção de um bom estado em todas as massas de água até ao ano de 2015 (EU,
2000; Chen, Zhang et al. 2007; Junier e Mostert, 2011).
Este tipo de objetivos desencadeou uma série de medidas de monitorização e
reabilitação de massas de água, de modo a definir o seu estado ecológico e recuperá-lo
2

em caso de necessidade. O estado ecológico de um ecossistema aquático define-se pelo
desvio das condições ambientais encontradas relativamente às condições de referencia,
que por sua vez caraterizam uma massa de água praticamente inalterada, com poucos
ou nenhuns efeitos antropogénicos subjacentes (Ector e Rimet, 2005).
Tendo esta definição por base, foram criadas cinco classes de qualidade (Mau,
Medíocre, Razoável, Bom e Excelente), e os critérios para obter a classificação em cada
tipo de massa de água, agrupadas devidamente de acordo com as suas características.
(EU, 2000).
A transposição da Diretiva-Quadro da Água para o direito nacional ocorreu em
2005, pela Lei da Água (Lei 58/2005 de 29 de dezembro) e pelo decreto-Lei 77/2006 de
30 de março, cumprindo-se o disposto no ponto 1 do artigo 11º da DQA, e definindo as
bases necessárias de implementação da Diretiva comunitária (INAG, 2006).
Esta preocupação crescente com as massas de água e a sua qualidade adveio do
facto de ser um recurso largamente utilizado e essencial à vida, e por outro lado, por ser
cada vez mais frequente a degradação e destruição das suas fontes, nomeadamente os
ecossistemas aquáticos (Coelho, 2012).
Entre estas formas de destruição e degradação podemos apontar as alterações
do uso do solo juntos às linhas de água, nomeadamente a agricultura intensiva e a
eliminação progressiva das galerias ripícolas, bem como as construções de estruturas de
aproveitamento hídrico (barragens ou açudes), que são claramente nocivos para os
ecossistemas aquáticos em geral (Jesus, 2008).
Segundo o mesmo autor, no caso da ribeira de Odelouca, a construção da
barragem adveio da necessidade de satisfazer a procura de água em anos de
insuficiência devido a secas prolongadas. No entanto, o facto de este empreendimento
se localizar em zona de proteção da Rede Natura 2000, nomeadamente o Sítio
Arade/Odelouca, levou a que, após terem sido ultrapassados a retirada de
financiamento e a suspensão de construção, fosse obrigatória a tomada de medidas
compensatórias, incluindo a implementação de um sistema ambiental destinado à
gestão da barragem e dos ecossistemas envolventes (Fernandes, Ferreira et al., 2007).
Uma dessas medidas foi a requalificação da ribeira de Odelouca, de modo a
mitigar ou minimizar os efeitos de erosão das margens e degradação dos habitats,
através de técnicas de Engenharia Natural.
3

1.2. A Engenharia Natural
A Engenharia natural, também denominada bioengenharia ou engenharia
biofísica, definida por Hugo Meinhard Schiechtl, como um subdomínio da Engenharia
Civil que prossegue objetivos técnicos, ecológicos, criativos, construtivos e económicos
(Fernandes e Freitas, 2011) é amplamente utilizada no restauro fluvial, através da
combinação de material vegetal vivo (sementes, plantas ou partes de plantas) com
materiais inertes (pedra, terra, madeira, ferro ou aço) como materiais de construção.
Desta forma, é possível criar melhorias significativas no ecossistema fluvial,
nomeadamente no controlo dos processos erosivos, na estabilização do solo e margens
e na regeneração dos habitats, produzindo um impacte ambiental mínimo, e permitindo
a integração das intervenções nas áreas circundantes (Sangalli, 2009), através do seu
enquadramento ecológico e funcional (Fernandes e Freitas, 2011).
Pode também ser definida como a gestão da relação simbiótica entre o design
da sociedade humana e o design da natureza, do meio ambiente onde aquela se insere
(Matlock e Morgan 2011). Segundo estes autores, apesar de o conceito ter nascido no
século XX, foi apenas no século XXI que emergiu na prática, e adquiriu um conceito de
processo interdisciplinar de criação de sistemas que preservam, restauram e criam
serviços de ecossistemas.
Existem várias técnicas de engenharia natural amplamente utilizadas no restauro
fluvial, cada uma com especificidades e objetivos distintos, como por exemplo as faxinas
vivas ou os gabiões vegetados.
A APENA ­ Associação Portuguesa de Engenharia Natural, promove a partilha do
conhecimento sobre as várias aplicações e técnicas dentro desta disciplina, contribuindo
também para a formação dos profissionais e para o desenvolvimento de novas
metodologias.
Em Portugal, as técnicas de Engenharia Natural são utilizadas em casos de
restauro fluvial e não só, sendo também aplicados a zonas costeiras e regiões dunares,
e ainda a taludes de vias rodoviárias. Relativamente à restauração de ecossistemas
fluviais, esta prática é realizada ainda em projetos de pequena escala, não
4

complementares entre si, o que não permite obter dados conclusivos relativamente à
resolução de problemas de maior extensão (Jesus, 2008).
Segundo o mesmo autor, no caso da Ribeira de Odelouca, os maiores problemas
a considerar foram a acentuada erosão das margens e a colonização de espécies exóticas
em larga escala, nomeadamente o canavial, com consequências muito negativas para os
sistemas bióticos anteriormente existentes. O canavial apresenta elevada densidade,
impedindo o desenvolvimento de fauna, cortina ripária e a continuidade do fluxo de
água.
A espécie ripária Arundo donax é uma conhecida planta exótica da caráter
invasor, que ameaça a biodiversidade global e a capacidade funcional dos ecossitemas
ribeirinhos em muitas regiões (Fernandes et al., 2013; Cushman e Gaffney, 2010; Everitt
et al., 2008; Ge et al., 2008; Herrera e Dudley, 2003). Em Portugal, esta espécie está
amplamente presente, sobretudo em rios do oeste e do sul, tendo sido introduzida para
efeitos de controlo da erosão, e não existem certezas absolutas sobre a sua origem
(Fernandes et al., 2013).
Assim, e sendo que o estado do canal fluvial e da zona envolvente, incluindo a
galeria ripária, são os fatores primordiais onde devem assentar as bases da
requalificação (Cortes, 2004), foram propostas e efetuadas metodologias para mitigar
ou minimizar as consequências destes dois problemas do ecossistema em questão.
As metodologias aplicadas aos troços aquando da requalificação necessitaram
no entanto, de monitorização adequada. Essa monitorização ocorreu nos anos
seguintes, em alguns troços previamente selecionados e dos quais faz parte este
trabalho. Essa monitorização envolveu parâmetros hidromorfológicos, físico-químicos e
biológicos, como será descrito na secção de material e métodos.

5

1.3. Os macroinvertebrados bentónicos como bioindicadores
Os bioindicadores são a medida a partir da qual se pode avaliar o estado
biológico da água num ecossistema. Este estado biológico é afetado por alterações na
integridade física ou química, e a resposta ambiental será monitorizada através da base
da integridade ecológica, ou seja, a integridade biológica, por meio dos bioindicadores
(Barbour e Paul 2010).
As alterações ambientais não seriam contabilizadas sem a perceção de que os
organismos aquáticos têm a capacidade de as refletir, e permitem a monitorização dos
distúrbios através da análise integrada (como referido por Karr (2006), o sistema de
avaliação ecológica ideal compreende as três vertentes: física, química e biológica) de
todo o ecossistema.
Esta análise ocorre com a componente das variações temporais e espaciais, ao
invés de medições instantâneas, como acontece no caso das vertentes química e física.
Assim, com uma avaliação integrada, será então possível compreender a dinâmica do
ecossistema, e as interações ambientais e bióticas que lhe estão subjacentes (Oliveira e
Cortes 2006).
Mas para tal, os bioindicadores deverão cumprir alguns requisitos. Obviamente,
a sua presença deve indicar a existência de condições ambientais previamente definidas
(Wilson, 1994; Hughes, et al., 2010), sendo que quanto mais precisa for esta relação e a
resposta do organismo à alteração das condições ambientais, mais fiabilidade
poderemos atribuir ao bioindicador.
Os macroinvertebrados bentónicos são organismos frequentemente utilizados
como bioindicadores devido à sua facilidade de amostragem, manuseio e identificação,
à sua grande diversidade, tanto a nível taxonómico como a nível de grupos tróficos
funcionais existentes, e à sua extrema sensibilidade a variações nos descritores
ambientais (Karr e Chu 2000; Sponseller, et al., 2001; Ector e Rimet 2005; Blanco e
Bécares, 2010; Rosado, et al., 2011)

6

1.3. Objetivos
No seguimento do Projeto da Barragem de Odelouca e Túnel de Odelouca
Funcho, e do processo de avaliação de impacte ambiental, foram definidas medidas
ambientais de minimização e compensação.
Assim, foram realizadas várias ações de formação e sensibilização ambiental, foi
promovido o restauro de habitats e a reprodução em cativeiro do lince ibérico (através
da Construção do Centro Nacional de Reprodução em Cativeiro do Lince Ibérico, do
fomento das populações de coelho bravo como presa preferencial, da recuperação e
manutenção de habitat favorável, e da criação de um programa de monitorização do Lince
Ibérico), foi realizado o programa de compensação para a avifauna, tendo como
protagonista a águia de Bonelli, assim como iniciativas relativas ao património construído
e arqueológico.
Este trabalho surge no âmbito de uma das várias medidas de compensação,
nomeadamente no que diz respeito às galerias ribeirinhas. Com o Subprograma de
Compensação para as Galerias Ripícolas, (necessário devido à perda de troços inundados
pela albufeira), foi possível realizar ações de determinação do estado ecológico inicial dos
habitats fluviais, requalificação da galeria ripícola, e implementação de um programa de
monitorização da galeria ripícola. Assim, pretende-se retratar neste documento uma
parte dos dados obtidos e das intervenções realizadas, bem como as conclusões daí
retiradas.
Neste estudo procedeu-se à caracterização da morfologia e habitat do troço de
água a jusante da barragem recorrendo à metodologia River Habiat Survey,
caracterização físico-química da água, caracterização das comunidades potenciais de
macroinvertebrado e caracterização da estrutura e composição da galeria ripícola e do
seu estado de conservação com vista a analisar e avaliar as técnicas utilizadas nos troços
intervencionados.

7

Especificamente, pretendeu-se com este trabalho:


Monitorizar os troços intervencionados e comparar os vários índices bióticos
propostos para a avaliação da qualidade ecológica;



Monitorizar a evolução e a composição da galeria ripícola dos troços
intervencionados e avaliar o controlo relativo à espécie Arundo donax,

8

2. Caracterização ambiental da bacia hidrográfica da ribeira de
Odelouca
A Bacia Hidrográfica da Ribeira de Odelouca localiza-se na região do Algarve, no
sul de Portugal continental e encontra-se integrada como sub-bacia da bacia
hidrográfica do Arade (Figura 1). A Ribeira de Odelouca desenvolve-se em plena serra
Algarvia, nascendo na Serra do Caldeirão, numa extensão de aproximadamente 93 km
até à confluência com o rio Arade, drenando uma área total de cerca de 520 km 2. A
altitude máxima atingida pela ribeira ronda os 460 m enquanto a mínima é de 1 metro
de altitude, sendo o declive médio de aproximadamente 0,5% (CCDR, 2004). Os
principais afluentes desta ribeira são a Ribeira da Azinheira, a Ribeira de Corte Mourão
e o Ribeiro do Carvalho (Correia, 2006).

Figura 1 - Bacia Hidrográfica da Ribeira de Odelouca

2.1. Geologia e geomorfologia
A Ribeira de Odelouca que nasce na Serra do Caldeirão, à cota de 509 m (Figura
2) inicia o seu trajeto com uma orientação Este-Oeste, com vertentes acentuadas
talhadas na superfície xistenta, inflete para Sudoeste para contornar a serra de
9

Monchique e, no trecho final, escoa para sul em direção ao estuário do rio Arade (CCDR,
2004)
A bacia hidrográfica é composta essencialmente por xistos argilosos, arenitos e
grauvaques, no entanto encontra-se também a presença de depósitos de sienites,
quartzites, granitos e depósitos metavulcânicos na Serra de Monchique (Figura 3). O
relevo da bacia varia entre zonas declivosas e vales planos permitindo a formação de
meandros em troços longitudinais da ribeira (Fernandes et al., 2007).

Figura 2 - Variação da Altitude na bacia hidrográfica do rio Arade (1:300 000). Adaptado de Silva (2012).

Figura 3 - Geologia da bacia hidrográfica do rio Arade (1: 300 000). Adaptado de Silva (2012).

10

2.2. Clima e precipitação
O clima nesta região é tipicamente mediterrâneo, evidenciando duas estações
distintas, uma estação seca e quente (Verão), que engloba os meses de junho, julho,
agosto e setembro com temperaturas médias acima dos 20 C e uma estação húmida e
fria (Inverno), que inclui os meses de dezembro, janeiro, fevereiro e março com
temperaturas médias entre os 11 C e os 13 C (Correia, 2006).
Na bacia hidrográfica da Ribeira de Odelouca os valores máximos de precipitação
encontram-se nas zonas montanhosas, nomeadamente na Serra do Caldeirão e na Serra
de Monchique e rondam os 1400 mm/ano. No litoral os valores de precipitação média
anual rondam os 400 mm/ano (Figura 4).

Figura 4 - Precipitação média anual na Bacia Hidrográfica do Rio Arade (1:300 000). Adaptado de Silva
(2012).

No que concerne à temperatura, a bacia hidrográfica onde se insere a ribeira
apresenta três faixas distintas de temperaturas médias, aumentando gradualmente de
montante a jusante da mesma, nomeadamente temperaturas médias entre os 15 C a
montante e superiores a 17,5 C na região de Silves. (Figura 5).

11

Figura 5 - Temperatura média anual na Bacia Hidrográfica do Rio Arade (1: 300 000). Adaptado de Silva
(2012).

2.3. Tipos de solo
Segundo o INAG e de acordo com a figura abaixo (Figura 6) representada, os solos
predominantes na bacia hidrográfica do Arade são os litossolos. Podemos encontrar
também, apesar de em menor percentagem, luvissolos e cambissolos. Os litossolos
aparecem normalmente em zonas de relevo acidentado. São solos muito simples,
pobres em matéria orgânica e de fraca aptidão cultural (Jesus, 2008).

Figura 6 - Principais tipos de solo encontrados na bacia hidrográfica do Arade. Adaptado de Jesus (2008).

12

2.4. Uso do Solo
A ocupação do solo na bacia hidrográfica da ribeira de Odelouca é
principalmente efetuada por florestas, florestas abertas e vegetação arbustiva (Figura
7). Em toda a bacia podemos também encontrar o solo ocupado por zonas agrícolas
heterogéneas (Corine Land Cover 2006).

Figura 7 - Ocupação do solo na Bacia Hidrográfica do Arade (1:250:000). Adaptado de Silva (2012).

2.5. Caracterização ecológica
A Ribeira de Odelouca, no que concerne à ictiofauna, inclui três espécies
ciprinícolas classificadas no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal,
nomeadamente, o Escalo do Arade (Squalius aradensis) que se exibe "criticamente em
perigo", a Boga do Sudoeste (Chondrostoma almacai) que também se apresenta
"criticamente em perigo" e o Barbo do sul (Barbus sclateri) que se encontra "em perigo".
Estas três espécies possuem uma área de distribuição bastante confinada, encontrandose, nesta bacia, maioritariamente no sistema Odelouca/Monchique. Podemos também
encontrar ainda duas outras espécies nativas, nomeadamente Anguilla anguilla e Cobitis
paludica.
A bacia hidrográfica do Arade apresenta-se também como zona de elevada
importância para a avifauna, nomeadamente às grandes rapinas, em especial, aos casais
13

de Águia de Bonelli (Hieraaetus fasciatus). Trata-se de uma ave que pode ser vista um
pouco por todo o país, sendo que na região algarvia, o local onde pode ser contemplada
com maior regularidade é a serra de Monchique.
A ribeira de Odelouca/Serra de Silves e Serra de Brejeira/Ribeira de Seixe são
sectores importantes para a incidência do lince ibérico (CCDR, 2004).
A bacia hidrográfica apresenta evidências de mecanismos de especiação para a
boga portuguesa (Chondrostoma lusitanicum), o que demonstra a importância deste
local para a diversidade genética dos ciprinídeos. Esta ribeira apresenta locais de elevada
importância para a lontra (Lutra lutra). Esta área evidencia também a ocorrência de um
dos importantes abrigos algarvios para a conservação das comunidades de morcegos
cavernícolas, nomeadamente o morcego-de-ferradura mourisco (Rhinolophus mehely).
Para além desta espécie existem outras, também elas com estatuto de ameaça, que
frequentam o local durante o resto do ano (INAG, 2000).
Relativamente à flora, existem evidências da presença de Rhododendron
ponticum e Salix spp., que só ocorrem na Serra de Monchique e na Reserva Botânica do
Cambarinho (CCDR, 2004).

2.6. Pressões antropogénicas
De acordo com o Plano de Ordenamento da Albufeira de Odelouca (INAG, 2007)
verifica-se que no interior da bacia drenante não existe qualquer estação de tratamento
de águas residuais (ETAR). No que diz respeito às fontes de poluição verifica-se a
existência de um número reduzido de fontes pontuais. Como podemos verificar na
figura seguinte (Figura 8), o principal contribuinte para o aumento das cargas poluentes
na Bacia é a existência de várias suiniculturas, que não têm sistemas de tratamento
incorporados ou para as quais essa informação não se encontra disponível. A localidade
de São Marcos da Serra representa uma pressão urbana que pode estar na origem de
descargas de águas residuais domésticas.

14

Figura 8 -Pressões antropogénicas existentes na Bacia Hidrográfica do Arade (1:300:000). Adaptado de
Silva (2012).

15

3. A Bioengenharia na Requalificação na ribeira de Odelouca
Com o Subprograma de compensação para as galerias ripícolas, pretendeu-se
promover a conservação e a reabilitação das galerias ribeirinhas e corredores fluviais na
bacia hidrográfica do rio Arade, nomeadamente a jusante da barragem de Odelouca, de
modo a compensar as perdas de troços ribeirinhos na área a inundar pela albufeira. Para
tal, procedeu-se à requalificação de vários troços (Figura 9) a jusante da barragem de
Odelouca. Os critérios de divisão prenderam-se com a homogeneidade das condições
ecológicas dos troços considerados, analisadas de acordo com o seu grau de
degradação, verificado no local (Jesus, 2008).

Figura 9: Mapa dos troços intervencionados na Requalificação Ambiental de Odelouca. Adaptado de
Jesus (2008).

16

3.1. Caracterização dos Troços selecionados para intervenção:

3.1.1.Troço A
O Troço A é caracterizado por apresentar um comprimento total de 1535 m e
altura do talude de aproximadamente 7 m. Apresentava uma elevada invasão de
canaviais em ambas as margens, com presença de reduzidas manchas de freixos e
tamargueira na margem direita. Depósitos estáveis na zona central do canal. A
intervenção foi efetuada em ambas as margens com a remoção do intenso canavial,
aplicação de geotêxtil (100% fibra de coco e 3 redes de polipropileno) com estacas de
salgueiro (espaçadas 1,5 m x 1,5 m) e aplicação de enrocamento de base vegetado (com
estacas de salgueiro espaçadas 1 m) (Jesus, 2008).

3.1.2.Troço B
O Troço B apresenta um comprimento total de 3670 m de comprimento e 6 m
de altura do talude. Tratava-se de um troço com elevada invasão de canaviais ao longo
de toda a margem esquerda, verificando-se uma redução de 50 % na margem direita,
onde também se verificava a presença de uma vegetação ripícola composta
essencialmente por tamargueira, freixos e salgueiros de dimensões apreciáveis.
Ocorrência, ao longo deste troço, de zonas de rifle e de pool.
A intervenção realizada na margem esquerda (100% do troço), e intervenção
pontual na margem direita (50% do troço) com remoção do canavial, aplicação de
geotêxtil (100% fibra de coco e 3 redes de polipropileno) com estacas vivas de salgueiro
(espaçadas 1,5 m x 1,5 m) e aplicação de enrocamento de base vegetado (com estacas
vivas de salgueiro espaçadas 1 m) (Jesus, 2008).

3.1.3.Troço C
O Troço C caracteriza-se por apresentar um comprimento aproximado de 160 m
e 13 m de altura do talude. A margem direita apresentava-se instável e com sinais nítidos
de processos erosivos. Esta margem é muito declivosa e longa, terminando com a
estrada no topo. Nesta margem procedeu-se à aplicação da grade de vegetação (com 3

17

estacas vivas de salgueiro por caixa) e enrocamento de base vegetado (com estacas vivas
de salgueiro espaçadas 1,5 m) (Jesus, 2008).

3.1.4.Troço D
O Troço D foi utilizado como troço controlo uma vez que, não apresentava
qualquer perturbação significativa, ou seja, apresentava as margens estáveis, com
galeria ripícola formada essencialmente por freixos e salgueiros. Apresenta um total de
1090 m de comprimento. Não foram realizadas qualquer tipo de intervenções (Jesus,
2008).

3.1.5.Troço E
O Troço E, com cerca de 690 m de comprimento e 7 m de altura do talude,
apresentava as margens pouco consolidadas, sem vegetação ripícola, constituídas
apenas por uma grande quantidade de cascalho e pedra. Patamar de sedimentos estável
numa parte da margem esquerda. Verifica-se também o aumento da largura do canal e
uma maior incidência de citrinos junto às margens. A Intervenção efetuada neste troço
foi contínua na margem direita e parcial na margem esquerda (ao longo de 230 m) com
recobrimento do talude com 20 cm de terra vegetal e aplicação de geotêxtil (rede de
coco 700 g/m2) com estacas vivas de tamargueira intercaladas com sanguinho ou
loendro (espaçadas 1,5 m x 1,5 m). Aplicação de enrocamento de base vegetado (com
estacas vivas de tamargueira espaçadas 1 m) e deflectores laterais a 45° e espaçados 15
m, vegetados com estacas vivas de tamargueira. Colocação ao longo do leito (entre os
deflectores) de ilhas centrais vegetadas com estacas vivas de tamargueira (Jesus, 2008).

3.1.6.Troço F e G

Neste troço (Figura 10) de comprimento de aproximadamente 550 m e altura do
talude de 8 a 10 m, é caracterizado por se tratar essencialmente de uma zona de
sedimentação. Verificava-se uma elevada invasão de canaviais na margem direita (que
se encontra pouco estabilizada), especialmente no sector mais a jusante. A margem
esquerda encontra-se estável e bem consolidada, revestida por ripícolas.

18

A intervenção realizada neste troço passou pela remoção do intenso canavial, e
posterior aplicação de manta orgânica anti erva (biomanta tipo MK Antihierba da
BonTerra, dupla face 100% fibra de coco/polipropileno com 500 g/m2) ou a NAG C350
da Aquanea, para selagem do solo contendo rizomas de canavial. A cobertura da
biomanta anti-erva foi realizada com terra vegetal (20 cm) e posterior aplicação de
manta orgânica (biomanta tipo 2KR da BonTerra, dupla densidade com 2 malhas de
reforço, 100% fibra de coco/polipropileno com 700 g/m2), com a plantação de salgueiros
com um espaçamento entre eles de 1,5 m e aplicação de enrocamento de base vegetado
(com estacas vivas de salgueiro espaçadas 1 m). A extensão de manta aplicada foi cerca
de 475 m de comprimento e 10 m de largura. O enrocamento mencionado é composto
de uma única fiada e destina-se essencialmente a suportar o geotêxtil. Este
enrocamento foi aplicado ao longo de todo o troço com geotêxtil (Jesus, 2008).
Troço F/G
Coordenada GPS: (37º14'39.83"N; 8º30´50.05"W 37º14´43.3"N; 8º29´50.7"W)

Figura 10 - Troço intervencionado F e G

19

3.1.7 Troço H

O troço H (Figura 11) apresenta um comprimento de 322 m e caracteriza-se por
apresentar ambas as margens bem estabilizadas e praticamente intactas. A margem
direita apresenta um patamar estável de sedimentos e a margem esquerda uma elevada
inclinação.
Neste troço colocou-se ao longo do leito de 2 Ilhas centrais vegetadas (espaçadas
entre 10 a 15 m), constituídas por blocos retangulares aparelhados (dimensões
aproximadas de 0.8 x 0.3 m). Foram colocadas estacas vivas de salgueiro, helófitas e
juncáceas entre os blocos. Estas ilhas deverão servir para abrigo de espécies piscícolas.
Troço H
Coordenada GPS: (37º14´43.3"N; 8º29´50.7"W 37º14´55.8"N; 8º29´49.32"W)

Figura 11 - Troço intervencionado H

20

3.1.8. Troço I

Neste troço (Figura 12) a margem intervencionada foi a margem esquerda devido
a elevada invasão de canaviais que sofreu. A margem direita por sua vez, apesar de
muito declivosa e longa é estável e revestida por ripícolas. O comprimento do troço
intervencionado foi de cerca de 243 m e a altura do talude 8 m. A intervenção realizada
nesse troço foi muito semelhante à efetuada no troço F e G, sendo que foi realizada, a
remoção do intenso canavial, a aplicação de manta orgânica anti erva (biomanta tipo
MK Antihierba da BonTerra, ou a NAG C350 da Aquanea dupla face 100% fibra de
coco/polipropileno com 500 g/m2) para selagem do solo contendo rizomas de canavial.
Esta manta ocupa uma largura com cerca de 10 m e tem uma extensão aproximada de
220 m. A cobertura da biomanta anti-erva foi efetuada com terra vegetal (20 cm) e
posterior aplicação de manta orgânica (biomanta tipo 2KR da BonTerra, dupla densidade
com 2 malhas de reforço, 100% fibra de coco/polipropileno com 700 g/m2), com
plantação de salgueiros, loendro e freixos (espaçadas 1,5 x 1,5 m) e aplicação de
enrocamento de base vegetado com um comprimento de 2.5 m (com estacas vivas de
salgueiro espaçadas 1m após colocação de terra vegetal nas zonas intersticiais.),
formado por material irregular de 0.6 - 1.1 m de diâmetro médio.

3.1.9. Troço J
Troço distinto, sem perturbações significativas, sendo caracterizado por uma
maior diversidade da cortina riparia, onde pontuam freixos, amieiros e salgueiros. Troço
um comprimento de 910 m. Não foram efetuadas intervenções neste troço.

3.1.10. Troço K

O comprimento deste troço (Figura 13) intervencionado ronda os 332 m de
comprimento e os 10 m de altura do talude. A margem direita encontrava-se bastante
erodida muito recuada e com pouca vegetação ripícola, verificando-se a ausência de
vegetação ribeirinhas, encontrando-se apenas alguns canaviais na zona terminal a
montante, na parte terminal. Na margem esquerda verificava-se um intensa
acumulação de sedimentos grosseiros, menor inclinação sendo caracterizada pela
ausência de vegetação ripícola e constituída sobretudo por cascalho e pedra. Verifica-se
21

o aumento da largura do canal. Na margem direita a intervenção efetuada passou pela
aplicação de manta orgânica, com uma largura de 10 m e um comprimento aproximado
de 330 m (biomanta tipo 2KR da BonTerra, dupla densidade com 2 malhas de reforço,
100% fibra de coco/polipropileno com 700 g/m2) e com plantação de tamargueira
intercaladas com sanguinho ou loendro (espaçadas 1,5 x 1,5 m). Aplicou-se também no
topo do talude uma fiada de freixos, espaçados entre eles de aproximadamente 2 m. Foi
também aplicado enrocamento de base vegetado ao longo de todo o troço utilizando,
estacas vivas de salgueiro ou tamargueira espaçadas 1 m. A base da manta foi protegida
por um enrocamento, mas este foi retirado do próprio talude através da respetiva
despedrega. Esta retirada de material inerte permitiu a introdução da estacaria, no
compasso definido ao longo do talude, não sendo necessária a cobertura com terra
vegetal.
Troço I
Coordenada GPS: (37º14´55.8"N; 8º29´51"W 37º14´56.5"N; 8º30´07.86"W)

Figura 12 - Troço intervencionado I

22

Troço K
Coordenada GPS: (37º15'19.5" N 8º29'57.0" W 37º15'19.4" N 8º30'6.2" W)

Figura 13 - Troço intervencionado K

3.1.11.Troço L

Troço sem perturbações, sendo de destacar uma galeria ripária contínua e bem
preservada. Apresenta um comprimento total de 2275 m. Não foram efetuadas
intervenções neste troço.

3.1.12. Troço M

O troço M (Figura 14) apresenta um comprimento de aproximadamente 235 m
e 7 m de altura do talude. A margem direita apresentava-se muito degradada e com
intensa erosão formando um talude vertical, muito recuada, originando uma vegetação
ribeirinha incipiente. A margem esquerda, por sua vez, encontrava-se completamente
revestida por vegetação autóctone.
23

A intervenção realizada na margem direita passou pela aplicação de duas fiadas
de gabião, ao longo de cerca de 210 m, sendo este posteriormente vegetado (com
estacas vivas de salgueiro entre as fiadas) sobre tela sintética. Enchimento do talude
atrás do gabião com solo e posterior cobertura da parte superior do gabião com terra
vegetal para aplicação de estacas vivas de salgueiro (espaçadas 1,5 x 1,5 m).
Troço M
Coordenada GPS: (37º16´14.94"N; 8º29´27.66"W 37º16´15.72"N; 8º29´23.40"W)

Figura 14 - Troço intervencionado M

3.1.13. Troço N

Troço sem perturbações, sendo de destacar uma galeria ripária contínua e bem
preservada. Apresenta um comprimento total de 3900 m. Não foram efetuadas
intervenções neste troço.
24

4. Material e Métodos
4.1. Caracterização físico-química da água
Os parâmetros físico químicos, foram medidos in situ, através da utilização de
sondas, o pH, oxigénio dissolvido e temperatura, com o equipamento HACH HQ40d
multi, e a condutividade, com o equipamento YSI Ecosense EC 300. Foram também
recolhidas amostras de água para posterior análise em laboratório de CBO5 (realizada
através do método Oxitop), sólidos suspensos totais (através de gravimetria), dureza
total (através de cálculo combinado de Ca e Mg), fluoretos (através de eletrometria),
cloretos (através de titulimetria), nitratos e nitritos (através de espetrofotometria de
absorção molecular), fosfatos (através de espetrofotometria UV-visível), sulfatos
(através de gravimetria), magnésio, cálcio, sódio e potássio (através de
espetrofotometria atómica de emissão). Estes parâmetros foram medidos em 2012 nos
locais de amostragem D (troço controlo) e troço M.

4.2. Caracterização hidromorfológica
O RHS (River Habitat Survey) é uma metodologia que permite avaliar qualidade
hidromorfológica e o estado de conservação dos habitats aquáticos e ribeirinhos, sendo
esta classificação efetuada segundo dois índices: o HMS (Habitat Modification Score),
que qualifica a artificialização a que o canal foi sujeito, estimando o grau de impacte das
estruturas nos habitats, e o HQA (Habitat Quality Assessment), que estima,
genericamente, a diversidade e riqueza de todo o sistema fluvial, e no qual as
pontuações dos seus 9 subíndices são baseadas na relevância de determinadas
características dos habitats para as comunidades biológicas (INAG, 2009). De acordo
com Raven et., al (2009), as pontuações do índice HMS foram convertidas para classes,
nomeadamente Habitat Modification Class ­ HMC, como demonstrado na tabela 1. A
caracterização hidromorfológica foi realizada em Maio de 2013, nos troços D, M, H e no
troço de referência Monchique.

25

Tabela 1 - Modificação de Habitat Modification Score para Habitat Modification Class, segundo
(Raven et al., 2009).

HMC

Descrição HMS

Pontuação HMS

1

Pristina/semi-natural

0-16

2

Predominantemente não modificada

17-199

3

Claramente modificado

200-499

4

Modificação significativa

500-1399

5

Modificação severa

1400+

Para analisar o estado relativo de perturbação do meio físico, foi utilizado o QBR
(Qualitat del Bosc de Ribera), que avalia a qualidade dos ecótonos ripários,
quantificando as alterações de natureza antropogénica incidentes sobre os troços da
linha de água e sobre os habitats (Munné, et al., 2003).
O QBR, é classificado com pontuação de 25, que representa degradação
extrema, a 95 que representa habitat ripário em condições naturais. No entanto, são
posteriormente estabelecidas 5 classes, de 1 a 5, em que a classificação de 1 é
considerada Excelente e a classificação de 5 é considerada Má (Munné et al., 2003) cit
in (Coelho, 2012).

4.3. Macroinvertebrados bentónicos
Os protocolos de amostragem, recolha análise de macroinvertebrados
bentónicos utilizados neste trabalho foram os propostos no manual para a avaliação
biológica da qualidade da água em sistemas fluviais segundo a Diretiva-Quadro da Água
(INAG, 2008).
A recolha de macroinvertebrados bentónicos foi efetuada em Maio de 2013, nos
troços M, H e D e nos troços de referência Monchique, Azinheira e Sapeira.
Após a recolha da amostragem, procedeu-se à lavagem, triagem in vivo e
identificação (até à Família) dos organismos recolhidos, com o auxílio de uma lupa
binocular Nikon SMZ800 e chaves dicotómicas adequadas. Além de identificados, os
indivíduos foram também contabilizados para posterior cálculo dos índices utilizados.

26

Por último, os espécimes foram preservados em frascos com álcool a 70% devidamente
identificados.
4.3.1. Índices IPtIN e IPtIS

O Índice Português de Invertebrados do Norte (IPtIN) e o e o Índice Português de
Invertebrados Sul (IPtIS) foram utilizados segundo o manual "Critérios para a
classificação do Estado das massas de água superficiais ­ rios e albufeiras", para os casos
de Rios Montanhosos do Sul e Rios do Sul de Média-Grande Dimensão (INAG, 2009).

IPtIN = Nº Taxa x 0,25 + EPT x 0,15 + Evenness x 0,1 + (IASPT ­ 2) x 0,3 + Log (Sel. ETD+1)
x 0,2
IPtIS = Nº Taxa x 0,4 + EPT x 0,2 + (IASPT ­ 2) x 0,2 + Log (Sel. EPTCD+1) x 0,2

Onde:
- EPT: Nº de famílias pertencentes às ordens Ephemeroptera, Plecoptera, Trichoptera;
- Evenness: Também designado por índice de Pielou ou Equitabilidade, é calculado
como:
E = H/ln S
em que H ­ diversidade de Shannon-Wiener
S = o número de taxa presentes
ln = logaritmo natural ou neperiano
O índice Shannon-Wiener calcula-se pela expressão H = - pi ln pi em que: pi =
ni/N i.e., o nº de indivíduos de cada taxon i (ni) dividido pelo nº total de
indivíduos (N) presentes na amostra
- IASPT: ASPT Ibérico, que corresponde ao BMWP Ibérico dividido pelo nº de famílias
incluídas no cálculo do BMWP Ibérico;
- Log (Sel. ETD+1): Log10 de 1 + soma das abundâncias de indivíduos pertencentes às
famílias Heptageniidae, Ephemeridae, Brachycentridae, Goeridae, Odontoceridae,
Limnephilidae, Polycentropodidae, Athericidae, Dixidae, Dolichopodidae, Empididae,
Stratiomyidae;
- Log (Sel. EPTCD): Log10 de 1 + soma das abundâncias de indivíduos pertencentes às
famílias Chloroperlidae, Nemouridae, Leuctridae, Leptophlebiidae, Ephemerellidae,
27

Philopotamidae, Limnephilidae, Psychomyiidae, Sericostomatidae, Elmidae, Dryopidae,
Athericidae.

4.4. Caracterização da Flora
Para a caracterização florística das margens da ribeira de Odelouca procedeu-se
à identificação das espécies em 5 troços diferentes. Nestes troços realizaram-se 29
inventários nos locais anteriormente intervencionados, cada um com cerca de 25 m2 (5
m x 5 m), representados nas figuras seguintes (Figura 15, 16, 17, 18 e 19). Os locais
escolhidos para a realização dos inventários foram os troços F e G (troço 1), troço I (troço
2), troço M (troço 3) troço K (troço 4) e D o troço controlo. Neles foram identificadas
todas as espécies, a sua abundância (escala de abundância-dominância de BraunBlanquet, Tabela 2) e cobertura (valores entre 0 e 1 que correspondem a valores entre
0 e 100%).

Tabela 2 - Escala de abundancia-dominância de Braun-Blanquet

Índice

Significado

r

Um só individuo, cobertura desprezível

+

Mais indivíduos, cobertura muito baixa

1

Cobertura inferior a 5%

2

Cobertura compreendida entre 5% e 25%

3

Cobertura compreendida entre 25% e 50%

4

Cobertura compreendida entre 50% e 75%

5

Cobertura igual ou superior a 75%

Foram também identificados os cobertos por estratos, nomeadamente o
muscícola, herbáceo, arbustivo, arbóreo e o coberto total da vegetação. As áreas
selecionadas correspondem aos troços onde foram realizadas as intervenções e o troço
controlo. Os inventários foram realizados nos dias 20 e 21 de Maio de 2013.

28

Figura 15 - Inventários realizados nos locais intervencionados F e G (Troço 1).

Figura 16 - Inventários realizados no local intervencionado I (troço 2).

29

Figura 17 - Inventários realizados no local intervencionado M (troço 3).

Figura 18 - Inventários realizados no local intervencionado K (troço 4).

30

Figura 19 - Inventários realizados no local controlo D.

31

5. RESULTADOS
5.1. Caracterização físico-química da água
Para os locais de amostragem analisados, D e M, verificou-se que nenhum deles
está dentro do limite para o bom estado. De facto, apesar dos níveis aceitáveis, segundo
os parâmetros da Diretiva Quadro da Água para o Agrupamento dos Rios do Sul, de
nitratos, pH e oxigénio dissolvido, os valores de CBO5, fósforo total e azoto total
encontram-se elevados comparativamente aos tabelados na diretiva (tabela 3).

Tabela 3: Parâmetros físico-químicos obtidos a partir das amostras recolhidas em Maio de 2012.

Parâmetros físico-químicos
Alcalinidade (mg CaCO3/L)
Amónio mg (NH4/L)
Dureza total (mg CaCO3/L)
Nitratos (mg NO3/L)
Nitritos (mg NO2/L)
Sólidos suspensos totais (SST) (mg/L)
Temperatura (°C)
Carência química em oxigénio (CQO)
total (mg O2/L)
Carência bioquímica de oxigénio
(CBO5) total (mg O2/L)
Azoto total (mg N /L)
Fósforo total (mg P /L)
pH
Condutividade (µS/cm a 20ºC)
Saturação de Oxigénio (% Sat O2)
Oxigénio dissolvido (mg O2/L)

Locais de Amostragem
I

M

82
0.18
76
7.5
0.45
12
29.6