ENRAIZAMENTO DE ESTACAS DE PHYLLANTHUS SELLOWIANUS MÜLL ARG.
PARA USO EM OBRAS DE BIOENGENHARIA DE SOLOS¹
FAUERHARMEL,Mariana²; DURLO, Miguel Antão³
¹Trabalho de Pesquisa, Universidade Federal de Santa Maria(UFSM)
²Acadêmica do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Santa Maria(UFSM), Santa
Maria, RS, Brasil
³Professor do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal De Santa Maria (UFSM),
Santa Maria, RS, Brasil

RESUMO

O presente estudo tem
sellowianus

Müll.

Arg.

como objetivo avaliar enraizamento de estacas Phylanthus

testando a viabilidade desta espécie para utilização em obras de

bioengenharia.Para tal foram utilizadas estacas basais, medianas e apicais da referida espécie com
aproximadamente 40 cm de comprimento e diâmetro variável, que foram colocadas em água com 1, 4
e 7 dias após a coleta do material correspondendo ao tratamento 1, 2 e 3 respectivamente, após 35
dias foram analisados a sobrevivência e o número de raízes por estaca.De acordo com as análises
pode-se verificar que as estacas correspondentes ao tratamento 1 e 2 apresentaram um bom índice
de sobrevivência de 100%,as

estacas correspondentes ao tratamento 3 tiveram índice de

sobrevivência de 80%.Os tratamentos 1 e 2 apresentaram bons índices de enrai zamento, todos os
tratamentos apresentaram elevado CV. A espécie Phyllanthus sellowianus Müll. Arg. se mostrou apta
para ser utilizada em obras de bioengenharia.
Palavras-chave: Sobrevivência; Raízes; Diâmetro; Engenharia natural.

1. INTRODUÇÃO
Há muito tempo o homem percebeu o potencial da vegetação para o controle da
erosão em superfícies. Arbustos e gramíneas ajudam a combater a erosão em taludes,
servindo como cobertura contra o vento e a água da chuva.
Segundo Schiechtl e Stern (1994), a bioengenharia, conhecida também como
bioengenharia de solos, engenharia natural, ,,construção verde ou ,,construção viva, engloba
um conjunto de técnicas de construção e serve-se de conhecimentos biológicos para a
estabilização de encostas de terrenos e margens de cursos de água. A bioengenharia de
solos é uma excelente ferramenta para a estabilização de áreas que se apresentam
instáveis (PINTO, 2009).
Sutili (2009) caracteriza a engenharia natural como sendo técnicas em que plantas,
ou partes destas, são utilizadas como material vivo de construção, visando a perenização
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dos cursos de água, a estabilização de encostas e taludes, o tratamento de voçorocas e o
controle de erosão do solo.
Os processos de erosão começam, geralmente, em áreas pequenas e se expandem
de tal modo que se torna necessário o uso de soluções de engenharia para conter este
mecanismo. Aplicar técnicas de bioengenharia de solos enquanto o problema ainda se
encontra em uma pequena área representaria uma economia significativa, além de
minimizar o impacto no local e nas áreas adjacentes (ERB, 1985). Segundo o mesmo autor
as técnicas de bioengenharia costumam utilizar equipamentos menos pesados de
escavação, o que representa menores custos e impactos menos agressivos ao meio.
A possibilidade do uso de plantas nativas é outro fator que diminuiria os custos, os
quais seriam limitados ao trabalho de colheita, manuseio e transporte para a área do projeto.
Além disto, as espécies nativas tem maior chance de sucesso, por já estarem adaptadas ao
clima e às condições do solo locais.
Durlo (2000) complementa esta idéia ao dizer que além da solução técnica, a
bioengenharia apresenta vantagens ecológicas, econômicas e estéticas, se comparada a
construções tradicionais.
Dentre as várias técnicas preconizadas pela bioengenharia, muitas delas valem-se
da reprodução vegetativa (plantio de estacas e ramos) com vistas a produzir um efeito
protetor imediato, que vá melhorando à medida que as estacas enraízem e brotem (DURLO;
SUTILI, 2005).
Conforme os mesmos autores os trabalhos de engenharia natural, quando em
cursos de água, podem ser divididos em longitudinais e transversais de acordo com a
posição do material inerte empregado, em relação ao eixo do curso de água e de acordo
com sua função.Estas obras podem ser construídas isoladamente ou em conjunto, para
produzirem efeitos complementares umas às outras.
As obras longitudinais não alteram a declividade do leito, tendo por função
reconstruir, proteger e estabilizar os taludes fluviais. Tais efeitos podem ser alcançados
através do revestimento vegetal e/ou físico das margens. Para tanto pode-se empregar
râmprolas transversais ou longitudinais, revestimento parcial do leito por meio de
tratamentos na linha da água (arranjo de pedras e troncos, cilindros inertes, feixes vivos e
trança viva) e revestimento integral das margens (plantio de leivas, plantio em banquetas,
trança viva, esteira viva e revestimento com madeira e blocos de pedras como paredes
"Krainer" simples e duplas, além de gabiões e geotêxteis) (DURLO ; SUTILI, 2005).

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A escolha das espécies é outra decisão importante para os trabalhos de
bioengenharia. As espécies selecionadas e utilizadas na recuperação e manejo de cursos
de água precisam sobreviver às condições adversas, mas também, resolver o problema
técnico existente. Em razão disso, é importante conhecer espécies vegetais que possuam
características fisiológicas e morfológicas capazes de se adaptarem a determinadas
condições.
Em função de cada caso específico, a escolha deve recair sobre espécies que
apresentem características biotécnicas tais como, resistência à exposição parcial de suas
raízes, em locais onde se prevê processos erosionais; sistema radicular que permita a
fixação do solo (talude) quer pelo comprimento, volume, distribuição e resistência das
raízes, ou pela interação destas características; resistência ao aterramento parcial onde se
prevê processos de deposição; resistência ao apedrejamento quando se espera
desmoronamentos; capacidade de sobreviver em submersão durante o período de cheias;
boa flexibilidade do tronco e galhos; capacidade de rebrotação quando quebradas, entre
outras.
Por outro lado, os trabalhos de bioengenharia podem ser lentos, pois precisam ser
cuidadosamente executados. Além disto, muitas vezes não é possível utilizar o material
vegetal logo após sua colheita, necessitado que este fique armazenado por algum tempo
sem que perca sua capacidade de brotação e enraizamento. Estes aspectos forçam a
formulação da questão: por quanto tempo se pode guardar o material vegetativo e ter
certeza de que este ainda irá sobreviver em serviço e desempenhar seu papel protetor?
2. OBJETIVO
O presente trabalho tem como objetivo analisar o enraizamento de estacas de
Phyllanthus sellowianus Müll. Arg., espécie reófila nativa e bastante frequente nos cursos de
água do RS, para uso em obras de bioengenharia de solos, após diferentes tempos
armazenamento ao ar livre.
3. METODOLOGIA
As estacas para utilização no experimento foram coletadas em uma área amostral de
um experimento anteriormente instalado por Aschbachar e Müller (2009), em 2008, no
município de São João do Polêsine, no Distrito de Vale Venêto, Rio Grande do Sul,
localizado na latitude 29°39"08 Sul e longitude 53°31"12 Leste.

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O clima da região de coleta do material como a de condução do experimento é do
tipo Cfa, segundo classificação climática de Köppen, classificado como subtropical, com
temperatura do mês mais frio variando entre 3°C e 18°C, temperatura do mês mais quente
superior a 22°C e média anual superior a 18°C, com chuvas durante todos os meses do ano
(MORENO 1961).
A área amostral possui 28 filas com 16 estacas por fileira. Em cada fila foi plantada
uma das quatro espécies testadas: Sebastiania schottiana Müll. Arg, Salix humboldtiania
Willd., Salix X rubens Schrank e Phyllanthus sellowianus Müll. Arg. . Entre as plantas
adotou-se o espaçamento de 1m x 1m.
Neste trabalho foi analisada somente Phyllanthus sellowianus Müll. Arg. Galhos da
espécie em avaliação foram coletados no referido campo amostral em Vale Vêneto, São
João do Polêsine, RS, no mês de outubro de 2010.
Foram coletadas 21 amostras de Phyllanthus sellowianus Müll. Arg. selecionando-se
os ramos com aproximadamente 1,5 m de altura e que estivessem sem rachaduras,
brotações, base estragadas e sem doenças.
Com este material foram produzidas estacas da base, meio e ponta com 40 cm de
comprimento cada uma e diâmetro variável. Após a coleta, as estacas foram trazidas para o
Viveiro Florestal da Universidade Federal de Santa, onde foram medidos os diâmetros e
anotados os dados em planilha de campo. Posteriormente, as estacas, devidamente
identificadas, foram colocadas em tanques com água pura, sem tratamento, proveniente de
poço artesiano do viveiro.
Colocaram-se os 21 explantes, dividos em sete estacas de base, meio e ponta,
imersos em cerca de 20 cm de água, sendo presas por um barbante a fim de manter uma
inclinação de 90° em relação à horizontal. Posteriormente cobriu-se o tanque com uma lona
preta e um isopor, com a finalidade de criar um ambiente escuro para induzir o
enraizamento das estacas. Os tanques estavam localizados em casa de vegetação coberta
por sombrite.
A influência da posição das estacas nos ramos não foi avaliada neste trabalho: todas
as estacas foram consideradas, sem distinção de sua origem (base meio e ponta).
O primeiro tanque recebeu 21 estacas após serem mantidas a sombra por um dia
(24 horas), correspondendo ao tratamento 1, o segundo tanque recebeu 21 estacas que
ficaram a sombra por 3 dias (72 horas), correspondendo ao tratamento 2 e o terceiro
tratamento corresponde à colocação das estacas em água somente após sete dias (168
horas) da coleta do material. Figura 1.
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Figura 1: Instalação do experimento. Fonte: dados da pesquisa.

As estacas permaneceram em local sombreado naturalmente, sujeitas as
intempéries naturais do local, sendo observados todos os dias a eventual presença de
formigas nas mesmas.
Após 35 dias, foram contadas as estacas vivas e o número de raízes por estaca em
cada tratamento. Para o estudo do enraizamento não foram contabilizadas as estacas que
não sobreviveram.
4. RESULTADOS
4.1 SOBREVIVÊNCIA
A sobrevivência é uma variável importante de ser analisada. De pouco adianta uma
espécie apresentar boas características biotécnicas se a mesma não apresenta
sobrevivência adequada.
A sobrevivência de P. sellowianus após 35 dias da instalação do experimento, foi de
100% para os tratamentos 1 e 2. Mesmo sete dias após a coleta (tratamento 3) o percentual
de sobrevivência foi de 80%, valor satisfatório para o uso da referida espécie em obras de
bioengenharia de solos.
4.2 NÚMERO DE RAÍZES POR ESTACA.
Para análise do enraizamento foram consideradas apenas as estacas vivas, que
possuíam raízes. Foram feitas análises referentes ao número de raízes por estaca. As
estatísticas descritivas para o número de raízes por estaca em cada tratamento encontram se nas tabelas 1, 2 e 3.

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Tabela 1: Número de raízes por estaca de P. sellowianus para o tratamento 1.

Parâmetros Avaliados
Média

Tratamento 1
14,5

Desvio Padrão

11,2

Mínimo

1,0

Máximo

44,0

CV

77,1

Os resultados do número de raízes por estaca de P. sellowianus para o
tratamento 1 ­ armazenamento por 24 horas - mostram que houve uma média de
14,5 raízes por estaca e o CV para este tratamento foi alto, indicando que há grande
variação do número de raízes em relação à média.
Tabela 2: Número de raízes por estaca de P. sellowianus no tratamento 2.

Parâmetros
Avaliados
Média

Tratamento 2
18,0

Desvio Padrão

18,3

Mínimo

1,0

Máximo

82,0

CV

101,8

Analisando os resultados da tabela acima se pode observar que houve uma
média de 18 raízes por estaca no tratamento 2 ­ armazenamento por 3 dias - o CV
obtido foi alto. Neste tratamento houve uma estaca que apresentou 82 raízes finas, o
que contribuiu para estes resultados.
Tabela 3: Número de raízes por estaca de P. sellowianus no tratamento 3

Parâmetros

Tratamento 3

Avaliados
Média

22,3

Desvio Padrão

24,3

Mínimo

2,0

Máximo

83,0

CV

109,1
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Analisando os resultados do número de raízes se pode observar que a média
foi de 22,3 raízes por estaca e o CV foi muito alto.
Observado o comportamento geral do enraizamento, verifica-se que as
estacas de P. sellowianus, podem apresentar poucas até muitíssimas raízes, não
tendo

sido

possível,

neste

experimento,

encontrar uma

causa

para

este

comportamento.
4.3 CONCLUSÃO

Os resultados deste trabalho mostram que Phyllanthus sellowianus Müll. Arg.
apresenta um excelente potencial para ser usada em obras de bioengenharia de
solos, levando em consideração o alto índice de sobrevivência obtido nos tratamento
(tratamento 1 e 2 obtiveram 100% e o tratamento 3 obteve 80%).
Em relação ao número de raízes por estaca, o tratamento 3 apresentou a
maior média (22,5) para este parâmetro. Todos os três tratamentos apresentaram
um alto CV.
Paradoxalmente, parece que quanto maior o tempo de armazenamento, tanto
maior o número de raízes por estaca. Se isto se confirmar em outros trabalhos, é
melhor deixar as estacas armazenadas por algum tempo, com vista à melhoria de
seu enraizamento, característica biotécnica de grande importância para muitas
situações em que se pode empregar a bioengenharia de solos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ASCHBACHER, M.; MÜLLER, B. Optimierung des Steckholzwachastums am Beispiel von Salix
humboldtiana

und

Phyllanthus sellowianus in

Südbrasilien.

2009, 171f. Universität für

Bodenkultur, Wien.

DURLO, M. A. Biotécnicas no manejo de cursos de água . Ciência & Ambiente. Santa
Maria, v. 21, n. 2, p. 81-90, jul./dez. 2000.

DURLO, M. A.; SUTILI, F. J. Bioengenharia: manejo de cursos de água. Porto Alegre: EST, 2005.
189 p.

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ERB, R. T. The effect of roots on the searing strength of soil. 1985. 94 f. Thesis (Degree of Master
of Science) Departament of Civil Engineering. The Ohio State University. Ohio.

MORENO, J. A. Clima do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Secretaria de Agric ultura/Seção de
Geografia, 1961.

PINTO, G. M. Bioengenharia de Solos na Estabilidade de Taludes : comparação com uma solução
tradicional. 2009. 74 f. Trabalho de Diplomação (Graduação em engenharia civil) ­ Departamento de
Engenharia Civil. Universidade Federal do Rio Grande Do Sul. Porto Alegre.

SCHIETCHTL, H. M; STERN, R. Handbchu für naturnahen Wasserbau. Eine Eineleitung für
ingenieurbiologische

Bauweisen.

Wein:

Österreichischer

Agrarverlag,

Druck -und

Verlagsgesellschaft.m.b.H., 1994.
SUTILI, F. J.(2009) "Engenharia natural: o estado da arte na Europa e no sul do Brasil.". Jornal do
CREA/SC.

14

de

agosto,

2009.

Disponível

http://bioengenhariadesolos.blogspot.com/2009/08/engenharia -natural-o-estado-da-arte-na.html

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em: