TECNOLOGIA

BIOENGENHARIA

Saúde
na manta
azul
A Komlux finalizou o
Blanket Luz,equipamento
para o tratamento da
icterícia,doença que
atinge 200 mil bebês
por ano no Brasil
WANDA JORGE
m dos produtos pioneiros desenvolvidos dentro do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE) está pronto
para entrar no mercado. É a manta para fototerapia em recém-nascidos da
empresa Komlux, de Campinas. Com
o nome comercial de Blanket Lux, o
equipamento aguarda apenas a certificação do Ministério da Saúde, que
vai fazer a última fiscalização no novo
prédio construído pela empresa. A
Komlux também se prepara para a certificação ISO 9000, um pré-requisito
para obter a marca CE, da Comunidade Econômica Européia. "A expectativa é abrir um profícuo mercado na
área médica brasileira e também no
exterior", diz Cícero Lívio Omegna de
Souza Filho, diretor-proprietário da
empresa, que já recebe pedidos para
entrega em março deste ano.
A Blanket Lux é uma manta tecida com fibras ópticas que emite luz
azul para tratamento fototerápico de
recém-nascidos com hiperbilirrubi-

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nemia, mais conhecida como icterícia
fisiológica, causada pela incapacidade
de o organismo do bebê eliminar a bilirrubina do sangue. Em condições
normais, esse pigmento biliar é filtrado pela placenta ou eliminado pelo fígado. Nos casos mais graves, a icterícia pode causar danos ao sistema

nervoso central e surdez, sendo o efeito mais visível a presença do tom
amarelado na pele. A icterícia é comum no Brasil e afeta cerca de 5% do
total de crianças nascidas a cada ano,
o que equivale a 200 mil bebês.
A fototerapia é o tratamento mais
utilizado atualmente para eliminar a

Trajetória exemplar
Cícero Omegna Filho sonhava ser
engenheiro, mas acabou se formando
em análise de sistemas. Ele viu o
mundo das fibras ópticas entrar em
sua vida a partir do estágio que fez
em 1977 como técnico em eletrônica
no Instituto de Física da Unicamp.
Em 1986 a Komlux nascia no porão
de sua casa e tinha como sócio o engenheiro mecânico Marco Kairala. A
empresa foi formada para produzir
ponteiras odontológicas para fotopolimerização, equipamento que seca
em segundos a massa utilizada na reconstrução dentária. Esse projeto foi

posteriormente vendido para a multinacional 3M, e a sociedade desfeita.
Omegna Filho continuou com a
Komlux e ganhou um fôlego de três
meses ao fechar um contrato de prestação de serviços com a Elebra, também de Campinas, onde já trabalhava na área de produção de fibra
óptica para telecomunicações. Mas
os sucessivos planos econômicos deixaram a empresa à míngua e, em
1993, apenas três funcionários haviam sobrado dos dez existentes em
1989. Naquele ano, Omegna Filho foi
para os Estados Unidos prospectar

Manta tecida com
fibras ópticas é
usada diretamente
sobre a pele do bebê
sem provocar calor

MIGUEL BOYAYAN

próximas para não
provocar queimaduras, o calor provoca desconforto
e o bebê permanece mais tempo no
hospital.
A manta resolve muitos desses
inconvenientes:
pode ser usada diretamente sobre a
pele do bebê, é pequena, acoplada a
um fio de fibras
que fica distante
do corpo, diminuindo riscos. Além
do conforto, reduz
custos hospitalares, filtra o calor e
as faixas indesejáveis do espectro da luz, sobretudo a infravermelha e a ultravioleta, deixando
passar apenas a azul, que resolve o
problema da bilirrubina.

bilirrubina. A luz decompõe a substância, que é eliminada pelo organismo.
Mas os inconvenientes são grandes:
durante horas ou dias, o bebê permanece no berço, apenas com fralda e olhos
vendados, submetido à luz que sai de
lâmpadas fluorescentes ou halógenas.
As lâmpadas não podem ficar muito
novos negócios. E quase ficou por lá
porque recebeu um convite do consultor de empresas Abraham Szule
para que montasse sua empresa em
território norte-americano.
Mas, uma semana após voltar a
Campinas, foi procurado por pesquisadores da Unicamp e da Unifesp
para desenvolver os endoscópios
aplicados à Medicina. Até então, sua
experiência com esses equipamentos
limitava-se aos de modelo rígido,
para atender às encomendas da empresa Iochpe-Maxion, utilizados
para inspecionar o interior da câmara de combustão de motores diesel
usados em tratores.

Manta portátil ­ A inovação da manta
é que ela foi fabricada com fibras ópticas modificadas. Elas emitem luz la-

"A chegada dos pesquisadores possibilitou dar uma guinada na especialização da empresa, que saiu das telecomunicações para a área biomédica",
diz Omegna Filho. Nessa mesma época, entre 1994 e 1995, teve início o desenvolvimento do produto com o apoio
do Ministério da Ciência e Tecnologia
(MCT), por meio do Programa de
Apoio ao Desenvolvimento Científico
e Tecnológico. Omegna Filho fez parte do Grupo Técnico de Instrumentação do MCT por dois anos, o que lhe
permitiu visitar várias universidades
e entender suas demandas.
Abriu as portas de sua empresa
para a cultura da pesquisa. Conseguiu

teralmente de forma controlada ao
longo da manta. Com a manta fototerápica não existe a necessidade de interromper o tratamento para amamentação, como no sistema convencional.
Ela é portátil e pode ser usada em
casa. "A grande vantagem da manta é
que ela pode ser usada dentro da incubadora em casos de bebês prematuros, por exemplo", afirma o professor
Fernando Facchini, do Centro de Assistência Integral à Saúde da Mulher
(Caism) da Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp). Aliás, a idéia
de produzir a manta foi dele. "Eu estava interessado em usar uma manta
de fibra óptica ­ já existente no exterior ­ e procurava alguma forma de
produzi-la no Brasil. Aí eu procurei o
Centro de Bioengenharia da Unicamp
e eles me indicaram a Komlux."
O desafio de produzir o equipamento nacional foi lançado em 1997.
Foram dois anos e meio de pesquisas
e seis meses para o lançamento."A manta está apta para os berçários do país e
do exterior", diz Omegna Filho. O
preço está estimado em R$ 3,3 mil, incluindo a distribuição do produto,
enquanto o similar japonês Homeda
custa US$ 4 mil. O tratamento convencional, com fototerapia halógena,
fica entre R$ 2 mil e R$ 4 mil.
No segundo semestre, quando
Omegna Filho espera estar com o sistema de comercialização da manta
do Programa de Capacitação de Recursos Humanos para Atividades Estratégicas, do MCT, seis bolsas para a
Komlux. Naquele momento, já começava a ficar evidente para Omegna
Filho a primeira conclusão dessas
parcerias: "Não adianta direcionar recursos exclusivamente para equipamentos e plantas industriais, é fundamental formar pessoas". A segunda
veio agora, quando se prepara para o
grande desafio da comercialização e
divulgação da manta. "Minha empresa sempre teve uma relação umbilical
com a universidade e a pesquisa e,
certamente, pelas próprias pernas
não teria resistido."

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camp, e os professores
consolidado e já suPedro Mangabeira Alperada a fase de quabernaz e Aníbal Arlificação, a expectatiraes, da Universidade
va é vender toda a
Federal de São Paulo
capacidade de produ(Unifesp), procuraram
ção da Komlux, que é
a Komlux para desende 50 conjuntos (manvolver o videoendosta mais fonte de luz)
cópio para aplicação
por mês. "Na verdade,
em
otorrinolaringolodiante da receptividagia,
eles queriam simde que temos alcanplificar
a aparelhagem
çado com o produto,
existente. A alternativa
acreditamos que a deda Komlux é um equimanda será bem maipamento parecido com
or que esse volume."
uma caneta, com miA Blanket Lux foi
apresentada aos par- Videoendoscópio sob encomenda: aparelhagem mais simples de manusear crocâmeras que captam e enviam imaticipantes do XVII
gens para um monitor de vídeo ou
Congresso Brasileiro de PerinatoloSegundo Omegna, a estimativa é
computador, onde serão analisadas.
gia, realizado em Florianópolis (SC),
vender de 50 a 100 conjuntos por mês
Ele terá modelos para várias especialiem novembro do ano passado. "Sua
do videoendoscópio com haste rígida,
dades. O aparelho para a boca já está
estréia ao público especializado teve
quando for lançado comercialmente
pronto e para ouvido e laringe está
muito sucesso e provocou interesse de
em 2003. O preço também promete
em andamento. Outro equipamento
mercado em nichos que ainda nem
ser competitivo. O endoscópio e todo
pronto, fruto de desdobramento da
havíamos cogitado", diz Omegna Fio sistema de vídeo da Komlux custará
pesquisa, é o intra-oral, para auxiliar
lho. É o caso de uma grande cooperade R$ 3,5 mil a R$ 4 mil, enquanto seu
o dentista em várias funções.
tiva de saúde, que identificou na mansimilar hoje custa o dobro: só o sisteA pesquisa desenvolvida pela
ta a solução de seus problemas de
ma de câmeras está em R$ 3,5 mil.
Komlux para montar um protótipo
prolongamento da internação nas
O otimismo de Omegna Filho funde endoscópios flexíveis, destinados a
maternidades, uma vez que o uso dodamenta-se em números. A empresa
exames de esôfago, estômago e intestiméstico do produto já é uma prática
fatura hoje em torno de R$ 180 mil
no, está sendo realizada em parceria
utilizada nos Estados Unidos, onde repor mês, depois de quase ter dobrado
com o Centro de Diagnóstico em Docebe o nome de biliblanket.
sua receita em um ano e meio. As
enças do Aparelho Digestivo (Gastroperspectivas para o mercado de fibras
centro) da Unicamp.
Novo produto - A Komlux também
ópticas, onde atua com uma linha de
desenvolve dois tipos de videoendos200 produtos, só crescem.
Manter a fibra - Os resultados mais
cópio, um com haste rígida para apliQuando o professor Hugo Frangimediatos desses projetos são a nova
cação em otorrinolaringologia (nariz,
nito, do Instituto de Física da Unifábrica em Campinas, com 1,1 mil
ouvido e garganta) e outro flexível,
m2, quase o dobro do antigo espaço,
para investigação clínica do estômago
OS PROJETOS
de 600 m2, e aumento no número de
e do intestino. Os dois projetos tamProjeto e Desenvolvimento
funcionários, de 19 para 40. Mas
bém têm apoio do PIPE. O endoscóde Equipamento para Fototerapia
Omegna Filho sabe que, sozinho, não
pio é um instrumento que permite a
Neonatal baseado em Fibra Óptica
conseguirá entrar nesse mercado doCorrugada
observação de locais com acesso limitaDesenvolvimento de Videoendoscópio
minado por multinacionais. "Creio
do. A maior utilização é na medicina,
com Óptica Gradiente
que não devemos gastar energia para
para visualizar cavidades do corpo.
disputar o mercado distribuidor com
MODALIDADE
O endoscópio da Komlux estará
Programa de Inovação Tecnológica
empresas já estabelecidas. Prefiro manacoplado a uma câmara de vídeo, perem Pequenas Empresas (PIPE)
ter nossa identidade na área de demitindo o registro das imagens em fisenvolvimento e aplicações de fibras
COORDENADOR
tas de vídeo para futuras análises ou
CÍCERO LÍVIO OMEGNA DE SOUZA FILHO ­
ópticas", diz. Ele acrescenta que, despara banco de dados. A redução dos
Komlux
de a fase embrionária dos projetos, já
preços de câmeras, monitores e gravacomeça a buscar parceiros e clientes
INVESTIMENTOS
dores de vídeo, bem como de acessóR$
169.209,40
e
US$
125.296,00
(manta)
para que o produto tenha condições
rios para digitalizar imagens e manie R$ 167.287,00 e US$ 79.500,00
de entrar no mercado tão logo saia da
pulá-las em microcomputadores,
(videoendoscópio)
fase de protótipo.
viabilizou o uso em larga escala.
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