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Estratégias de bioengenharia tecidual na reconstrução óssea
Rhyna C. C. Costa1
Fúlvio B. Miguel 2
Fabiana Paim Rosa3

Resumo
A possibilidade de regeneração de tecidos e órgãos com algum tipo de dano biológico tem-se constituído numa preocupação
notável ao longo dos séculos. Reconstruções ósseas adequadas dependem da regeneração tecidual desencadeada pela
atividade de células-tronco mesenquimais. No entanto, o conhecimento da origem e das características fenotípicas dessas
células, como também dos fatores que as governam, durante as etapas de formação e remodelação ósseas, é limitado.
Técnicas de investigação sobre a sua replicação ex vivo e posterior implantação in vivo estão, atualmente, sendo
implementadas. Por sua vez, recentes avanços na área de biomateriais têm concentrado esforços para a sua apropriada
aplicação clínica. Este trabalho tem como objetivo revisar os aspectos mais relevantes acerca do emprego das células-tronco
mesenquimais nas estratégias da bioengenharia tecidual óssea.
Palavras-chave: engenharia tecidual; células-tronco mesenquimais; reconstrução óssea.

INTRODUÇÃO
A Bioengenharia Tecidual e a Medicina
Regenerativa compõem novas áreas que investigam técnicas de regeneração tecidual a partir de
marcadores naturais (fatores de crescimento) e
componentes do próprio organismo (célulastronco mesenquimais) (ROSE; OREFFO,
2002). Assim, são duas vertentes de especial
interesse e de mudanças céleres, as quais envolvem progressos exponenciais, principalmente na
medida em que pesquisadores, envidando esforços para o avanço das bases científicas que as
norteiam, aproximam-se da aplicação clínica do

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objeto de sua investigação, elaborando, por conseguinte, novos parâmetros para produção de
tecidos in vitro, assim como para a elaboração
de procedimentos que envolvam reparo e regeneração teciduais in vivo.
Em contraste com outros tecidos, o osso
é remodelado de forma contínua, durante toda
a vida da maioria dos vertebrados, inclusive o
homem. Quando lesões ou defeitos ósseos ocorrem, nas mais variadas situações clínicas, a reconstrução tecidual, que devolve integridades
funcional e mecânica, constitui-se num passo

Mestranda em Clínica Odontológica na Faculdade de Odontologia da UFBA. Salvador - BA
Mestrando em Clínica Odontológica na Faculdade de Odontologia da UFBA. Prof. Substituto de Patologia Geral do Instituto de Ciências
da Saúde da UFBA. Salvador - BA
3
Professora Adjunto de Patologia do Instituto de Ciências da Saúde da UFBA. Salvador - BA
2

Correspondência para / Correspondence to:
Fabiana Paim Rosa
Departamanto de Biointeração. Instituto de Ciências da Saúde - UFBA
Av. Reitor Miguel Calmon, s/n - Vale do Canela
CEP: 40.110 ­ 100 Salvador ­ Bahia ­ Brasil
Tel.: (71) 3245-8602 e (71) 3245-8339
E-mail: [email protected]

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necessário para a reabilitação do paciente. A
maior parte dessas lesões, em virtude do seu
potencial de regeneração espontânea, repara-se
adequadamente pelo emprego de terapias conservadoras ou técnicas cirúrgicas convencionais.
No entanto, procedimentos de enxertia e substituição óssea são freqüentemente necessários,
especialmente, em Ortopedia e em intervenções
bucomaxilofaciais, quando da existência de defeitos extensos decorrentes de traumas, procedimentos cirúrgicos e deformidades ósseas congênitas (CANCEDDA et al., 2002).

REVISÃO DE LITERATURA E DISCUSSÃO
Há aproximadamente quatro décadas,
descobriu-se a potencialidade de as células-tronco hematopoiéticas diferenciarem-se em múltiplos tipos distintos. Não mais que há duas décadas, as primeiras células-tronco embrionárias
murinas foram isoladas e submetidas à proliferação in vitro. E há apenas quatro anos, os primeiros relatos sobre a pluripotencialidade das
células-tronco embrionárias removidas de
blastocistos e fetos humanos abortados foram
realizados.
Apesar da existência de questões éticas
envolvidas, o poder científico na manipulação
dessas células torna-se ilimitado, na medida em
que as suas características fenotípicas sejam adequadamente mapeadas. Assim, a bioengenharia
tecidual é uma área sem fim aparente, onde os
maiores percalços residem na aplicação clínica
dos seus achados in vitro.
Na estratégia da bioengenharia do tecido
ósseo, o transplante autógeno de células é um
dos mais prósperos conceitos em desenvolvimento, na medida em que elimina a morbidade do
sítio doador, em intervenções que envolvem
enxertia autógena, suprime reações de
imunogenicidade inerentes a procedimentos que
utilizam enxertos alógenos, assim como evita o
risco de insucessos que permeia regimes
terapêuticos à base de implantes aloplásticos
(VACANTI et al., 1998) na reconstrução das
estruturas envolvidas.
Torna-se premente, portanto, estabelecer
condições para que o tecido ósseo possa se rege-

nerar em situações clínicas consideradas inóspitas, como em locais que apresentem suprimento sangüíneo comprometido, em áreas de difícil
consolidação, em regiões que possuem defeitos
com dimensões críticas, em levantamentos de
seio maxilar, onde o osso é conduzido a se formar em condições isentas de carga, ou onde o
tecido esteja completamente ausente. Para a
maioria dessas aplicações, uma fonte celular é
imprescindível (BOYAN et al., 1999).
Dessa forma, as células-tronco mesenquimais proporcionam, ao menos teoricamente, essa inesgotável fonte celular que, a depender do tipo e do fator de crescimento envolvido,
pode originar determinado tecido ou vários tecidos do corpo, tais como ósseo, cartilaginoso,
adiposo, fibroso, muscular e medular. Os fatores de crescimento, por sua vez, desempenham
papel fundamental no controle da proliferação
e diferenciação desses tipos específicos de células (CANCEDDA et al., 2002).
Assim, células-tronco são comumente
definidas como células multipotentes, com capacidade de se diferenciarem em um ou mais
tipos de células especializadas. Em bases teóricas, podem ser retiradas de um determinado
paciente, incorporadas a uma matriz tecidual ex
vivo, e implantadas no mesmo indivíduo quando o reparo tecidual se tornar essencial, evitando-se medidas protocolares de imunossupressão.
Durante essa incorporação, sofrem diferenciação pela indução de alterações nas condições de
seu cultivo, ou ainda in vivo, em conseqüência
do estabelecimento de novo microambiente fisiológico na área transplantada.
Importante ressaltar que células-tronco
embrionárias são derivadas das células da camada mais interna do blastocisto ou tecido fetal
gonadal. Embora não se duvide que constitua a
célula-tronco de maior plasticidade, questões
éticas restringem a sua manipulação, ainda que
a comunidade científica e o grande público tenham concentrado atenção no seu promissor
potencial para a realização de terapia celular
regenerativa, envolvendo doenças que afetam
órgãos importantes do corpo humano (ALISON;
POULSOM; WRIGHT, 2002).
Nesta abordagem, evidencia-se que células diferenciadas, retiradas a partir de tecidos
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adultos, exibem uma capacidade de proliferação muito limitada. Isso representa sérias restrições à sua expansão em cultura e ao seu uso para
reconstrução tecidual in vitro. Assim, em particular, as células indiferenciadas de indivíduos
adultos e de origem hematopoiética parecem
corresponder às mais versáteis, originando diversas linhagens celulares e sendo aparentemente
capazes de se diferenciarem em muitos outros
tipos, num fenômeno dito transdiferenciação
(ALISON; POULSOM; WRIGHT, 2002).
Uma descrição extremamente simplista
pode resumir o procedimento de reconstrução
óssea a partir de células-tronco mesenquimais,
provenientes de um determinado volume dessas células, como sendo: a) isolamento das células em cultura, b) posterior expansão das mesmas ex vivo, c) cultivo e transporte dessas células por meio de uma substância carreadora e d)
implantação local. No entanto, por se tratar de
reconstrução tecidual extremamente complexa,
uma vez ser o tecido ósseo estrutura
tridimensional com componentes internos, e
apresentar taxa de renovação tecidual
marcadamente inferior à pele ou sangue, podese presumir que esse remodelamento
corresponda a uma etapa de longa duração
(BIANCO; ROBEY, 2001).
De forma geral, exaustivas investigações
se impõem para o estabelecimento adequado
desse regime protocolar, como também, para a
práxis clínica (BISHOP; LEE; POLAK, 2002).
Problemas de acessibilidade a esses espécimes
celulares, baixa freqüência (por exemplo, na
medula óssea existe cerca de uma célula-tronco
para cada 100.000 células constituintes), podem se constituir em aspectos que restrinjam a
sua aplicação no desenvolvimento de técnicas
de bioengenharia tecidual (VOGEL, 2001), ainda que avanços tecnológicos tenham se configurado no sentido de prover, desde desenhos aprimorados de matrizes osseocondutoras, como
implementação de terapias celulares e genéticas, o que determina a instituição de recursos
inusitados para emprego em situações singulares (BOYAN et al., 1999).
Abukawa e colaboradores (2003), buscando técnicas menos invasivas para procedimentos bucomaxilofaciais de reconstrução ósR. Ci. méd. biol., Salvador, v. 4, n. 1, p. 70-76, jan./abr. 2005

sea, isolaram células-tronco mesenquimais,
oriundas da medula óssea de três animais da
espécie suína, submetendo-as à técnicas de cultivo.
Concomitantemente,
matrizes
osseocondutoras biodegradáveis foram obtidas
a partir de moldes de estruturas condilares
hígidas de animais de mesma espécie. Após todos os cuidados necessários na construção e preservação de tais matrizes e na replicação das células isoladas, foram utilizados suplementos
osteogênicos (100nm de dexametasona, 50 ug/
ml de ácido ascórbico e 10nm betaglicerofosfato) na indução da sua diferenciação
em células ósseas. Após três dias, os osteoblastos
recém diferenciados foram introduzidos e mantidos por seis semanas juntos à matriz
osseocondutora, num sistema rotacional chamado de biorreator, capaz de proporcionar tensão
de oxigênio suficiente para a sua replicação.
Depois de 42 dias de incubação, a superfície
celular foi avaliada, usando-se um microscópio
com aumento de cinco vezes. Os autores consideraram satisfatória a construção de tecido ósseo autólogo, associado ao uso de polímero sintético biodegradável e células mesenquimais.
Pontuaram, ademais, a natureza conservadora
da técnica empregada e a aplicação promissora
do uso de biorreatores na adequada
mineralização óssea, a partir de osteoblastos replicados, e ainda que a técnica de bioengenharia
conduziu a uma estrutura consistente, branca e
com a forma similar a de um côndilo de porco
hígido. Preconizaram por fim, que a combinação entre exposições endoscópicas com a
bioengenharia tecidual permitirá que deformidades adquiridas ou congênitas possam ser
corrigidas com um relativo baixo custo e mínimo internamento hospitalar.
Baseado no conceito de resposta celular
por remodelação óssea em razão de requerimentos funcionais, a aplicação de estresse mecânico
em sistemas celulares sob cultivo talvez seja importante na sua bioengenharia tecidual. Os
biorreatores desenvolvidos por Hidetomi Terai,
em 2002, produzem ótimas concentrações de
oxigênio e uma carga (força) contínua, produzida a partir de pressão hidráulica sobre a cultura
de células, ora implantada na matriz
osseocondutora. Tem sido demonstrado que o

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tecido ósseo proveniente desse protocolo de reconstrução é formado por uma matriz densa e
adequadamente mineralizada. Não obstante, até
o momento, o tecido ósseo com a sua inerente
vascularização ainda não foi satisfatoriamente
reconstruído ex vivo. Virtualmente, existem duas
alternativas para se superar essa questão: implantar uma matriz não vascularizada e permitir invasão vascular in vivo, ou utilizar técnicas microscópicas de bioengenharia para se produzir
osso vascularizado (ABUKAWA et al., 2003).
Uma das limitações dessa técnica investigada
constituiu-se na formação óssea superficial.
Para uso clínico, uma penetração celular
mais profunda é necessária para reconstrução de
osso funcionalmente adequado. No entanto, é
plausível que só se atinja essa formação óssea
uniforme quando a técnica de vascularização do
tecido reconstruído estiver dominada.
Yamada e colaboradores (2003) testaram
o uso de uma combinação de gel à base de fibrina
com beta-fosfato tricálcio, como substâncias
carreadoras biodegradáveis, e células-tronco
mesenquimais na formação óssea heterotópica
em ratos. O gel de fibrina é composto de
fibrinogênio e trombina, funcionando como
uma relevante matriz, com potencial condutor
biológico para transplantação tecidual, em função de sua comprovada biocompatibilidade,
biodegradabilidade e capacidade de favorecer
adesão celular. Células-tronco mesenquimais em
proliferação foram removidas de fêmures de ratos, fragmentadas e misturadas ao gel, sendo
dispostas em seringas. Em seguida, foram injetadas no tecido subcutâneo do dorso de quinze
ratos de igual linhagem dos que forneceram as
células-tronco mesenquimais. Oito semanas após
a implantação, a avaliação macroscópica demonstrou a existência local de massa opalescente e de
consistência firme. Histologicamente, observouse a presença de estrutura óssea recém formada
em todas as áreas que sofreram injeção do material, mas nenhuma nos sítios-controle, que receberam o gel sem as células-tronco
mesenquimais. Adicionalmente, osteopontina,
uma proteína importante no desenvolvimento
ósseo, foi identificada por meio de técnicas de
imunohistoquímica. Os autores concluíram que
a mistura em evidência pode levar à formação

óssea com êxito, possibilitando a regeneração de
defeitos e reconstrução anatômica e funcional
com mínima invasão tecidual, pela geração
autógena de tecido ósseo.
Schneider e colaboradores (2003) avaliaram a capacidade do tecido ósseo transplantado
no dorso de ratos, e formado a partir da remoção e cultivo adequado de células-tronco
mesenquimais, provenientes de fêmures, tíbia e
úmero de animais de mesma linhagem, em responder a fatores biológicos sistêmicos de maneira similar ao osso local pré-existente. Assim,
com o objetivo de investigar essa possível remodelação óssea, foi administrado, de forma
sistêmica, uma semana após o transplante celular, o hormônio da paratireóide (PTH) em doses apropriadas para o estabelecimento de atividades tanto anabólicas quanto catabólicas, nos
animais receptores do tecido ósseo. Seguindose ao sacrifício dos mesmos, vinte e um dias após
a primeira administração do hormônio, foram
realizados exames histológicos, histomorfométricos, radiografias e tomografias
computadorizadas. Os resultados demonstraram
que o tecido ósseo ectópico foi responsivo ao
tratamento sistêmico com PTH, servindo assim,
como um modelo in vivo, para se estudarem os
fenômenos que envolvem a homeostase óssea.
Ou seja, quando submetido a doses indutoras
de atividade catabólica, revelou intensificar o seu
desempenho osteoclástico, ao passo que, em
doses apropriadas para o anabolismo, foi percebido um incremento na massa óssea trabecular.
Conveniente apontar que o PTH desempenha
papel precípuo nos fenômenos de regulação
extracelular de cálcio. Um dos achados mais
significantes nesse estudo foi o aumento substancial no trabeculado ósseo, seguido ao tratamento com doses anabólicas do paratormônio.
Atualmente, há muito interesse nesse efeito, em vista da possibilidade do uso de agentes
anabólicos no tratamento de doenças ósseas
metabólicas, particularmente a osteoporose. De
fato, dentre os vários agentes existentes, o PTH
é visto como o mais promissor para o tratamento da osteoporose em mulheres e homens
(NEER et al., 2001).
O mecanismo básico pelo qual o tratamento com o PTH, em doses anabólicas afeta
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positivamente as estruturas ósseas, não está completamente elucidado, ainda que esse efeito tenha sido associado ao aumento na proliferação e
diferenciação das células osteogênicas
(NISHIDA et al., 1994), como também na prolongação do tempo de atividade dos osteoblastos
(JILKA et al., 1999).
Extremamente oportuno é acentuar que
esse modelo de estudo vai muito além da aplicação de células-tronco mesenquimais com vistas à regeneração tecidual óssea. Tendo sido demonstrado que o osso recém formado se comporta de forma similar ao osso normal, as estratégias de terapia celular regenerativa, dentro do
universo da bioengenharia tecidual, talvez possam ser utilizadas em conjunção com agentes
anabólicos para amplificação e otimização da
formação óssea em sítios de regeneração tecidual.
Dessa forma, adicionando um estímulo fisiológico à atividade regenerativa do osso em reconstrução, talvez se propicie a constituição de tecido ósseo que mais efetivamente mimetize o osso
normal pré-existente (SCHNEIDER et al.,
2003).
Sugiyama e colaboradores (2003) avaliaram a capacidade de células-tronco
mesenquimais, de origem hematopoiética, modificadas geneticamente por transdução, em formar osso em ratos imunocompetentes. Por meio
de vetores de adenovírus, expressou-se um fator
de crescimento importante na osseoindução
(Bone morphogenetic proteins - BMP). Na presença desse fator, as células apresentam um
fenótipo caracterizado pelo aumento da atividade da fosfatase alcalina, um marcador da sua
diferenciação em osteoblastos, e também produção da osteocalcina. Quatro semanas após a
injeção das células-tronco modificadas geneticamente no tecido muscular dos ratos, radiografias detectaram a presença de ossículos na
região. Mais ainda, após oito semanas, análises
histológicas demonstraram a presença de osso
completamente formado, incluindo osso cortical
e medular, nos respectivos sítios. Ficou comprovada, então, a formação óssea em ratos
imunocompetentes, pela injeção de células-tronco geneticamente modificadas, não submetidas
a cultivo e diferenciação em células osteogênicas
ex vivo.
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A osseoindução é mediada por diversos
mecanismos relacionados à proliferação e diferenciação de células-tronco mesenquimais, assim como pela sua habilidade em sintetizar
matriz óssea (KATAGIRI et al., 1994). As proteínas morfogenéticas participantes do metabolismo ósseo correspondem a fatores de crescimento com relevantes propriedades
osseoindutoras, incluindo a capacidade de induzir formação óssea heterotópica in vivo
(URIST; DeLANGE; FINERMAN, 1983).
Também tais proteínas apresentam a capacidade de induzir ossificação endocondral em sítios
portadores de fraturas e, assim, serem potencialmente úteis em acelerar o reparo ósseo. A sua
injeção de forma isolada, sem substâncias
carreadoras, no entanto, induz a pequena formação óssea em animais imunocompetentes,
como também a uma severa inflamação local.
Uma das maneiras para contornar essas dificuldades é associar a sua implantação nos referidos
sítios às células-tronco mesenquimais
(SUGIYAMA et al., 2003).
A transferência genética, mediada por
vetores de adenovírus, por sua vez, configura-se
como eficiente sistema para liberação das diversas formas recombinantes de fatores de crescimento in vivo, especialmente apropriado nesse
caso, uma vez que a sua sinalização, sem o fenômeno da transdução genética, leva a uma indução
de formação óssea demorada, que envolve, por
vezes, semanas. Dessa forma, a sua ligação temporária a substâncias carreadoras, pela expressão gênica mediada pelo adenovírus, seria, portanto, suficiente para tratar fraturas e defeitos
ósseos, visto que a produção crônica dessa proteína não se faz necessária nessas situações. Muito embora o estudo tenha demonstrado que a
implantação das células-tronco mesenquimais
modificadas geneticamente obteve êxito na formação óssea em ratos imunocompetentes,
remanesce a dúvida sobre se essas células apenas
funcionam como carreadoras do fator de crescimento osseoindutor ou se, efetivamente, elas se
transdiferenciam em osteoblastos in vivo
(SUGIYAMA et al., 2003).
Para esclarecer tal questão, torna-se indispensável testar a utilização de substâncias
carreadoras para as células geneticamente mo-

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dificadas, fazendo com que as mesmas se mantenham concentradas num determinado sítio e
que o mesmo, após sua implantação, possa ser
examinado com vistas a se detectar a presença
de células ósseas originadas a partir de células
osteogênicas.

CONCLUSÃO

Estudos in vitro e in vivo com célulastronco mesenquimais associadas aos biomateriais
para o reparo tecidual têm apresentado resultados promissores na aplicação clínica.
As evidências científicas revistas no nosso
trabalho, assim como a constatação dos avanços
mencionados, sugerem que estudos prospectivos
são necessários para ratificar a sua aplicação clínica.

A bioengenharia tecidual tem participação imperativa nas terapias regenerativas ósseas.

Tissue engineering strategies in the bone reconstruction
Abstract
The possibility of regeneration and repair of damaged tissues and organs has been a major concern for
centuries. Appropriate bone reconstruction depend on the tissue engineering promoted by the Mesenchymal
stem cells. However, the knowledge about their origin and fenotypical features, as wel as, about the growth
factors that govern their activities and the steps related to tissue regeneration is limited. Practical methods
involving the ex vivo expansion and in vivo transplantation of the stem cells are currently being tested. On
the other hand, recent advancements in the biomaterial field have concentrated efforts towards its clinical
application. This paper seeks to review the most important aspects of the Mesenchymal stem cells in the
strategies of bony tissue engineering.
Keywords: tissue engineering; mesenchymal stem cells; bone reconstruction.

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Recebido em / Received: 12/03/2004
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