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O que é Engenharia Biomédica?
Nas últimas décadas, os avanços tecnológicos têm estado presentes em todos os aspectos do cotidiano. No
caso dos hospitais e centros de saúde, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, podem ser citados alguns
exemplos da aplicação de novas tecnologias nas áreas de:
-Terapia e Diagnóstico: monitoração de sinais vitais e diagnóstico do estado dos pacientes nas Unidades de
Terapia Intensiva com os aparelhos de eletrocardiografia (ECG) e eletroencefalografia (EEG).
-Medicina Nuclear: criação e uso de radiofármacos para permitir uma compreensão da fisiologia do
paciente, e instrumentação para detectar e monitorar a atividade desses elementos radioativos no organismo.
-Imagens Médicas: utilização de aparelhos de raios-x, ultra-som, tomografia computadorizada, e ressonância
magnética para mostrar detalhes anatômicos dos pacientes.
-Suporte à Vida: surgimento e aperfeiçoamento de aparelhos que substituem temporariamente funções do
organismo (respiradores, marcapasso, máquinas de hemodiálise e de circulação sanguínea extra-corpórea).
-Informática médica: uso de redes de computadores para armazenar e fazer o tratamento estatístico dos
registros médicos e monitorar o estado dos pacientes em Unidades de Terapia Intensiva.
Assim, além dos profissionais das áreas de biológicas, percebe-se a crescente importância do papel dos
profissionais das áreas de engenharia, física e das ciências exatas em geral para o fornecimento dos modernos
serviços de saúde. Disto surgiram três grandes áreas onde estes profissionais podem atuar em conjunto com os
profissionais tradicionais da área de saúde aumentando a visão multidisciplinar das ciências médicas em geral:
-Engenharia Biomédica;
-Física Médica;
-Informática Médica.
Cada uma desta áreas será abordada superficialmente a seguir.

1.Engenharia Biomédica:
1.1. Introdução
No século 20, a inovação tecnológica vem progredindo a um passo tão acelerado que penetrou em quase
todas as facetas de nossas vidas. Isto se aplica especialmente aos campos da medicina e de serviços de saúde. Hoje,
na maioria dos países desenvolvidos, o hospital moderno emergiu como o centro de um sistema de saúde
tecnologicamente sofisticado mantido por um pessoal igualmente capacitado.
Com uma seqüência de inovações tecnológicas quase ininterrupta que direciona os serviços médicos, os
profissionais de engenharia se envolveram intimamente em muitas pesquisas médicas. Como resultado, a disciplina
de engenharia biomédica emergiu como um meio de integração para duas profissões dinâmicas: medicina e
engenharia. No processo, engenheiros biomédicos participaram ativamente no projeto, desenvolvimento, e utilização
de materiais, dispositivos (como litotripsia ultrasônica, marca-passo, etc.), e técnicas (como processamento de sinal e
imagens, inteligência artificial, etc.) para pesquisa clínica, assim como o diagnóstico e tratamento de pacientes.
Assim muitos engenheiros biomédicos atuam agora como membros de equipes de fornecimento de serviços de saúde
buscando novas soluções para os problemas de saúde que defrontam nossa sociedade. O objetivo desta aula é prover
um fio central de conhecimento dos campos abrangidos pela disciplina de engenharia biomédica. Para isso, serão
abordadas a evolução do sistema de saúde moderno e a identificação das diversas atividades que os engenheiros
biomédicos executam para ajudar no diagnóstico e tratamento de pacientes.
1.2. Evolução do Sistema de Saúde Moderno
Antes de 1900, a medicina tinha pouco a oferecer para o cidadão comum, pois os seus recursos consistiam
principalmente do médico e da sua pequena bagagem educacional e material. Em geral, os médicos pareciam ser
mal-providos, mas a escassez tinha causas bem diferentes da atual crise de disponibilidade de profissionais de saúde.
Embora os custos de obtenção do treinamento médico eram relativamente baixos, a demanda para os serviços dos
doutores também era muito pequena, pois muitos dos serviços também providos pelo médico, poderiam ser obtidos
de curandeiros da comunidade. A casa era tipicamente o local para tratamento e recuperação, e os parentes e vizinhos
constituíam um corpo de enfermagem capaz e disposto. Bebês eram entregues por parteiras, e as enfermidades que
não eram curadas através de remédios caseiros, eram deixadas para correr o seu, freqüentemente fatal, curso natural.
O contraste com as práticas de saúde contemporâneas, nas quais médicos especializados e enfermeiras se localizam
dentro de um hospital, onde fornecem serviços críticos de diagnóstico e de tratamento, é dramático.

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As mudanças dentro da ciência médica se originaram nos desenvolvimentos rápidos que ocorreram nas
ciências aplicadas (química, física, engenharia, microbiologia, fisiologia, farmacologia, etc.) na virada do século.
Este processo de desenvolvimento foi caracterizado por intensa fecundida inter-disciplinar que proporcionou um
ambiente no qual a pesquisa médica foi capaz de dar imensos saltos no desenvolvimento de técnicas para o
diagnóstico e tratamento de doenças. Por exemplo, em 1903, Willem Einthoven, um fisiologista holandês, inventou o
primeiro eletrocardiógrafo para medir a atividade elétrica do coração. Ao aplicar descobertas das ciências físicas para
analisar um processo biológico, ele iniciou uma nova era tanto na medicina cardiovascular e nas técnicas de medidas
elétricas.
Novas descobertas nas ciências médicas se seguiram umas às outras como intermediárias em uma reação de
cadeia. Entretanto, a inovação mais significativa para a medicina clínica foi o desenvolvimento dos raios-X. Este
"novo tipo de raios" como o descobridor deles W. K. Röentgen os descreveu em 1895, abriu o "interior do homem"
para a inspeção médica. Inicialmente, foram usadas radiografias para diagnosticar fraturas e deslocamentos dos
ossos, e no processo, máquinas de radiografia ficaram comuns na maioria do hospitais urbanos. Departamentos de
radiologia foram estabelecidos, e a influência deles se espalhou pelos outros departamentos do hospital. Pelos anos
trinta, a visualização de radiografias de praticamente todos os sistemas de órgãos do corpo humano tinham se tornado
possíveis graças ao uso de sais de Bário e uma ampla quantidade de materiais radiopacos.
A tecnologia da radiografia deu aos médicos uma ferramenta poderosa que, pela primeira vez, permitiu
diagnósticos precisos de uma grande variedade de doenças e problemas de saúde. Além disso, visto que as máquinas
de radiografia também eram inviáveis e caras para os médicos e clínicas locais, elas tiveram que ser colocadas em
centros de saúde ou hospitais. Uma vez lá, a tecnologia de radiografia ativou a transformação do hospital de ser
essencialmente um receptáculo passivo para o doente a uma instituição de cura ativa para todos os membros da
sociedade.
Por razões econômicas, a centralização dos serviços de saúde tornou-se essencial devido a inúmeras outras
inovações tecnológicas importantes que foram aparecendo no cenário médico. Porém, os hospitais continuaram
sendo instituições para temer, e isto se verificou até o surgimento da sulfanilamida nos anos 30 e da introdução da
penicilina no começo da década de 40, quando o maior perigo da hospitalização, ou seja, a infecção-cruzada entre
pacientes, estava significativamente reduzido. Com estas novas drogas em seus arsenais, foi permitido aos cirurgiões
executar as operações sem a morbidez e mortalidade proibitivas devido a infecção. Além do mais, apesar da
descoberta dos grupos sanguíneos e da incompatibilidade entre grupos ter sido em 1900 e do citrato de sódio ser
usado em 1913 para prevenir coagulação, o pleno desenvolvimento dos bancos de sangue não foi possível até os anos
trinta, quando a tecnologia permitiu uma refrigeração adequada. Até aquele tempo, doadores "frescos" eram
sangrados e o sangue transfundido enquanto ainda estava morno.
Uma vez que estes avanços cirúrgicos foram estabelecidos, o emprego de peças de tecnologia médica
especificamente projetadas ajudou no desenvolvimento de procedimentos cirúrgicos complexos. Por exemplo, o
respirador de Drinker foi introduzido em 1927 e a primeira ligação de contorno de coração-pulmão em 1939. Pelos
anos quarenta, procedimentos médicos que dependiam fortemente da tecnologia médica, como a cateterização
cardíaca e a angiografia (uso de uma cânula enfiada por uma veia do braço até o coração com uma injeção de tintura
de líquido radiopaco para a visualização de veias e válvulas do pulmão e do coração) foram desenvolvidos. Como
resultado, o diagnóstico preciso de doenças congênitas e adquiridas do coração, principalmente desordens da válvula
devido à febre reumática, foi possível, e uma nova era de cirurgia cardíaca e vascular foi estabelecida.
Após a Segunda Guerra Mundial, os avanços tecnológicos foram estimulados através de esforços para
desenvolver sistemas superiores de armamentos e estabelecer hábitats no espaço e no fundo do oceano. Como um
subproduto desses esforços, o desenvolvimento de dispositivos médicos foi acelerado e a
medicina se beneficiou grandemente desta rápida onda de inovações tecnológicas. Considere os seguintes exemplos:
1.Os avanços na eletrônica do estado-sólido tornaram possíveis o mapeamento do comportamento sutil da unidade
fundamental do sistema nervoso central, o neurônio, e o monitoramento de vários parâmetros fisiológicos, como o
eletrocardiograma, de pacientes em unidades de terapia intensivas.
2.Novos dispositivos protéticos se tornaram uma meta de engenheiros envolvidos no desenvolvimento de
ferramentas para melhorar a qualidade de vida dos inválidos.
3.A Medicina Nuclear, um subproduto da era atômica, resultou em um avanço poderoso e efetivo na descoberta e
tratamento de anormalidades fisiológicas específicas.
4.O Ultra-Som para diagnóstico, baseado na tecnologia do sonar, se tornou tão aceito que estudos ultrasônicos são
agora parte do trabalho rotineiro de diagnóstico em muitas especialidades médicas.

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5.As cirurgias de partes sobressalentes também ficaram comuns. Tecnólogos foram encorajados a desenvolver
dispositivos de assistência cardíaca, como válvulas de coração e vasos de sangue artificiais, e o programa do coração
artificial foi lançado para desenvolver uma substituição para um coração humano defeituoso ou doente.
6.Avanços nos materiais possibilitaram o desenvolvimento de dispositivos médicos descartáveis, como agulhas e
termômetros, e de sistemas de injeção de drogas implantáveis.
7.Computadores similares a aqueles desenvolvidos para controlar os planos de vôo da cápsula Apollo foram
utilizados para armazenar, processar, e verificar os registros médicos, para monitorar o estado de pacientes em
unidades de cuidados intensivos, e para prover sofisticados diagnósticos estatísticos de doenças potencialmente
correlacionadas com grupos específicos de sintomas dos pacientes.
8.Desenvolvimento do primeiro instrumento médico baseado em computador, o rastreador de tomografia axial
computadorizada, revolucionou as perspectivas clínicas para os procedimentos de diagnóstico por imagens, que
incluem agora ressonância magnética e tomografia de emissão de pósitrons.
O impacto destas e outras descobertas foi profundo. O sistema de saúde constituído inicialmente pelo
médico à "cavalo e carroça" foi embora para sempre, substituído por um pessoal clínico tecnologicamente sofisticado
que opera principalmente em "hospitais modernos" projetados para acomodar a nova tecnologia médica. Este
processo evolutivo continua, com avanços em biotecnologia e engenharia de tecidos alterando em muito a natureza
do próprio sistema de saúde.

1.3. O Campo da Engenharia Biomédica
Hoje, muitos dos problemas que desafiam os profissionais de saúde são de extremo interesse aos
engenheiros porque eles envolvem o projeto e aplicação prática de dispositivos médicos e sistemas, processos estes
que são fundamentais para a prática da engenharia. Estes problemas médicos relacionados com o projeto podem ir
desde construções bastante complexas em larga-escala, como o projeto e implementação de laboratórios clínicos
automatizados, infra-estrutura de testes multifásicos (isto é, centros que permitam a realização de muitos testes
clínicos), e sistemas de informação hospitalar, para a criação de dispositivos relativamente pequenos e "simples", tais
como, eletrodos de gravação e biosensores, que podem ser utilizados para monitorar a atividade de processos
fisiológicos específicos em uma pesquisa ou intervenção clínica. Eles englobam as muitas complexidades de
monitoramento remoto e telemetria, incluindo as exigências dos veículos de emergência, salas de operação, e
unidades de cuidados intensivos. O sistema de saúde, entretanto, abrange muitos problemas que representam desafios
para certos membros da profissão de engenharia chamados de engenheiros biomédicos.

1.4. Engenharia Biomédica: Uma Definição
Embora o que seja incluído no campo de engenharia biomédica é considerado por muitos totalmente claro,
existem algumas discordâncias sobre sua definição. Neste curso, utilizaremos o significado mais abrangente de
engenharia biomédica. Assim, os Engenheiros biomédicos aplicam princípios elétricos, mecânicos, de substância
químicas, ópticos, e outros princípios de engenharia para entender, modificar, ou controlar sistemas biológicos (isto
é, humanos e animais), como também projeta e fabrica produtos que podem monitorar funções fisiológicas e auxiliar
no diagnóstico e tratamento de pacientes. Quando os engenheiros biomédicos trabalham dentro de um hospital ou
clínica, eles são chamados, mais apropriadamente, de engenheiros clínicos.
1.5. Atividades dos Engenheiros Biomédicos
O campo de abrangência das atividades dos engenheiros biomédicos tem crescido significativamente desde
os anos 50 e 60, onde só havia o desenvolvimento de dispositivos médicos, para incluir um maior conjunto de
atividades. Como ilustrado a seguir:
-Aplicação da análise de sistemas de engenharia (modelamento fisiológico, simulação e controle) a problemas
biológicos
-Detecção, medição e monitoramento de sinais fisiológicos (isto é, biosensores e instrumentação biomédica)
-Diagnóstico através da interpretação de dados bioelétricos via técnicas de processamento de sinais.
-Procedimentos e dispositivos terapêuticos e de reabilitação (engenharia de reabilitação)
-Dispositivos para substituição ou aumento de funções do organismo (órgãos artificiais)

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-Análise computacional de dados relacionados aos pacientes e tomada de decisões clínicas(por exemplo, informática
médica e inteligência artificial)
-Imagens médicas, ou seja, a exibição gráfica de detalhes anatômicos ou funções fisiológicas
-Criação de novos produtos biológicos (por exemplo, biotecnologia e engenharia de tecidos)
As atribuições típicas de engenheiros biomédicos também incluem:
-Pesquisas em novos materiais para órgãos artificiais implantados
-Desenvolvimento de novos instrumentos de diagnóstico para análises de sangue
-Modelamento computacional da função do coração humano
-Desenvolvimento de softwares para análise de dados de pesquisas médicas
-Análise de Problemas com dispositivos médicos para fins de segurança e eficácia
-Desenvolvimento de novos sistemas de diagnóstico por imagens
-Projeto de sistemas de telemetria para monitoração de pacientes
-Projeto de sensores biomédicos para medição de variáveis de sistemas fisiológicos
-Desenvolvimento de sistemas especialistas para diagnóstico de doenças
-Projeto de sistemas de controle de malha-fechada para administração de medicamentos
-Modelamento dos sistemas fisiológicos do corpo humano
-Projeto de instrumentação para medicina desportiva
-Desenvolvimento de novos materiais dentais
-Projeto de dispositivos de auxílio à comunicação para deficientes
-Estudo da dinâmica de fluídos pulmonares
-Estudo da biomecânica do corpo humano
-Desenvolvimento de materiais para serem utilizados como substituição para a pele humana
Então, a engenharia biomédica é um campo interdisciplinar que abrange desde abordagens teóricas e nãoexperimentais até aplicações do estado-da-arte. Pode englobar pesquisa, desenvolvimento, implementação e
operação. Assim como a prática médica por si mesma, é improvável que uma única pessoa possa adquirir
conhecimentos que englobem o campo inteiro. Ainda, por causa da natureza interdisciplinar desta atividade, existe
uma considerável interação e sobreposição de interesses e esforço entre eles. Por exemplo, engenheiros biomédicos
ocupados no desenvolvimento de biosensores podem interagir com aqueles interessados em dispositivos protéticos.
Aqueles que se ocuparam na automação de laboratórios de análises clínicas podem colaborar com os grupos de
sistemas especialistas, baseados em dados específicos de laboratório. As possibilidades são infinitas.
Talvez, o maior benefício em potencial que decorre do uso da engenharia biomédica é a identificação dos
problemas e necessidades do nosso atual sistema de saúde que pode ser resolvido utilizando a tecnologia de
engenharia existente e metodologia de sistemas. Por conseguinte, o campo de engenharia biomédica oferece
esperança na batalha contínua para prover serviços de saúde de alta qualidade a um custo razoável; e se corretamente
direcionada para resolver problemas relacionados a aproximações médicas preventivas, serviços de cuidados
ambulatoriais, e similares, os engenheiros biomédicos podem fornecer as ferramentas e as técnicas para fazer nosso
sistema de saúde mais efetivo e eficiente.

1.6. Sub-divisões da Engenharia Biomédica
No Brasil, tradicionalmente costuma-se dividir a engenharia biomédica em:
-Engenharia Clínica;
-Engenharia de Reabilitação;
-Bioengenharia;
-Instrumentação Médica.
1.6.1.Engenharia Clínica
DURANTE OS ÚLTIMOS 100 ANOS, a dependência do sistema de saúde em tecnologia médica para a
realização de serviços tem crescido continuamente. Até certo ponto, todos os profissionais da saúde dependem da
tecnologia, seja isto na área de medicina preventiva, diagnóstico, cuidados terapêuticos, reabilitação, administração,
ou treinamento e educação relacionados à saúde. A tecnologia médica habilita os médicos a intervir por interação
integrada com os seus pacientes de uma maneira custo-efetiva, eficiente e segura. Como resultado, o campo de
engenharia clínica emergiu como a disciplina de engenharia biomédica que cumpre a necessidade de administrar o
desenvolvimento da tecnologia médica e integrar isto adequadamente com as práticas clínicas desejadas.
O sistema de saúde apresenta um ambiente bastante complexo onde instalações, equipamentos, materiais e
uma grande variedade de intervenções humanas estão envolvidos. É neste ambiente clínico que vários pacientes de

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várias idades e condições, pessoal treinado e a grande variedade de tecnologias médicas convergem. Esta complexa
mistura de interações pode levar a riscos inaceitáveis quando os programas para monitoração, controle, melhoria e
educação de todas estas entidades envolvidas não são integrados adequadamente por profissionais qualificados.
O crescente aumento do parque de equipamentos eletro-eletrônicos em um hospital, alguns com princípios
de funcionamento bastante complexos, e o aparecimento de novas tecnologias tornaram indispensável a presença de
um profissional especializado para assessorar, do ponto de vista técnico, o corpo clínico no gerenciamento de todas
estas novas tecnologias associadas aos serviços de saúde. Este profissional é o Engenheiro Clínico, que aplica
tecnologias e métodos de engenharia para tentar solucionar os problemas relacionados com os serviços oferecidos
por uma unidade de saúde.
Segundo o Colégio Americano de Engenheiros Clínicos (American College of Clinical Engineers - ACCE),
que é um órgão norte-americano de certificação de engenheiros clínicos, o engenheiro clínico é aquele que dá apoio e
possibilita progressos nos cuidados com os pacientes através da aplicação de engenharia e habilidades gerenciais nas
tecnologias aplicadas à saúde.
A engenharia clínica possibilita a redução de custos e aumenta a eficácia dos procedimentos relacionados
com a tecnologia na saúde. As maiores reduções de custos ocorrem nas áreas de manutenção e aquisição de capital,
mas economias adicionais são possíveis através do treinamento dos usuários ou pessoal de manutenção,
gerenciamento de riscos, investigação de acidentes, e construção ou reforma do espaço físico. Para isso o engenheiro
clínico precisará coletar dados pertinentes e confiáveis que identifiquem as áreas que apresentam potencial para
redução de custos.
Assim, a atribuição básica do engenheiro clínico será:
"Fornecer apoio científico, técnico e gerencial para a administração, departamentos clínicos e corpo médico
do hospital, de maneira a garantir a melhor qualidade possível dos serviços prestados pelo hospital com relação às
tecnologias médicas."
Especificando melhor a atribuição básica citada anteriormente, pode-se citar as seguintes atribuições do
Engenheiro Clínico:
Apoio Científico:
-realizar pesquisas para desenvolvimento de instrumentação biomédica;
-sugerir adaptações e melhoramentos em equipamentos médicos;
-avaliação de tecnologias médicas.
Apoio Técnico:
-acompanhar a vida útil dos equipamentos médicos (instalação, operação, manutenção corretiva, manutenção
preventiva e desativação) para garantir o melhor nível possível de segurança dos seus usuários e pacientes;
-acompanhar e auxiliar os setores clínicos nos processos de licitação de equipamentos médicos, fornecendo
especificações técnicas dos equipamentos desejados;
-fornecer treinamento, interno e externo, aos usuários e aos técnicos de manutenção dos equipamentos médicos.
Apoio Gerencial:
-auxiliar na gerência de contratos de manutenção externa de equipamentos médicos;
-participação na normatização de procedimentos administrativos de solicitação de reparos, manutenções de rotina,
emergências e manutenções preventivas de equipamentos médicos;
-otimização de custos durante a vida útil dos equipamentos médicos (instalação, operação, manutenção corretiva,
manutenção preventiva e desativação).
No Brasil, são oferecidos cursos de especialização (duração de 1 ano) e de pós-graduação (Mestrado e
Doutorado) em engenharia clínica em algumas instituições:
-DEB/FEEC/UNICAMP (Campinas ­ SP);
-COPPE/UFRJ (Rio de Janeiro ­ RJ);
-CEFET (Curitiba ­ PR).
1.6.2. Engenharia de Reabilitação
AVANÇOS DA ÁREA DE ENGENHARIA RESULTARAM EM enormes passos no campo da
reabilitação. A indivíduos cegos ou com visão reduzida pôde ser dada a "visão"; aqueles com perda auditiva severa
ou completa puderam "ouvir" sendo providos com um sentido dos seus ambientes; os impossibilitados de falar
puderam ser ajudados a "falar" novamente; e aqueles sem controle completo de um membro (ou sem o membro)
puderam por meios artificiais "caminhar" ou recuperar outras funções de movimento. O nível atual disponível de
restauração funcional para ver, ouvir, falar, e mover-se, porém, ainda é pálido em comparação com as capacidades
dos indivíduos sem inaptidão. Os sistemas sensoriais e motores (de movimento) são maravilhosamente criados,
ambos dentro de um determinado sistema e integrados por sistemas. O engenheiro de reabilitação assim enfrenta uma
tarefa assustadora ao tentar projetar sistemas aumentativos ou de substituição quando um ou mais destes sistemas
estão prejudicados.

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A engenharia de reabilitação teve suas origens na necessidade de prover assistência para indivíduos que
foram feridos na Segunda Guerra Mundial. A engenharia de reabilitação pode ser definida como a aplicação da
ciência e tecnologia para minimizar os impedimentos de indivíduos com inaptidões. Com esta definição, qualquer
dispositivo, técnica, ou conceito utilizado na reabilitação que tem uma base tecnológica entra dentro do escopo de
engenharia de reabilitação.
Existe um conjunto de conhecimentos que define cada uma das escolas tradicionais de engenharia. A
engenharia biomédica é a menos precisamente definida, mas em geral, um engenheiro biomédico deve ser proficiente
em uma das escolas tradicionais de engenharia e ter um conhecimento de funcionamento de assuntos biológicos ou
médicos. O engenheiro de reabilitação é um engenheiro biomédico que não só deve ser tecnicamente proficiente
como um engenheiro e saber biologia e medicina mas também tem que integrar considerações artísticas, sociais,
financeiras, psicológicas e fisiológicas para desenvolver ou analisar um dispositivo, técnica, ou conceito que satisfaz
as necessidades da população que o engenheiro está servindo. Em geral, os engenheiros de reabilitação lidam com
inaptidões dos músculos esqueléticos ou inaptidões sensoriais. Eles freqüentemente possuem uma formação
fundamentada em biomecânica. A maioria do trabalho é definido por um time de caráter multidisciplinar.
A engenharia de reabilitação lida com muitos aspectos da reabilitação, incluindo o aplicado, científico,
clínico, técnico e teórico. Vários tópicos incluem, mas não estão limitados a, dispositivos de assistência e outras
ajudas para aqueles com inaptidão, sistemas de aumento sensorial e de substituição, estimulação elétrica funcional
(para controle motor e próteses neuro-sensoriais), órteses e próteses, técnicas e dispositivos mioelétricos,
transdutores (incluindo eletrodos), processamento de sinais, hardware, software, robótica, sistemas de aproximação,
avaliação tecnológica, estabilidade postural, sistemas de assento de cadeira de rodas, análise de andadura,
biomecânica, biomateriais, sistemas de controle (biológicos e externos), ergonomia, desempenho humano e taxa
funcional.
A engenharia de reabilitação pode ser descrita como uma área da engenharia de sistemas. Imagine ser o
engenheiro em um projeto que tem uma planta desconhecida, altamente não-linear com coeficientes cujas variações
no tempo não parecem seguir nenhum modelo conhecido ou solucionável, onde o tempo (seu e de seus clientes) e
recursos financeiros são severamente limitados, e onde nenhuma solução conhecida foi desenvolvida (ou se foi,
precisará de modificação para cada novo cliente assim nenhuma economia de escala existe). Mais adiante, existirão
severas incompatibilidades de impedâncias entre as aplicações disponíveis e as necessidades de seus clientes. Ou a
baixa capacidade do canal residual dos sentidos de um dos seus clientes requererá uma enorme compressão de sinal
para conseguir um sinal com qualquer conteúdo de informação apreciável através dele. Bem-vindo ao mundo do
engenheiro de reabilitação!
No Brasil, são oferecidos cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em engenharia de reabilitação
em algumas instituições:
-Departamento de Engenharia Biomédica - FEEC/UNICAMP (Campinas ­ SP);
-Laboratório de Engenharia Biomédica - USP (São Paulo ­ SP) ;
-Faculdade de Medicina de Ribeiráo Preto ­ USP (Ribeirão Preto ­ SP).
1.6.3.Bioengenharia
A bioengenharia é a parte da Engenharia Biomédica que tem por finalidade a aplicação da engenharia aos
processos biológicos, desenvolvendo aquisição de base e de novas idéias para o apoio de instrumentação e de novos
métodos de promoção de saúde.
O bioengenheiro, no Brasil, tem como função principal utilizar matemática, física, análise de sistemas e
computadores e relacionar com o funcionamento e a estrutura dos sistemas vivos. No exterior, além dessas
atividades, o biengenheiro também trabalha em pesquisas biotecnológicas como engenharia genética e meio
ambiente.
Entre as várias áreas de atividades da bioengenharia destacam-se:
Biomateriais
UM BIOMATERIAL SUBSTITUI UMA PARTE ou uma função do corpo de uma maneira segura,
confiável, econômica e fisiologicamente aceitável. Uma variedade de dispositivos e materiais é utilizada no
tratamento de doenças ou danos. Exemplos comuns incluem suturas, agulhas, catéteres, placas e obturações de
dentes. Um biomaterial é um material sintético que substitui parte de um sistema vivente ou que funciona em contato
íntimo com tecido vivente. O conselho da Universidade de Clemsom definiu formalmente um biomaterial como
sendo "uma substância sistêmica e farmacológicamente inerte projetada para implantação dentro ou para
incorporação com sistemas vivos". Outra definição classifica um biomaterial como "um material não-viável utilizado
em dispositivos médicos para interagir com sistemas biológicos". Outra definição é: " materiais de origem sintética
como também de origem natural em contato com tecido, sangue, e fluidos biológicos para uso protético, diagnóstico,
terapêutico e armazenamento sem afetar adversamente o organismo vivo e seus componentes. Ainda, outra definição
de biomateriais é "qualquer substância (diferente de drogas) ou combinação de substâncias sintéticas ou naturais na

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origem que pode ser utilizada durante qualquer período de tempo como um todo ou como parte de um sistema que
trata, argumenta ou substitui qualquer tecido, órgão ou função do corpo". Ao contrário, um material biológico, tal
como a pele ou uma artéria, é produzido por um sistema biológico. Materiais artificiais que simplesmente estão em
contato com a pele, como auxiliares de audição e membros artificiais utilizáveis, não estão incluídos na nossa
definição de biomateriais, visto que a pele atua como uma barreira ao mundo exterior.
De acordo com estas definições tem-se que ter um campo vasto de conhecimento ou colaborar com
diferentes especialidades para desenvolver e utilizar biomateriais em medicina e odontologia. O uso dos biomateriais
inclui a substituição de uma parte do corpo que perdeu a sua função devido a uma doença ou trauma, auxiliar na
recuperação, melhoria de alguma função e correção de anormalidades. O papel dos biomateriais foi influenciado
consideravelmente por avanços em muitas áreas da biotecnologia e da ciência. Por exemplo, com o advento dos
antibióticos, as doenças infecciosas são menos ameaçadoras, daí as doenças degenerativas assumem uma maior
importância. Além disso, avanços nas técnicas e instrumentos cirúrgicos permitiram o uso de materiais de maneiras
que não eram possíveis anteriormente.
Próteses e Órgãos Artificiais
Durante os últimos 50 anos, a humanidade descobriu progressivamente que um dispositivo ou o transplante
de órgãos, tecidos ou células podem substituir a maioria, e talvez todos os órgãos e funções do organismo. Os
dispositivos são feitos por humanos, considerando que as partes para substituição podem ser obtidas do mesmo
paciente, um parente, um cadáver humano, um animal vivo, ou podem ser desenvolvidos pela engenharia genética. O
conceito de que um estado de doença pode ser sanado devolvendo o órgão que está funcionando mal através do uso
de agentes químico ou meios físicos mas também pela substituição da função perdida com uma outra natural ou
artificial representou uma revolução na terapêutica. Hoje em dia, somente, nos Estados Unidos, 2 a 3 milhões de
pacientes por ano são tratados com uma parte sobressalente projetada por humanos (dispositivo de ajuda, prótese ou
implante), tendo como resultado que mais de 20 milhões de pessoas desfrutam de melhor qualidade de vida graças
aos órgãos artificiais. Em comparação, uma escassez de doadores de órgãos limita o número de procedimentos de
transplante para aproximadamente 20.000 por ano, e a população total de sobreviventes de transplante está na ordem
de 200.000.
A doutrina fundamental da medicina substitutiva é que depois de um certo estágio de fracasso, é mais
efetivo remover e substituir um órgão que não está funcionando bem, do que tentar curá-lo em vão. Isto vai contra a
opinião de visões holísticas que buscam a integridade do indivíduo. A medicina substitutiva também entra em
conflito com a corrente principal deste século, onde a ciência médica se esforça para elucidar mecanismos de
patologias fisiológicas a nível celular e molecular e então para corrigi-las por uma chave bioquímica específica. A
tecnologia de substituição de órgãos rivaliza com as viagens espaciais em complexidade e publicidade, cativando a
imaginação popular por sua ousadia, seus triunfos e seus excessos. Embora a abordagem dos órgãos artificiais não
alcance o objetivo fundamental da medicina, que é entender e corrigir o processo da doença, é consideravelmente
mais efetivo que a terapia por medicamentos ou a cirurgia corretiva no tratamento de muitas condições, por exemplo,
doença de válvula cardíaca, bloqueio do coração, arritmias patológicas, obstrução arterial e catarata.
Em princípio, as inaptidões funcionais devido à destruição ou desgaste de partes do corpo podem ser
tratadas de dois modos: implantação de dispositivos protéticos ou transplante de órgãos naturais. Para o transplante
de órgãos naturais, nós obtemos emprestado uma parte sobressalente tipicamente de um ser vivo ou de um
igualmente generoso doador que antes de morrer ofereceu ajuda aos sofredores de falhas terminais de órgãos. Os
órgãos transplantados se beneficiam de refinamentos adquiridos em cima de milhares de anos de evolução. Eles estão
super-projetados, o que significa que eles proverão apoio funcional suficiente embora a parte doada não esteja em
perfeitas condições na hora da transferência a outra pessoa. Eles têm a mesma forma e as mesmas necessidades de
nutrição que a parte do organismo que eles substituem, o que significa que as técnicas cirúrgicas utilizadas são
bastante importantes. O problema crítico é o pequeno número de doadores, e por conseguinte somente uma pequena
minoria de pacientes se beneficia atualmente desta prática.
Os órgãos artificiais têm limitações diferentes. Vistos na escala de evolução humana, eles ainda são
dispositivos primitivos, testados no máximo durante 40 anos. Mesmo assim, eles já transformaram os prognósticos
de muitos casos de doenças fatais, fazendo-as regredir ao seu estágio inicial. Para projetar órgãos artificiais,
engenheiros inventivos, fisiologistas e cirurgiões pensam em termos de resultados funcionais, não em estruturas
anatômicas. Como resultado, os órgãos artificiais têm pouca semelhança com os órgãos naturais. Eles são feitos
principalmente de materiais sintéticos (freqüentemente chamados de biomateriais) que não existem na natureza. Eles
utilizam diferentes processos mecânicos, elétricos ou químicos, para alcançar os mesmos objetivos funcionais dos
órgãos naturais. Eles se adaptam, ainda que imperfeitamente, às demandas variáveis das atividades humanas. Eles
não podem acomodar-se facilmente ao crescimento do corpo e por isso são mais benéficos em adultos do que em
crianças. De um ponto de vista mais crítico, os órgãos artificiais, como é o caso de todas as máquinas, têm uma
expectativa de funcionamento limitada por causa da fricção, utilização ou desgaste dos materiais de construção no
ambiente morno, úmido, e corrosivo do corpo humano. Tais considerações limitam o seu uso a pacientes cuja

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expectativa de vida acompanha a expectativa de vida esperada da peça a ser substituída, ou para situações clínicas
onde implantes repetidos são tecnicamente possíveis. Apesar destes obstáculos, a realidade surpreendente é que
milhões das pessoas estão atualmente vivas graças aos marcapassos cardíacos, válvulas cardíacas, rins artificiais ou
sistemas de drenagem de hidrocefalia, todos eles funcionando em condições ameaçadoras à vida dos pacientes. Um
número até maior de pessoas desfruta os benefícios da prótese de quadril e joelho, enxertos vasculares, lentes intraoculares e implantes dentais que corrigem disfunções, dor, incômodos ou simplesmente a aparência. Em resumo, a
demonstração clínica do dogma central da medicina substitutiva sobre duas gerações pode ser visto
demograficamente como o primeiro passo em um salto evolutivo que os humanos ainda não podem apreciar
completamente.
Os órgãos artificiais híbridos, ou órgãos bioartificiais, são sistemas mais recentes que incluem elementos
vivos (organelas, células, tecidos) como parte de um dispositivo feito de materiais sintéticos. Eles integram a
tecnologia de transplante de órgãos naturais e os refinamentos que as estruturas viventes têm ganho durante milhões
de anos de evolução com a aproximação do projeto proposital das ciências da engenharia e as promessas de materiais
sintéticos recentemente desenvolvidos.
Dependendo das necessidades médicas e duração antecipada de uso, os órgãos artificiais podem ser
localizados fora do corpo ainda preso a ele (próteses paracorporais ou dispositivos de ajuda), ou implantados dentro
do corpo em um local apropriado (órgãos artificiais internos ou implantes). A aplicação de órgãos artificiais pode ser
temporária (por exemplo, a máquina coração-pulmão), ou substituição permanente de um órgão (por exemplo,
dispositivo de auxílio ao ventrículo esquerdo). Ela pode ser intermitente e repetida em intervalos durante períodos
extensos de tempo quando não há nenhuma necessidade biológica de substituição contínua de funções perdidos do
corpo (por exemplo, rim artificial). Pode-se pretender que seja permanente, pelo menos dentro dos limites de um
período finito de vida.
Até 1950, a tecnologia de substituição de órgãos estava relativamente crua e sem imaginação. Pernas de
madeira, óculos corretivos e próteses dentais formaram o escopo dos órgãos artificiais. A transfusão de sangue era a
única forma aceita de transplante de tecidos vivos. De repente, dentro de uma década, o rim artificial, a máquina
coração-pulmão, o marca-passo cardíaco, o enxerto arterial, a válvula cardíaca protética, a articulação de quadril
artificial, foram os primeiros exemplos sofisticados de engenharia na medicina. Mais recentemente, o pulmão de
membrana, as lentes implantáveis, próteses de dedos e tendões, substituição total do joelho, implantes para
reconstrução mamária, máxilo-facial ou de ouvido têm seguido o estágio de ampla aplicação clínica. Os Dispositivos
de auxílio ventricular e o coração artificial total têm sido testados extensivamente em animais e validados para
avaliação clínica. A pele artificial é cada vez mais utilizada no tratamento de úlceras e queimaduras. Substitutos de
tecidos moles e duros funcionam efetivamente por vários anos. Próteses sexuais e sensoriais oferecem promessas
para a substituição de funções humanas complexas. A conexão de dispositivos com os sistemas nervosos periféricos
e centrais são tão promissores como eram os dispositivos cardiovasculares há 30 anos atrás. Talvez o futuro mais
promissor pertença às "próteses de informação" que trazem para o corpo humano sinais que o organismo pode gerar
por ele mesmo (por exemplo, funções do marca-passo), sinais que precisam ser modulados diferencialmente para
corrigir um estado de doença (por exemplo, reguladores eletrônicos de pressão sangüínea) ou sinais que não pode ser
percebidos pelo sistema nervoso por seus canais habituais de coleta de informações (por exemplo, olho ou ouvido
artificiais).
Biomecânica
MECÂNICA É A PARTE DA ENGENHARIA que lida com o estudo, definição e quantificação matemática
das "interações" que acontecem entre as "coisas" em nosso universo. Nossa habilidade para perceber a manifestação
física de tais interações está embutida no conceito de uma força, e as "coisas" que transmitem forças entre elas são
classificadas para propósitos de análise como sendo sólidas, fluidas ou um pouco de combinação das duas. A
distinção entre comportamento de sólido e comportamento de fluido tem a ver com o fato de se a "coisa" envolvida
tem ou não características de resposta de deformação que são dependentes de uma taxa de tempo. Uma força
constante transmitida a um material sólido geralmente extrairá uma resposta discreta, finita e de deformação
independente do tempo, considerando que a mesma força transmitida a um fluido extrairá uma resposta contínua,
dependente do tempo chamada de fluxo. Em geral, se um determinado material vai se comportar, ou não, como um
sólido ou um fluido vai depender de seu estado termodinâmico (por exemplo, sua temperatura, pressão, etc.). Além
disso, para um determinado estado termodinâmico, algumas "coisas" são sólidas quando deformadas a certas taxas
mas mostram um comportamento fluido quando perturbadas a outras taxas, assim elas são chamadas
apropriadamente de viscoelásticas, que literalmente significam "fluidos sólidos". Uma definição mais técnica de
mecânica é a ciência que lida com a ação de forças em sólidos, fluidos e materiais viscoelásticos.
Já no quarto século A.C., encontra-se nos trabalhos de Aristóteles (384-322 A.C.) tentativas de descrever
por análise geométrica a ação mecânica de músculos na produção da locomoção de partes, ou de todo o corpo
animal. Quase dois mil anos depois, nos seus famosos desenhos anatômicos, Leonardo da Vinci (1452-1519) buscou
descrever a mecânica das posições em pé, subindo e descendo uma montanha, levantamento de uma posição de

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sentado, e saltando, e Galileo (1564-1643) cem anos depois, seguiu com algumas das primeiras tentativas de analisar
matematicamente funções fisiológicas. Por causa dos esforços pioneiros na definição da circulação anatômica do
sangue, William Harvey (1578-1657) é creditado por muitos como sendo o pai da mecânica moderna de biofluidos, e
Alfonso Borelli (1608-1679) compartilha a mesma honra para a mecânica contemporânea de biosólidos por causa
dos seus esforços para explorar a quantidade de força produzida por vários músculos e da sua teorização de que os
ossos servem como alavancas que são operadas e são controladas pelos músculos. Os trabalhos destes pioneiros da
biomecânica foram seguidos por Isaac Newton (1642-1727), Daniel Bernoulli (1700-1782), Jean L. M. Poiseuille
(1799-1869), Thomas Young (1773-1829), Euler (cujo trabalho foi publicado em 1862), e outros igualmente
famosos.
Revisando a lista precedente de cientistas de biomecânica, é interessante observar que muitas das primeiras
contribuições para nosso último entendimento das leis fundamentais da física e engenharia (por exemplo, a equação
de Bernoulli de hidrodinâmica, o famoso "Módulo de Young" para teoria da elasticidade, fluxo de Poiseuille, e assim
por diante) vieram de médicos, fisiologistas e outros práticos da saúde que buscavam estudar e explicar estruturas e
funções fisiológicas. A ironia nisto é que à medida que a história progrediu, nós praticamente invertemos esta
situação. Quer dizer, mais recentemente, são os engenheiros biomédicos que têm feito as maiores contribuições para
o avanço das ciências médicas e fisiológicas.
Biotecnologia
O TERMO BIOTECNOLOGIA SOFREU mudanças significativas nos últimos 50 anos aproximadamente.
Durante o período anterior à década de oitenta, a biotecnologia se referia principalmente ao uso de microorganismos
para processos industriais de larga escala como produção de antibióticos. A partir dos anos oitenta, com o advento
das tecnologias de recombinação do DNA, do anticorpo monoclonal, e novas tecnologias para estudo e manipulação
de células e tecidos, o campo da biotecnologia sofreu um tremendo ressurgimento em um espectro largo de
aplicações pertinentes à indústria, medicina e ciência em geral.
Biotecnologia é normalmente definida como uma atividade de pesquisa básica orientada intimamente
relacionada à modificação de células de animais ou de plantas, ou partes de células, para melhorar plantas ou animais
ou desenvolver, microorganismos novos para fins benéficos. Na indústria de comida, por exemplo, isto significou a
melhoria de variedades de fungos para fermentação. Na agricultura, pode-se atribuir aos biotecnólogos a melhoria de
rendimentos de colheita por tratamento de plantas com organismos para reduzir os danos devidos ao congelamento.
Está claro que a biotecnologia do futuro terá um tremendo impacto na qualidade de vida do ser humano, o potencial
desta especialidade é difícil de imaginar:
-Desenvolvimento de espécies melhoradas de plantas e animais para produção de alimentos
-Invenção de novos testes de diagnóstico médico para doenças
-Produção de vacinas sintéticas de células clonadas
-Engenharia Bioambiental para proteger a vida humana, animal, e vegetal de substâncias tóxicas e poluentes
-Estudo de interações nas superfície das proteínas
-Modelamento da cinética de crescimento de fungos e células de hibridoma
-Pesquisa em tecnologia de enzimas imobilizadas
-Desenvolvimento de proteínas terapêuticas e anticorpos monoclonais

1.6.4. Instrumentação Biomédica (Instrumentos e Dispositivos médicos)
Até há pouco tempo atrás, o termo instrumento médico representava instrumentos manuais simples
utilizados por médicos para observar pacientes, examinar órgãos, fazer medidas simples, ou ministrar medicamentos.
Estes pequenos instrumentos, tais como estetoscópios, termômetros, depressores de língua e algumas ferramentas
cirúrgicas cabiam tipicamente na bolsa de mão de um médico. Hoje, os instrumentos médicos são consideravelmente
mais complicados e diversos, principalmente porque eles incorporam sistemas eletrônicos de detecção, transdução,
manipulação, armazenamento e exibição de dados ou informação. Além disso, os especialistas médicos de hoje
requerem medições detalhadas e precisas de um vasto número de parâmetros fisiológicos para diagnosticar doenças e
prescrever complicados procedimentos para tratá-las. Como resultado, o número de instrumentos e dispositivos
médicos cresceu de algumas centenas na geração anterior para mais de 10.000 hoje, e a complexidade destes
instrumentos cresceu no mesmo passo.
Enquanto que os instrumentos médicos adquirem e processam informação e dados para monitoração de
pacientes e diagnóstico de enfermidades, os dispositivos médicos utilizam energia elétrica, mecânica, química ou
radiação para alcançar um propósito terapêutico desejado, mantendo funções fisiológicas ou ajudando um paciente
em processo de cura. Para mencionar somente alguns funções, os dispositivos médicos bombeiam sangue, removem
produtos de resíduos metabólicos, pulverizam pedras dos rins, infundem líquidos e drogas, estimulam músculos e
nervos, cortam tecidos, administram anestesia, aliviam dores, restabelecem funções ou aquecem tecidos. Por causa

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da sua complexidade, os dispositivos médicos são utilizados, na maioria das vezes, em hospitais e centros médicos
por pessoal treinado, mas alguns também podem ser encontrados nas residências, onde são operadas pelos próprios
pacientes ou pelas pessoas que tomam conta deles.
No Brasil, são oferecidos cursos de pós-graduação (Mestrado e Doutorado) em instrumentação biomédica
em algumas instituições:
-UFPB (Campina Grande ­ PB);
-UFSC (Florianópolis ­ SC);
-DEB/FEEC/UNICAMP (Campinas ­ SP);
-COPPE/UFRJ (Rio de Janeiro ­ RJ);
-CEFET (Curitiba ­ PR).

2.Física Médica:
Depois da descoberta da radioatividade natural, através do estudo de sais de urânio, por Henry Beckerel
(1857-1908) em 1896, e do elemento natural Rádio em 1898 pelo casal Pierre e Marie Curie, o nosso mundo nunca
mais foi o mesmo. Os raios-x, as bombas atômicas e as usinas nucleares nos mostraram que um novo tipo de energia
estava sendo descoberta e precisava ser entendida e controlada pelo homem para evitar efeitos potencialmente
nocivos aos seres vivos, mas que poderia ser benéfica se utilizada corretamente. A partir daí se desenvolveu o uso da
radioatividade na medicina, assim como em outras áreas do conhecimento humano. Com isto, cresceu a importância
do papel dos físicos na área da saúde.
O envolvimento de físicos na saúde pode ser visto nas seguintes áreas:

2.1.Radioproteção
Como os pioneiros da utilização médica e industrial dos raios-x não sabiam dos perigos da radiação,
ocorreram muitos casos de queimaduras devido ao uso de Rádio, sendo que às vezes havia o aparecimento de casos
de câncer nestes profissionais. Começaram então a aparecer estudos sobre os efeitos dos elementos radioativos nos
profissionais (médicos, radiologistas, radioterapistas, físicos) que manipulavam estes elementos. Em um estudo
Britânico de 1958, foram analisados 1377 radiologistas do sexo masculino no período de 1897 a 1957. Observou-se
que até 1921, o número de mortes por câncer nos profissionais que trabalhavam com radiologia (55 óbitos) era um
pouco maior do que o número de mortes por câncer esperadas em uma população da mesma faixa etária (47,7
óbitos). De 1921 em diante (quando começaram a ser adotadas medidas de proteção radiológica), o número de
mortes por câncer dos profissionais de radiologia caiu pela metade. Assim, foi aparecendo a necessidade de capacitar
profissionais para controlar os níveis de radiação recebidos pelos profissionais de radiologia. Disto surgiu a
radioproteção.
Os profissionais encarregados de radioproteção, geralmente são físicos com especialização ou mestrado
nesta área. No Brasil, ainda não existe um curso específico de formação destes profissionais. Por isso, eles são
obrigados a fazer cursos de pós-graduação (Mestrado e/ou Doutorado) na área para serem reconhecidos pela
Associação Brasileira de Física Médica (ABFM), que ainda não formulou um exame de ordem devido à
complexidade do assunto.
As principais instituições que fornecem cursos de pós-graduação na área são:
-Instituto de Radioproteção e Dosimetria (IRD ­ RJ)
-Instituto de Pesquisas Energéticas (IPEN ­ SP)
Algumas atividades do profissional de radioproteção são:
-Controlar a quantidade de radiação mensal, semestral e anual dos profissionais de radiologia, através da
monitoração dos níveis de radiação medidos nos dosímetros (dispositivos semelhantes a crachás utilizados em
diversas partes do corpo pelos profissionais de radiologia);
-Estudar e desenvolver medidas de proteção aos outros profissionais de radiologia através da assessoria no projeto
das instalações físicas que vão abrigar os pacientes, os operadores e as máquinas de radiação;
-Planejar o tratamento dado aos resíduos de materiais radioativos utilizados nos departamentos de radiologia.
2.2.Radiodiagnóstico
Também conhecido simplesmente como radiologia (não confundir com o termo geral aplicado a todas as
áreas), esta área visa a operacionalização dos procedimentos utilizados para fazer o diagnóstico de pacientes que
envolvam raios-x.

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Basicamente, o profissional desta área é responsável pelo controle de qualidade do serviço de radiologia
para diagnóstico. Para isso, realiza as seguintes funções:
-Cuidar das condições de compra e armazenamento (umidade, condicionamento) dos filmes radiográficos a serem
utilizados nas máquinas de raios-x;
-Verificação das condições de operação dos aparelhos de raios-x (alinhamento do ponto focal dos feixes dos
colimadores, tempo de exposição do paciente, tensão de alimentação do tubo) através da utilização de dispositivos
de aferição;
-Verificação das qualidade de revelação dos filmes de raios-x, através do monitoramento das condições de operação
(temperatura do revelador, taxas de reposição do revelador e fixador, densidades relativas e taxa de reposição dos
banhos químicos) das processadoras de filmes radiográficos;
-Oferecer treinamento aos operadores dos equipamentos de raios-x e das suas respectivas processadoras de filmes
radiográficos.
No Brasil, existem alguns cursos de especialização de 2 anos para formar físicos em radiodiagnóstico,
dentre eles temos:
-FMRP/USP (Ribeirão Preto ­ SP);
-AFM/CEB/UNICAMP (Campinas ­ SP).
Depois da especialização, o físico deve fazer um exame de ordem ministrado pela ABFM (Associação
Brasileira de Física Médica) para poder exercer a profissão. Antes de fazer o exame de ordem, ele deve comprovar
pelo menos 2 anos de trabalho na área como estagiário de algum profissional já credenciado anteriormente.
2.3.Radioterapia
A partir do desenvolvimento das unidades de radioterapia, a terapia por aplicação de feixes externos de
radiação se tornou a principal modalidade de tratamento ao câncer junto com a quimioterapia e a cirurgia. A radiação
é utilizada para tratar pelo menos 50% de todos os casos de câncer, e muitos pacientes recebem uma combinação das
três modalidades. A radioterapia pode ser curativa ou paliativa, dependendo do estágio e do prognóstico do câncer.
Para que o tratamento tenha sucesso, o campo de radiação deve ter uma intensidade uniforme, um nível previsível de
energia e deve ser bem-definido para evitar ou minimizar a irradiação de tecidos sãos. Nesta área são utilizados os
serviços dos físicos de radioterapia que:
-Monitoram constantemente os aparelhos de radioterapia, desde a sua instalação, através da coleta de dados (energia
e dose de radiação) que descrevem os feixes de radiação de cada aparelho, obtendo as curvas de isodoses destes
aparelhos;
-Modelam o feixe a ser irradiado, através do uso de filtros e de compensadores de tecidos, para conseguir concentrar
a radiação nos tumores cancerosos, poupando os tecidos sãos;
-Elaboram o planejamento do tratamento de radioterapia (número de doses, energia e tipo de radiação que vai ser
irradiada) do paciente através da obtenção junto ao médico oncologista da dose total de radiação e da anatomia do
lugar a ser irradiado.
No Brasil, existem alguns cursos de especialização de 2 anos para formar físicos em radioterapia, dentre eles
temos:
-FMRP/USP (Ribeirão Preto ­ SP);
-AFM/CEB/UNICAMP (Campinas ­ SP);
-Hospital A C Camargo (RJ);
-Hospital do Câncer (SP);
-Instituto Nacional do Câncer ­ INCA (RJ).
Depois da especialização, o físico deve fazer um exame de ordem ministrado pela ABFM (Associação
Brasileira de Física Médica) para poder exercer a profissão. Antes de fazer o exame de ordem, ele deve comprovar
pelo menos 2 anos de trabalho na área como estagiário de algum profissional já credenciado anteriormente. Também
existem cursos de Mestrado na área em algumas instituições:
-FMRP/USP (Ribeirão Preto ­ SP);
-AFM/CEB/UNICAMP (Campinas ­ SP);
-Instituto de Pesquisas Energéticas - IPEN (SP).
2.4. Medicina Nuclear
A medicina nuclear pode ser definida como a prática de tornar os pacientes radioativos para propósitos de
diagnóstico e de terapia. A radiação é injetada por via intravenosa, aspirada ou ingerida, sendo este princípio que
distingue a medicina nuclear do radiodiagnóstico e da radioterapia. A medicina nuclear possui duas características
que a tornam atraente:

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-Utilização de pequenas quantidades (concentrações da ordem de picomolares) de materiais radioativos que não
afetam os processos biológicos a serem estudados;
-Os marcadores radioativos utilizados penetram os tecidos e podem ser detectados fora do paciente.
Assim, a medicina nuclear permite uma visão dos processos fisiológicos do paciente, ao contrário dos aparelhos de
raios-x que nos fornecem uma visão da anatomia do paciente.
Os físicos médicos que trabalham com medicina nuclear estão intimamente ligados com a área de imagens
médicas e desenvolvem trabalhos como:
-Testes com marcadores radioativos para procurar os que oferecem os melhores resultados com menor radiação para
o paciente e para eles mesmos;
-Diminuir a periculosidade desta profissão, pois esta área é a que apresenta mais exposição do físico e dos
operadores dos equipamentos (gama câmeras) a radiação;
-Procurar formas de processamento e tratamento das imagens obtidas dos processos fisiológicos nos pacientes de
maneira que as imagens finais sejam o reflexo da situação real do paciente, sem o risco de alteração da realidade
devido à presença de aparatos (interferências introduzidas pelos instrumentos ou pelo ambiente do exame).
No Brasil, existem alguns cursos de especialização de 2 anos para formar físicos em medicina nuclear,
dentre eles temos a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP ­ SP), onde também se encontram cursos
a nível de Mestrado.
Depois da especialização, o físico deve fazer um exame de ordem ministrado pela ABFM (Associação
Brasileira de Física Médica) para poder exercer a profissão. Antes de fazer o exame de ordem, ele deve comprovar
pelo menos 2 anos de trabalho na área como estagiário de algum profissional já credenciado anteriormente.

3.Informática Médica:
NOS ÚLTIMOS 20 ANOS, o campo de informática médica tem crescido tremendamente tanto em
complexidade como em conteúdo. Assim, pode-se dividir a informática médica em dois grupos. O primeiro é
representado pelas áreas que formam o foco central das tecnologias computacionais. Isto inclui: sistemas de
informação do hospital (HIS), registros de pacientes baseados em computador (CBPR ou CPR), imagens,
comunicações, padrões e outras áreas relacionadas. O segundo grupo inclui tópicos como: inteligência artificial,
sistemas especialistas, sistemas baseados em conhecimento, redes neurais e robótica. A maioria das técnicas deste
grupo requererá a implementação de sistemas do primeiro grupo. Nós poderíamos chamar as áreas do primeiro grupo
como a infra-estrutura de informação exigida para aplicar as técnicas de informática médica para dados médicos.
Estes tópicos são cruciais porque eles não só estabelecem a fundação exigida para tratar um paciente dentro das
paredes de uma instituição mas eles fornecem o panorama exigido para lidar com o registro de vida do paciente
enquanto há permissão de grupos selecionados de pesquisadores e clínicos para analisar a informação e gerar
resultados de pesquisa e informação de diretrizes de prática.
Como um exemplo uma rede de hospitais associados no Nordeste (uma rede de provedores de saúde) pode
querer utilizar um sistema especialista que foi criado e mantido em uma universidade do Sul do país. Este grupo de
hospitais, clínicas, consultórios médicos e similares, vão necessitar de um registro computadorizado "padrão" de
pacientes (CPR) que poderá ser usado pelos médicos de qualquer um dos locais físicos. Além disso, para ter acesso a
essas informações estas instituições vão precisar de redes e telecomunicações que permitirão o "diálogo" eletrônico.
Os diferentes formatos dos dados, particularmente as imagens médicas, requererão dispositivos especiais para
propósitos de exibição, e a informação armazenada nos diferentes HIS, Sistemas de Informação Clínica (CIS), e
sistemas departamentais necessitarão ser integrados. Este tipo de registro multimídia se tornaria a entrada de dados
para o sistema que poderia ser acessado remotamente (ou localmente) de qualquer uma das localizações do
empreendimento. No lado de aplicação, o sistema especialista poderia proporcionar para estas instituições técnicas
que poderiam ajudar em áreas como diagnóstico e tratamento de pacientes. Porém, várias novas tendências como:
Gerenciamento da Qualidade Total (TQM), resultados de pesquisas e diretrizes de prática poderiam ser seguidas.
Deveria ser óbvio ao leitor que para ter a habilidade para comparar a informação obtida em diferentes partes o mundo
através de sistemas dissimilares e heterogêneos, certos padrões precisariam ser seguidos (ou criados) de forma que
quando os dados forem analisados, a informação obtida faça sentido.
Várias perspectivas atuais em tecnologias de informação precisam de ser levadas em consideração ao ler
esta seção. Uma delas é descrita com muita precisão no livro intitulado "Globalization, Technology and Competition
(The Fusion of Computers and Telecommunications in the 1990s)" por Bradley, Hausman e Nolan (1993). O
primeiro capítulo deste livro fala sobre novos serviços exigidos por usuários finais que incluem a integração de
computadores e telecomunicações. Do ponto de vista da sua teoria de estágios, os autores descrevem que nós
estamos nos aproximando atualmente do fim era do micro e no começo da era da rede. De um ponto de vista
econômico, a economia industrial (anos sessenta e setenta) e a economia de transição (anos setenta e oitenta) estão se
transformando em uma economia de informação (anos noventa em diante). Também uma pesquisa de liderança feita
em 1994 pelo Healthcare Information and Management Systems Society (HIMSS) sobre as tendências da

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computação na saúde para principalmente pessoal de informação, diretores, e as pessoas associadas aos provedores
de saúde mostrou os seguintes resultados:
1.Em um mercado norteado pela retenção de custos, as forças mais importantes que se dirigem para uma participação
maior da computação eram: (a)direcionamento para o gerenciamento da saúde (25%), (b)requisições de dados de
resultados e (c)direcionamento para redes de saúde (17%).
2.A prioridade dos sistemas de informação mais importantes para os próximos 2 anos: (a)integração de instalações
separadas (31%), (b)implementação de um registro paciente baseado em computador (CPR) (19%) e (c)Integração de
sistemas departamentais (13%) e reengenharia voltado para a saúde do paciente (13%).
3. 56% acharam que a super via-expressa de informação era essencial para a saúde.
4.Nos próximos 3 anos o desenvolvimento computacional relacionado com a saúde que afetará o consumidor médio
será: (a)desafios de saúde mais dinâmicos (49%), (b) acesso a serviços/informação de saúde de casa (20%) e (c)
cartões de referência de saúde (17%).
5.Embora 49% afirmaram usar a Internet, as suas instalações de saúde estavam utilizando-a para: (a)e-mail de pontopara-ponto (81%), (b)consultas a bancos de dados clínicos para pesquisa (69%), (c)transações entre consumidores e
provedores (31%) e (d)consultas médicas bi-direcionais (22%).
6.Os médicos compartilharão informações computadorizadas sobre os pacientes em um sistema de âmbito nacional:
(a)pelo ano 2000 (39%), (b) em um período maior que dez anos (38%) e (c)dentro de 1 a 3 anos (14%). Muitas outras
perguntas e respostas refletiram algumas barreiras tecnológicas atuais e necessidades dos usuários. Por causa destas
tendências é essencial pensar no caso das tecnologias que hoje podem ser consideradas o estado-da-arte mas que
daqui a aproximadamente 10 anos parecerão ser somente de transição. As tecnologias de informação estão se
transformando em um ambiente multimídia que irá requerer técnicas especiais para aquisição, exibição,
armazenando, recuperação e comunicação da informação. Nós estamos em um processo de definição de alguns
destes mecanismos.
Na informática médica pode-se abordar assuntos relacionados a imagens como uma forma de informação
médica. Estes conceitos incluem assuntos relacionados a aquisição, armazenamento/recuperação, exibição e
comunicações de imagens e documentos clínicos, por exemplo, sistemas de comunicações e arquivo de imagens
(PACS). De um ponto de vista do CPR, imagens e documentos clínicos se tornarão parte deste quadro eletrônico.
O estado das telecomunicações foi descrito como uma revolução; dados e comunicações como também
vídeos cheios de movimento vieram juntos como um novo campo dinâmico. Muito do que está acontecendo hoje é
um resultado da evolução e necessidade da tecnologia. A ligação entre as necessidades evolutivas e as idéias
revolucionárias são uma perspectiva integrada de ambos os lados de múltiplas indústrias.
Imagens Médicas
O CAMPO DE IMAGENS MÉDICAS experimentou um crescimento fenomenal neste último século.
Considerando que o estudo de imagens era a prerrogativa das comunidades de defesa e das ciências espaciais no
passado, com o advento de computadores poderosos e menos caros, novos e expandidos sistemas de imagens
encontraram seu caminho dentro do campo médico. Alguns destes sistemas variam desde aqueles dedicados a
imagens planares utilizando raios-x para tecnologias emergentes, tais como realidade virtual. Alguns destes sistemas,
como o ultra-som, são relativamente baratos, enquanto outros, como as instalações de tomografia de emissão de
pósitrons (PET), custam milhões de dólares por causa do hardware e do emprego de pessoal com nível de Ph.D. para
operá-los. Foram projetados sistemas que fazem uso de radiografias para mostrar as imagens de estruturas
anatômicas, enquanto outros que fazem uso de radioisótopos provêem informação funcional. Os campos de visão que
podem ser mostrados em imagens que variam do corpo inteiro obtido com varredura de ossos na medicina nuclear, a
imagens de componentes celulares utilizando microscopia por ressonância magnética. O projeto de transdutores para
os dispositivos de imagens para fazer o pós-processamento de dados que permitam uma interpretação mais fácil das
imagens pelo pessoal médico são todos os aspectos do campo de dispositivos de imagens médicas.
Mesmo com os sistemas sofisticados disponíveis atualmente, os desafios continuam no campo de imagens
médicas. Com a ênfase crescente em custos de serviços de saúde, e com os sistemas de imagens médicas citados
como um exemplo do investimento que os provedores de serviços de saúde têm que fazer e, por conseguinte,
recuperar isto que está envolvido nos custos crescentes, há um aumento na ênfase em diminuição de custos de
sistemas novos. Por exemplo, investigadores estão tentando encontrar alternativas para os magnetos supercondutores
de alto custo usados em sistemas de ressonância magnética. Com o custo decrescente dos poderosos computadores
que atualmente estão contidos dentro da maioria dos sistemas de imagens e com a intensa competição entre
companhias de sistemas de imagens, os preços destes sistemas tendem a cair. Outro desafio representa a apresentação
dos dados de imagens. Freqüentemente, as múltiplas modalidades são utilizadas durante uma avaliação clínica. Se
ambas as informações anatômicas e funcionais são requeridas, métodos para combinar e apresentar estes dados para
serem interpretados pelos médicos precisam ser alcançados. O uso de dados de imagens médicas para executar
cirurgias mais efetivamente é um campo que só está começando a ser explorado. Como os dados anatômicos obtidos
com uma varredura tomográfica podem ser correlacionados com o campo cirúrgico, dado que determinados
movimentos de tecidos e órgãos acontecem durante a cirurgia? A realidade virtual provavelmente vai desempenhar

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um papel importante nesta integração de informação de imagens com a cirurgia. Também há modalidades de
imagens que somente agora estão começando a ser intensivamente exploradas, como a detecção de dados da
impedância e do campo magnético ou o uso de fontes ópticas e detetores.
Os engenheiros e físicos estão envolvidos ao longo do campo de imagens médicas. Eles são empregados por
companhias grandes e pequenas. Embora os nomes dos gigantes de imagens médicas, como General Electric,
Siemens, Picker e Acuson, são familiares à maioria, as companhias que prevalescem em número são as de pequeno
porte. Além das companhias de imagens médicas, engenheiros e cientistas Ph.D. são empregados por departamentos
de engenharia, física e química em universidades, e cada vez mais por departamentos de radiologia de centros
médicos orientados para a pesquisa. Considerando que há alguns anos atrás, pesquisadores que trabalham no campo
de imagens médicas submetiam documentos a diários científicos gerais, como o IEEE Transactions on Biomedical
Engineering (Tópicos em Engenharia Biomédica do Instituto de Engenheiros Eletro-Eletrônicos), agora existe uma
publicação, IEEE Transactions on Medical Imaging (Tópicos em Imagens Médicas do Instituto de Engenheiros
Eletro-Eletrônicos), dedicada ao campo de imagens médicas e publicações dedicadas a certas modalidades, como
Magnetic Ressonance in Medicine (Ressonância Magnética na Medicina) e o Journal of Computer Assisted
Tomography (Jornal da Tomografia Computadorizada). Nos Estados Unidos, grandes encontros científicos de
imagens médicas, como o Encontro Anual da Sociedade de Radiologia da América do Norte com mais de 20.000
participantes são realizados todos os anos. Reuniões de modalidades específicas, como a Magnetic Ressonance
Imaging Society (Sociedade de Imagens em Ressonância Magnética) possuem milhares de participantes.

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ANEXO I - Glossário
Arte: capacidade que tem o homem de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria.
Biologia: estudo dos seres vivos e das leis da vida.
Ciência: conjunto organizado de conhecimentos relativos a um determinado objeto, especialmente as obtidas
mediante a observação, a experiência dos fatos e um método próprio.
Diagnóstico: avaliação da situação clínica de um paciente.
Dispositivo: mecanismo disposto para obter certo fim.
Empirismo: doutrina ou atitude que admite, quanto à origem do conhecimento, que este provenha unicamente da
experiência.
Enfermagem: a arte ou função de cuidar dos enfermos.
Engenharia: arte de aplicar conhecimentos científicos e empíricos e certas habilitações específicas à criação de
estruturas, dispositivos e processos que se utilizam para converter recursos naturais em formas adequadas ao
entendimento das necessidades humanas.
Engenho: faculdade inventiva/talento; qualquer máquina ou aparelho.
Física: ciência de conteúdo vasto e fronteiras não muito definidas, que investiga as propriedades dos campos, as
interações entre os campos de força e os meios materiais, as propriedades e a estrutura dos sistemas materiais, e as
leis fundamentais do comportamento dos campos e dos sistemas materiais.
Fisiologia: parte da biologia que investiga as funções orgânicas, processos ou atividades vitais, como o crescimento ,
a nutrição, a respiração, etc.
Fisioterapia: tratamento das doenças por agentes físicos.
Instrumento: qualquer objeto considerado em sua função e utilidade.
Instrumentação: na teoria de controle de processos, interpretação de controles automáticos de processos industriais.
Medicina: arte ou ciência de evitar, curar ou atenuar as doenças.
Monitoração: acompanhamento do estado clínico de um paciente através do acompanhamento do valor de
determinados parâmetros fisiológicos.
Paciente: pessoa que está sob cuidados médicos.
Processo: seqüência de estados de um sistema que se transforma.
Técnica: a parte material ou o conjunto de processos de uma arte.
Tecnologia: conjunto de conhecimentos, especialmente princípios científicos, que se aplicam a um determinado
ramo de atividade.
Terapia ou Terapêutica: parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os
doentes.

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ANEXO II - Alguns inter-relacionamentos das áreas de tecnologia em saúde
Áreas

Sub-Áreas
Engenharia Clínica

Engenharia de Reabilitação

Engenharia
Biomédica

Física
Médica

Bioengenharia

-Sistemas especialistas
-Segurança
-Controle de qualidade
-Órteses e Próteses
-Biomateriais
-Software e Hardware
-Biomecânica
-Sensores
-Biomaterias
-Biomecânica
-Eletrofisiologia
-Biotecnologia

Instrumentação Biomédica

-Sensores
-Software e Hardware
-Eletrofisiologia
-Imagens médicas

Radioproteção
Radiodiagnóstico
Radioterapia
Medicina Nuclear
Sistemas de Informação

-Segurança
-Controle de qualidade
-Segurança
-Imagens médicas

Informática
Médica

Sub-Áreas correlacionadas

Sistemas de Apoio

-Registros de pacientes
-Comunicações
-Padrões
-Controle de custos
-Sistemas especialistas
-Imagens médicas
-Redes neurais
-Inteligência artificial