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Técnicas de bioengenharia para revegetação ...

ISSN: 2177-305X
CENTRO BRASILEIRO PARA CONSERVAÇÃO DA
NATUREZA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

BOLETIM TÉCNICO CBCN
N o 001

TÉCNICAS DE BIOENGENHARIA PARA
REVEGETAÇÃO DE TALUDES NO BRASIL

Laércio Couto
Wantuelfer Gonçalves
Arnaldo Teixeira Coelho
Cláudio Coelho de Paula
Rasmo Garcia
Roberto Francisco Azevedo
Marcus Vinicius Locatelli
Tatiana Gontijo de Loreto Advíncula
Juliana Margarido Fonseca Couto Brunetta
Cristiane Alves Barbosa Costa
Luis Carlos Gomide
Pedro Henrique Motta

Viçosa ­ Minas Gerais
2010

Boletim Técnico CBCN, n. 1, 2010

ISSN: 2177-305X
COUTO, L. et al.

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INFORMAÇÕES GERAIS

O Boletim Técnico CBCN é o veículo de divulgação técnico-científica do Centro
Brasileiro para Conservação da Natureza e Desenvolvimento Sustentável que publica
trabalhos no campo da conservação da natureza e do desenvolvimento sustentável.
Editor Chefe: Gumercindo Souza Lima
Editor Assistente: Guido Assunção Ribeiro
Comissão Editorial
Presidente: Antonio Lélis Pinheiro; Vice Presidente: Rasmo Garcia; Membros: Antônio
de Arruda Tsukamoto Filho (UFMT), Carlos Antônio Alvares Soares Ribeiro
(UFV), Cláudio Coelho de Paula (UFV), Eduardo Antônio Gomes Marques (UFV),
Elias Silva (UFV), Ésio de Pádua Fonseca (UEL), João Luis Lani (UFV), Jorge
Alberto Gazel Yared (CBCN), José Geraldo Mageste (UFVJM), João Carlos de
Carvalho Almeida (UFRRJ), Juliana Margarido Fonseca Couto Brunetta (CBCN),
Júlio Cesar Lima Neves (UFV), Laci Mota Alves (FATEC Presidente Prudente),
Luiz Carlos Couto (UFVJM), Omar Daniel (UFGD), Roberto Azevedo (UFV),
Rodrigo Silva do Vale, (UFRA); Wantuelfer Gonçalves (UFV)
Coordenação de Edição: ICONE ­ Instituto para o Conhecimento Empresarial Ltda.
Diagramação: Franz Lopes da Silva
Revisão Linguística: Eliane Ventura da Silva
Capa: Ricardo Resende
Impressão: Qualigraf Serviços Gráficos Ltda.
Circulação: Centro Brasileiro para Conservação da Natureza e Desenvolvimento
Sustentável - CBCN
Endereço:
Rua Professor Alberto Pacheco, 125 ­ salas 506 e 507 ­ Ramos
36570-000 Viçosa, Minas Gerais - Brasil
Telefone/Fax: +55 (31) 3892-4960
[email protected] / www.cbcn.org.br

Ficha Catalográfica preparada pela Seção de Catalogação e
Classificação da Biblioteca Central da UFV

T252
2010

Técnicas de bioengenharia para revegetação de taludes
no Brasil / Laércio Couto ... [et al.] ­ Viçosa, MG :
CBCN, 2010.
118p. : il. (algumas col.) ; 21 cm.

Esta publicação foi
carboneutralizada

(Boletim técnico CBCN, 2177-305X ; 1).
Inclui bibliografia.
1. Meio ambiente. 2. Desenvolvimento sustentável.
3. Proteção ambiental. I. Couto, Laércio, 1945- .
II. Centro Brasileiro para Conservação da Natureza e
Desenvolvimento Sustentável. III. Série.

Apoio: CEMIG ­ Companhia Energética
de Minas Gerais S/A

CDD 22.ed. 363.7

SOLICITA-SE PERMUTA
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EXCHANGE DESIRED

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Projeto: PESQUISA & DESENVOLVIMENTO ­ GT 196
CEMIG
Diretoria de Geração e Transmissão
Luiz Henrique de Castro Carvalho
Superintendência de Gestão Ambiental da Geração e Transmissão
Enio Marcus Brandão Fonseca
Gerência de Estudos e Manejo da Ictiofauna e Programas Especiais
Newton José Schimidt Prado
CBCN
Presidente
Laércio Couto
Coordenador Geral Projeto GT 196
Laércio Couto
Coordenador pela Cemig
Rodrigo Avendanha Liboni
Equipe Técnica
Arnaldo Teixeira Coelho
Claudio Coelho de Paula
Cristiane Alves Barbosa Costa
Juliana Margarido Fonseca Couto Brunetta
Laércio Couto
Luis Carlos Gomide
Marcus Vinicius Locatelli
Pedro Henrique Motta
Rasmo Garcia
Roberto Francisco Azevedo
Tatiana Gontijo de Loreto Advíncula
Wantuelfer Gonçalves
Equipe Administrativa
Franz Lopes da Silva
Leonardo Paiva Pereira
Tatiana de Almeida Crespo
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Técnicas de bioengenharia para revegetação ...

SUMÁRIO
Página
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................... 7
2 EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL ............... 13
3 CONSIDERAÇÕES SOBRE SOLOS ..................................................... 16
3.1 Constituição .................................................................................
3.2 Cor ................................................................................................
3.3 Textura ..........................................................................................
3.4 Estrutura .......................................................................................
3.5 Cerosidade ...................................................................................
3.6 Porosidade ...................................................................................
3.7 Consistência .................................................................................
3.8 Cimentação ...................................................................................
3.9 Considerações sobre erosão ........................................................
3.10 Equação Universal de Perdas de Solo ........................................
3.10.1 Fator climático .......................................................................
3.10.2 Fator de erodibilidade ............................................................
3.10.3 Fator topográfico ...................................................................
3.10.4 Fator de cobertura vegetal e recobrimento do solo ...............
3.10.5 Fator de manejo de culturas e conservação do solo .............

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4 FATORES A SEREM CONSIDERADOS EM PROJETOS DE
PROTEÇÃO DE TALUDES ................................................................. 44
4.1 Edáficos .......................................................................................
4.2 Temperatura .................................................................................
4.3 Precipitação ..................................................................................
4.4 pH/salinidade ...............................................................................
4.5 Resistência ao fogo ......................................................................

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5 EFEITO DA VEGETAÇÃO NA ESTABILIDADE DE TALUDES E
ENCOSTAS ........................................................................................ 50
5.1 Seleção de plantas para controle de erosão e áreas degradadas .. 63
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COUTO, L. et al.

Página
6 BIOENGENHARIA DE SOLOS NA PROTEÇÃO DE TALUDES E
RECUPERAÇÃO AMBIENTAL ......................................................... 69
6.1 Geossintéticos ............................................................................
6.2 Retentores sedimentos ................................................................
6.2.1 Bermalongas ..........................................................................
6.2.2 Paliçadas de madeira ..............................................................
6.2.3 Preenchimentos de concavidades erosivas ...........................
6.3 Solo envelopado verde ...............................................................
6.4 Solo grampeado verde ................................................................
6.5 Madeira e estacas vivas ..............................................................
6.6 Concreto .....................................................................................
6.7 Ligas metálicas ............................................................................
6.8 Hidrossemeadura ........................................................................

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7 DRENAGEM DOS TALUDES ............................................................. 97
7.1 Drenagem de superficial .............................................................. 98
7.1.1 Canaletas ................................................................................ 98
7.1.2 Escada hidráulica ................................................................... 99
7.2 Drenagem subterrânea ................................................................ 99
7.2.1 Geossintéticos ...................................................................... 103
7.2.2 Geotêxteis .............................................................................. 103
7.2.3 Geogrelhas ............................................................................ 103
8 PROTEÇÃO DE CURSOS D'ÁGUA ................................................... 105
9 CONTROLE DE PRAGAS .................................................................. 109
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....................................................... 110

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1 INTRODUÇÃO
As atividades antrópicas, ao longo dos anos, podem resultar em
modificações na paisagem e eventualmente ter como consequência
a degradação do solo. Com a finalidade de minimizar este fato,
estabilizar os processos erosivos e amenizar o aspecto visual negativo
causado por tais atividades, são realizadas obras de drenagem,
geotécnicas, de terraplenagem e de implantação de revestimento
vegetal.
A minimização dos impactos ambientais decorrentes das
atividades humanas é uma preocupação cada vez maior da população.
Aliada à pressão da sociedade e às exigências legais, e também
por iniciativa própria, as empresas públicas e privadas e as instituições
de pesquisa interessaram-se na execução de projetos e no
desenvolvimento de tecnologias e produtos para atender a esta
crescente demanda na área ambiental.
Também neste contexto, as universidades criaram cursos de
graduação e pós-graduação em gestão ambiental e em áreas
correlatas, ampliando a oferta de profissionais no mercado e
aumentando os estudos e pesquisas nessa área.
Muitas vezes a construção de estradas, de usinas hidrelétricas
e de subestações e outras obras exigem movimentação de terras, o
que pode resultar em taludes que estão sujeitos às intempéries e às
oscilações de temperatura e umidade, proporcionando dificuldades
para o estabelecimento de cobertura vegetal, comprometendo assim
a completa recuperação ambiental do local afetado. Para muitos
desses taludes é necessário elaborar e implantar projetos de
recuperação de áreas degradadas, incluindo medidas mitigadoras e
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reconstrução topográfica, de acordo com o grau e o tipo de impacto
ambiental causado pelo empreendimento.
No Brasil o deslizamento de encostas tem provocado acidentes,
principalmente em áreas urbanas, devido à ocupação acelerada e
desorganizada que avança progressivamente sobre terrenos
considerados instáveis, o que, cada vez mais, expõe a grandes riscos
a população que neles se aloja. Segundo Inbar et al. (1998), citados
por Fernandes et al. (2004), as principais atividades responsáveis
pela degradação de aspectos geomorfológicos são as mineradoras e
a abertura de estradas, estas gerando quase sempre modificações
significativas na paisagem.
Em relevos íngremes e desnudos de vegetação, as enxurradas
são frequentes e os processos erosivos decorrentes mobilizam muita
massa de solo, o que é intensificado nas cidades por serem essas
superfícies bastante impermeabilizadas. As enxurradas depositam
os materiais transportados nas vertentes ou nos fundos dos vales,
causando assoreamento dos corpos d'água, o que por sua vez
promove alagamentos, bem como diminuição da capacidade de
armazenamento de água nos reservatórios, trazendo assim sérios
prejuízos para o abastecimento e a produção de energia hidrelétrica
(CARVALHO et al., 2006).
Parizzi et al. (2004), a partir de dados fornecidos pela Secretaria
da Habitação e da Coordenadoria de Defesa Civil da cidade de
Belo Horizonte-MG, constataram uma média anual de 400 desmoronamentos entre 1994 e 2000 nas periferias da capital mineira.
Muitas vezes a situação de instabilidade de taludes e encostas
é agravada em períodos de chuva, causando erosões, carreamento
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dos solos e sedimentos para os corpos d'água, destruição de
residências e até mortes (Figuras 1 e 2).
As características intrínsecas das áreas sob as supracitadas
intervenções predispõem e condicionam diversos fenômenos, sendo
um dos mais comuns a suscetibilidade à erosão, neste caso o
movimento de massa de solo em encostas e taludes, genericamente
denominado de escorregamento (Figura 3).
Segundo Toy et al. (2002), a perda de solo por erosão acarreta
redução do potencial natural de revegetação.
Dentre os prejuízos decorrentes dos movimentos de massa de
solos incluem-se a desvalorização de terras, a perda de produtividade

Figura 1 - Deslocamento de terra em área urbana devido às intensas
chuvas de verão, cidade de Canaã-MG, janeiro de 2009.
A seta amarela indica a região que a massa de solo
erodido alcançou.
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Figura 2 - Estado de calamidade pública na cidade de Canaã-MG,
em decorrência dos desmoronamentos de diversos
taludes com as intensas chuvas de verão, janeiro de 2009.

Figura 3 - Transtorno em trecho urbano da BR-120 na cidade de
Viçosa-MG, decorrente do escorregamento de massa de
solo.
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e a degradação da qualidade da água, além de danos aos sistemas
de transportes, energia elétrica, abastecimento público, dentre outros
(Figura 4).
De acordo com pesquisa realizada pelo Departamento de Águas
e Energia Elétrica e pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas, no
Estado de São Paulo, 70% das ocorrências de erosões são causadas
pela má conservação de estradas vicinais. O governo do Estado,
buscando uma solução para esses problemas, criou o Programa
Melhor Caminho, com a coordenação da Secretaria de Agricultura
e Abastecimento e a Companhia de Desenvolvimento Agrícola de
São Paulo (CODASP) como executora dessas obras (CODASP,
2008).

Figura 4 - Detalhe de processos erosivos impactando linhas de
transmissão.
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A CODASP, a Fundação Rural Mineira (RURALMINAS) e
as empresas de assistência técnica e extensão rural, dentre elas a
Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) no Estado
de São Paulo e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural
(EMATER) por todo o Brasil, são também exemplos de empresas
que vêm se dedicando à conservação da água e do solo no meio
rural, atuando na construção, recuperação e conservação de estradas
vicinais pelo manejo integrado de sub-bacias hidrográficas.
Os taludes de corte resultantes das obras civis como construção
de estradas, áreas de empréstimo e barragens devem ser revegetados
para que não desencadeiem problemas mais graves no futuro (DIAS,
1998).
Pesquisas têm mostrado a eficiência das diferentes técnicas
de revegetação de taludes (EINLOFT, 2004; FERNANDES,
2004).
O Manual de Conservação Rodoviária do Departamento
Nacional de Infra-estrutura de Transportes (DNIT) considera a
revegetação de taludes como condicionantes ambientais específicas
vinculados às construções de instalações de obras de jazidas e caixas
de empréstimos e de obras de aterros, cortes e bota-foras (DNIT,
2006), e o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER)
(1997) recomenda não utilizar a impermeabilização betuminosa dos
taludes para seu controle erosivo, por questões estéticas, quando
outras técnicas podem ser utilizadas.
Este relatório faz parte do Projeto "Desenvolvimento de
metodologias para revegetação e recobrimento vegetativo no controle
de taludes", executado pelo CBCN (Centro Brasileiro para a
Conservação da Natureza e Desenvolvimento Sustentável), em
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parceria com a CEMIG, Companhia Energética de Minas Gerais,
dentro do Programa pesquisa & desenvolvimento CEMIG - ANEEL
no GT 196.
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EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL NO
BRASIL

A consciência ambiental no País veio a se intensificar a partir
da promulgação da Lei Federal 6.938/1981, de 31 de agosto de 1981,
que dispõe sobre a política nacional do meio ambiente, consolidando
com a Constituição Federal de 1988.
Desde então, a questão ambiental no Brasil evoluiu muito, e
hoje esta deve ser tratada de forma integrada, seguindo os preceitos
da gestão integrada do meio ambiente propriamente dita.
Essa gestão integrada preconiza a sustentabilidade do interrelacionamento das questões socioambientais dos municípios com
os espaços regionais (SCHUSSEL, 2004; SHIKI; SHIKI, 2004).
A legislação básica que dá suporte a essa integração pode ser
sumarizada pela Lei Federal 6938/1981, pela Constituição Federal
de 1988 e pelas derivadas leis estaduais. A Lei Federal 6.938/1981,
de 31 de agosto de 1981, dispõe sobre a política nacional do meio
ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação, e dá
outras providências (BRASIL, 1981):
I - ação governamental na manutenção do equilíbrio ecológico,
considerando o meio ambiente como um patrimônio público a ser
necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo;
II - racionalização do uso do solo, do subsolo, da água e do ar;
III - planejamento e fiscalização do uso dos recursos ambientais;
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IV - proteção dos ecossistemas, com a preservação de áreas
representativas;
V - controle e zoneamento das atividades potencial ou
efetivamente poluidoras;
VI - incentivos ao estudo e à pesquisa de tecnologias orientadas
para o uso racional e a proteção dos recursos ambientais;
VII - acompanhamento do estado da qualidade ambiental;
VIII - recuperação de áreas degradadas;
IX - proteção de áreas ameaçadas de degradação; e
X - educação ambiental a todos os níveis de ensino, inclusive a
educação da comunidade, objetivando capacitá-la para participação
ativa na defesa do meio ambiente.
A Lei Federal no 6.938/1981 instituiu a política nacional de meio
ambiente e criou a estrutura legal para sua implementação, definindo
as responsabilidades das diversas entidades encarregadas de sua
aplicação e instituindo a obrigatoriedade do licenciamento ambiental
de todas as atividades potencialmente causadoras de impacto,
condicionada à apresentação de Estudo de Impacto Ambiental (EIA)
e de sua versão sintética, destinada ao público, denominada Relatório
de Impacto Ambiental (RIMA).
A partir dessa lei, a legislação ambiental vem sendo
consideravelmente ampliada (sempre com mudanças significativas
no quadro de demandas ambientais), e hoje já se constitui em uma
vasta e diversificada gama de instrumentos de cunho legal,
regulamentador e normativo (compreendendo leis, decretos, normas,
portarias e resoluções) que, em seu conjunto, buscam fornecer e
alcançar de forma consolidada o embasamento técnico e jurídico de
todos os fundamentos que atendem à proteção do meio ambiente.
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Alguns desses instrumentos normativos relacionados a
determinados temas dizem respeito a diretrizes e modelos instituídos
como produtos finais de trabalhos desenvolvidos por grupos de
técnicos representantes de várias nacionalidades, constituídos através
de protocolos e convenções com a finalidade de deliberar sobre temas
ambientais específicos. Assim, essas diretrizes e modelos refletem
posições e tendências universais, que o Brasil, na qualidade de
signatário de tais protocolos e convenções, deve considerar e assumir.
A questão ambiental está contemplada também na Constituição
Federal promulgada em 1988, na qual teve destaque em nove artigos.
Destes o artigo 225 estabelece que: "todos têm direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e
essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à
coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e
futuras gerações".
Com o advento dessas leis ambientais e da Constituição de 1988,
houve um avanço na legislação, trazendo uma grande ruptura com o
modelo do estado vigente na época, o que permitiu a criação dos
conselhos ambientais, num modelo em que a sociedade participa
para decidir, e não somente para denunciar. Neste contexto, em Minas
Gerais criou-se o Conselho Estadual de Política Ambiental
(COPAM), com uma gestão colegiada e participativa.
Foram criados também o Conselho Nacional de Meio Ambiente
(CONAMA) e os conselhos estaduais de meio ambiente. Dessa
forma, hoje há maior interação e participação de todos os segmentos
da sociedade nas discussões e nas aprovações de licenciamentos
ambientais nos diversos setores produtivos e de infraestrutura do
País.
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No setor rodoviário no Brasil, representado pelo DNER e por
seus correspondentes órgãos estaduais, os dispositivos legais
supracitados conduziram à obrigatoriedade da incorporação, ao projeto
de engenharia rodoviária, das relevâncias ambientais, traduzidas,
sumarizadamente, pela definição de um "tratamento ambiental" a
ser implantado, com a finalidade de promover, principalmente, a
eliminação, mitigação e compensação de impactos ambientais
negativos, suscetíveis de ocorrer, em toda a sua abrangência, por
decorrência de processo construtivo ou de operação da rodovia.
Nota-se igualmente que para a definição exata do tratamento
ambiental há de se lidar com um universo extremamente vasto e
diversificado de demandas e condicionamentos, relacionados com a
previsibilidade dos impactos ambientais ­ situação cuja etapa da identificação/avaliação envolve ainda, com frequência, alta subjetividade.
Além dos aspectos legais, também os de natureza econômica
têm levado os empreendedores de obras em geral a incorporarem
em seus custos as atividades de proteção de taludes.
3 CONSIDERAÇÕES SOBRE SOLOS
As propriedades dos solos interferem no grau de estabilidade
dos taludes, uma vez que é diretamente dessas que dependem as
suas condições de drenagem e de estabilidade geotécnica. Assim, é
imprescindível maior conhecimento sobre as características dos
diferentes tipos de solos onde se pretende efetuar um projeto.
Segundo Santos et al. (2005), não existe uma definição de solo
que seja universalmente aceita, devido, especialmente, à ampla
utilização deste recurso por profissionais das mais variadas áreas.
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A Embrapa (2006, p. 31) define solos como
"... coleção de corpos naturais, constituídos por
partes sólidas, líquidas e gasosas, tridimensionais,
dinâmicos, formados por materiais orgânicos e
minerais que ocupam maior parte do manto superficial
das extensões continentais do nosso planeta, contém
matéria viva e podem ser vegetados na natureza onde
ocorrem e, eventualmente, terem sido modificados por
interferências antrópicas".

Os solos podem ser classificados em minerais ou orgânicos.
No que se refere à contenção de taludes é relevante apenas os
estudos dos solos minerais, pois em geral os solos orgânicos estão
associados às baixadas das paisagens, em locais onde o gás oxigênio
é limitante para a completa decomposição de resíduos orgânicos no
sistema, ou seja, lugares predominantemente saturados de água.
Jenny (1980) diz que os solos minerais são recursos naturais
não renováveis em uma escala de tempo humana, pois são resultantes
da alteração das rochas, no caso os materiais de origem, ao longo do
tempo, pela ação do clima e de organismos, sob o controle do relevo.
Porém, para Resende et al. (2007) o solo é um corpo tridimensional
cuja topografia é sua própria forma externa, preferindo não incluir o
relevo dentre os seus fatores de formação, e apresentando a equação
simplificada:
Solo = f(material de origem, clima, organismos e tempo).
Na variação vertical dos solos temos o denominado perfil do
solo, onde muitas vezes é possível notar um conjunto de faixas mais
ou menos paralelas à superfície, que por sua vez são denominadas
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de horizontes ou camadas, dependendo do caso (RESENDE et al.,
2007), respectivamente, com altas e baixas influências visíveis dos
processos pedogenéticos (pedo = terra, no grego; pedogênese =
maneira pela qual o solo se origina) (Figura 5).

Figura 5 - Perfil de um Latossolo Vermelho-Amarelo da APA,
Cachoeira das Andorinhas, Ouro Preto-MG.
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O horizonte A geralmente apresenta coloração mais escurecida,
devido ao maior teor de matéria orgânica que é depositada pela maior
atividade biológica mais próxima à superfície. Na sequência,
geralmente também, vem o horizonte B, cujas propriedades são
extremamente importantes para os trabalhos pedológicos. Em seguida
temos o que se denomina de horizonte C, que é o mais jovem, ou
menos intemperizado dentre os horizontes, por não ter sofrido tanta
influência biológica e oscilações climáticas quanto os horizontes
superiores.
A partir da caracterização correta dos horizontes e da
classificação dos solos, é possível inferir sobre a sua gênese e sua
suscetibilidade à erosão, o que afeta, por exemplo, a escolha das
práticas de controle da erosão (SANTOS et al., 2005).
As propriedades dos solos consideradas relevantes durante os
projetos de sua caracterização para fins agronômicos e ambientais
são: constituição, cor, textura, estrutura, cerosidade, porosidade,
consistência e cimentação.
3.1 Constituição
Os constituintes minerais dos solos podem ser partículas de
tamanhos variados (BRADY, 1974; RESENDE et al., 2007), com
dimensões desde matacões com mais de 200 mm de diâmetro, até
argilas com menos de 0,002 mm de diâmetro, passando por calhaus
(200 ­ 20 mm de diâmetro), cascalhos (20 ­ 2 mm de diâmetro),
areia grossa (2 ­ 0,2 mm de diâmetro), areia fina (0,2 ­ 0,05 mm de
diâmetro) e silte (0,05 ­ 0,002 mm de diâmetro) (RESENDE et al.,
2007).
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COUTO, L. et al.

Representando a fração grosseira do solo temos as partículas
no tamanho de silte e areia, que podem consistir-se em fragmentos
dos próprios minerais da rocha que originou o solo. São os minerais
primários facilmente intemperizáveis que, gradualmente, liberam
nutrientes que poderão ser absorvidos pelas plantas. No entanto, em
se tratando de solos de regiões tropicais como os que predominam
no Brasil, que no geral são bastante intemperizados, o mineral mais
presente na superfície dos solos é o quartzo, caracterizado pela sua
elevada resistência ao intemperismo e pela sua pobre constituição
química, que é basicamente oxigênio e silício (SiO2), portanto este
não tem nenhuma importância na liberação de nutrientes nos solos
(RESENDE et al., 2007).
Brady (1974) diz que as partículas presentes na fração grosseira
do solo tendem a ser angulosas e com formas bastante irregulares, o
que torna bem restrito o encaixe entre elas.
A fração argila dos solos tropicais é constituída principalmente
por minerais de argila do tipo aluminossilicatadas e pelos minerais
de argilas do tipo oxidícas, óxidos de ferro e óxidos de alumínio
(RESENDE et al., 2008). As argilas, juntamente com a matéria
orgânica dos solos, são as grandes responsáveis pelas cargas elétricas
existentes nos solos tropicais.
De modo geral, quanto mais intemperizado for o solo maior é a
participação de argilas de óxidos de ferro e óxidos de alumínio na
sua constituição mineral, o que muito interfere nas suas demais
propriedades, como será visto a seguir.
Basicamente, a estrutura e a composição das argilas aluminossilicatadas consistem em lâminas de octaedros de alumínio, ligadas
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a lâminas de tetraedros de silício. Quando existem duas lâminas de
tetraedros de silício para uma lâmina de octaedro de alumínio por
unidade de mineral de argila, a argila passa a pertencer ao grupo das
argilas 2:1. Com o intemperismo ocorre a remoção de silíca do sistema,
e o equilíbrio químico passa a ser favorável à maior estabilidade de
minerais de argila, contendo uma lâmina de tetraedro de silício para
uma lâmina de octaedro de alumínio por unidade de mineral de argila
- são as argilas do grupo 1:1.
Em solos de climas tropicais a argila aluminossilicatada predominante é a caulinita [Al2Si2O5(OH)4], uma argila do grupo 1:1.
As cargas elétricas dos solos oriundas das argilas e da matéria
orgânica são importantes na manutenção da fertilidade dos solos,
pois muito interferem na reserva de nutrientes do sistema e na sua
disponibilidade às plantas.
A Capacidade de Troca Catiônica (CTC) do solo mede a
capacidade de reter os nutrientes presentes na forma catiônica (Ca2+,
Mg2+, K+ e NH4+, por exemplo), que estavam outrora presentes na
solução do solo. Desta maneira, os nutrientes aderidos às superfícies
dos minerais de argila por forças eletrostáticas, fenômeno denominado
de adsorção, são menos passíveis de ser perdidos por lavagem, devido
às chuvas ou à irrigação, passando então a ser disponibilizados
gradualmente às plantas.
Características como área superficial, poder de adsorção,
capacidade de expansão e contração, plasticidade e coesão e
capacidade de retenção de água têm suas magnitudes aumentadas
à medida que os diâmetros das partículas dos solos diminuem
(BRADY, 1974).
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COUTO, L. et al.

A matéria orgânica do solo geralmente resulta da ação dos
microrganismos, que decompõem resíduos animais e vegetais,
podendo ter, dentre outras, a função de agregar as partículas dos
solos (BRADY, 1974). A matéria orgânica está presente nas mais
variadas formas, por exemplo, resíduos em diferentes estágios de
decomposição e tamanhos, fragmentos de carvão e substâncias
complexas de alto peso molecular, como ácido húmico, ácido fúlvico
e humina.
Os poros dos solos são os constituintes responsáveis pelo
armazenamento de ar (atmosfera do solo) e de água (solução do
solo) nos solos, sendo a porosidade total do solo o volume não ocupado
por sólidos (CURI et al., 1993).
A atmosfera do solo, qualitativamente, difere-se muito pouco
da atmosfera acima de sua superfície, cabendo às maiores diferenças
serem de ordem quantitativa, ou seja, os gases basicamente são os
mesmos, porém as concentrações mudam, sendo a atmosfera do
solo geralmente mais concentrada em CO2, por exemplo.
A solução do solo é a interface da transferência de nutrientes
dos solos para os componentes bióticos como plantas e microrganismos, ou seja, de onde os nutrientes em suas formas iônicas são
absorvidos; nela também ocorrem as reações de equilíbrio químico
entre os diversos componentes dos solos.
3.2 Cor
É a propriedade dos solos de mais fácil percepção, a partir da
qual é possível inferir, por exemplo, sobre o teor de matéria orgânica
e a sua situação de drenagem.
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Cores mais enegrecidas apontam para teores mais elevados de
matéria orgânica no solo, e cores mais avermelhadas apontam para
teores de ferro mais elevados e para condições de drenagem melhores
do que em solos de cores mais amareladas e acinzentadas.
Em condições de pouca drenagem a anaerobiose predomina, e
os microrganismos passam a utilizar o ferro férrico (Fe3+) disponível
no sistema como aceptor final de elétrons no seu metabolismo,
transformando, assim, o ferro do sistema em ferro ferroso (Fe2+),
cujos minerais correspondentes refletem a coloração azulada,
podendo ainda ter aspecto verde-azulado, sendo então os greenrusts.
Comumente o cinza dá espaço aos mosqueados amarelos e avermelhados, além de riscados amarelados e avermelhados, geralmente
associados às regiões de contato com as raízes das plantas adaptadas
aos solos saturados de água, devido à liberação de O2 no solo pelas
suas raízes.
A medida que a drenagem aumenta, o O2 da atmosfera oxida o
2+

Fe , que passa a Fe3+. A coloração amarela dos solos se deve
principalmente ao mineral de argila goethita (á-FeOOH), que é mais
estável em condições de maior acidez e de menores teores de Fe3+
no solo. A coloração vermelha, por sua vez, é devido principalmente
à presença do mineral de argila hematita (á-Fe2O3), com alto poder
pigmentante e de maior estabilidade em condições de altos teores de
Fe3+ no solo e de melhores drenagens.
A caracterização das cores dos solos e de seus horizontes segue
um padrão mundial, que é o Sistema Munsell de Cores (SANTOS
et al., 2005).
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3.3 Textura
Textura do solo refere-se à proporção relativa das partículas na
granulometria de argila, silte e areia (grossa + fina) que constituem o
solo.
No que se refere à presença de calhaus e matacões, o termo é
pedregosidade (RESENDE et al., 2007).
No atual Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS),
os grupa-mentos texturais mais utilizados, segundo EMBRAPA
(2006), são:
· Textura arenosa (com composição granulométrica de menos
de 15% de argila e de mais de 70% de areia).
· Textura média (com composição granulométrica de menos
de 35% de argila e de mais de 15% de areia).
· Textura argilosa (com composição granulométrica de menos
de 60% de argila e de mais de 35% de areia).
· Textura muito argilosa (com composição granulométrica de
mais de 60% de argila).
· Textura siltosa (com composição granulométrica de menos
de 35% de argila e de menos de 15% de areia).
A fração silte pode vir a ser indicadora não só do grau de
intemperismo a partir da relação silte/argila (teor de silte/teor de
argila), mas também da fertilidade do solo, pois nesta fração pode
estar a maior parte dos minerais primários facilmente intemperizáveis
(RESENDE et al., 2007).
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3.4 Estrutura
Estrutura do solo faz conotação ao agrupamento das partículas
primárias dos solos (areia, silte e argila) que formam partículas
maiores, os agregados propriamente ditos (SANTOS et al., 2005;
RESENDE et al., 2007).
Os agregados podem comportar-se mecanicamente como
unidades estruturais primárias (CURI t al., 1993), como silte ou areia,
o que muito afeta a aeração e a drenagem do solo.
A agregação se dá a partir de agentes cimentantes, que unem
as partículas primárias dos solos (CURI et al., 1993; SANTOS et al.,
2005).
As formas dos agregados geralmente mudam ao longo do perfil
do solo, formas estas que muito influenciam o desenvolvimento
radicular das plantas, a retenção e o suprimento de água, ar e nutrientes, a atividade microbiana, a densidade do solo e a sua resistência à
erosão (SANTOS et al., 2005).
Os solos onde predominam argilas do tipo óxidos de ferro e
alumínio tendem a ter estrutura na forma granular, o mesmo ocorrendo
com o aumento do teor de matéria orgânica. Os solos passam a ter
estrutura com formas em blocos, prismas e colunas à medida que a
participação de argilas aluminossilicatadas é aumentada (RESENDE
et al., 2007).
Os solos cujos agregados apresentam facilidade de se separarem
são considerados de estruturação fraca, do contrário, de estruturação
forte. O reconhecimento da estrutura do solo é de elevada importância
na tomada de decisão para seu uso agrícola, sendo a condição mais
próxima do seco do que do úmido que permite melhor caracterização
quando no campo (SANTOS et al., 2005).
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3.5 Cerosidade
É o aspecto brilhoso devido ao recobrimento dos agregados por
filmes de argilas, que preenchem os poros e dão uma aparência
semelhante à de parafina derretida na superfície dos agregados ou
torrões (EMBRAPA, 2006).
A cerosidade origina-se do acúmulo de argilas exportadas
pelas camadas de solos em posições superiores, podendo também ser originada do rearranjo das partículas finas dos solos
durante ciclos de contração e dilação do solo (RESENDE et al.,
2007).
As atividades dos componentes biológicos dos solos, como
desenvolvimento de raízes, crescimento de microrganismos e trânsito
de animais, tendem a destruir a cerosidade.
3.6 Porosidade
Os poros dividem-se em macroporos e microporos, respectivamente maiores e menores que 0,05 mm de diâmetro.
A macroporosidade é mais importante para a aeração e
drenagem no interior do solo, e está relacionada com os poros entre
os agregados. A microporosidade, por sua vez, é mais importante
para fixação de água no solo, retendo então água por capilaridade, o
que permite que a água fique retida com uma força maior, a tal
ponto de não ser removida pela ação da força da gravidade, e está
relacionada com os poros intra-agregados.
Os solos de textura arenosa apresentam macroporosidade maior
que os solos mais argilosos, porém a agregação dos componentes da
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fração argila pode fazer com que os solos argilosos tenham
comportamentos semelhantes aos de solos arenosos, no que se refere
às suas capacidades de drenagem.
3.7 Consistência
É a manifestação das forças de coesão e adesão nos diferentes
níveis de umidade: seco, úmido e molhado (BRADY, 1974; CURI
et al., 1993; SANTOS et al., 2005; RESENDE et al., 2007).
Coesão é a força que mantém as partículas semelhantes
unidas umas às outras, pelo contato entre suas superfícies
(RESENDE et al., 2007), ou seja, contato face a face de duas
partículas sólidas de composição semelhante. Sua magnitude é
aumentada à medida que se segue para condições mais secas nos
solos, bastante acentuadas em solos cujas argilas aluminossilicatadas
se encontram mais bem organizadas, ou seja, com menor
interferência de argilas oxídicas e matéria orgânica aderidas a
estas.
Adesão é a força de atração entre corpos de naturezas diferentes,
no caso a água e os constituintes sólidos dos solos (CURI et al.,
1993; RESENDE et al. 2007), e começa a pronunciar-se à medida
que as forças de coesão diminuem, com o aumento dos níveis de
umidade no solo.
As forças de coesão e de adesão são mais pronunciadas à
medida que se aumentam os teores de argilas dos solos, especialmente
se as argilas forem de alta atividade e se encontrarem em um nível
de organização maior (Figura 6).

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Intensidade das forças

coesão em solos mais argilosos

coesão em solos mais arenosos
adesão em solos mais argilosos
adesão em solos mais arenosos

seco

úmido

molhado

muito
molhado

saturado

Níveis de umidade no solo

Figura 6 - Variação nas magnitudes das forças de coesão e adesão
em função dos diferentes níveis de umidade e de textura
dos solos.

3.8 Cimentação
É a ação de componentes químicos que unem as partículas dos
solos, independentemente dos níveis de umidade nos quais os solos
se encontram, o contrário do que ocorre com a consistência.
As substâncias cimentantes podem ser orgânicas, por exemplo,
os exsudados radiculares e microbianos, e inorgânicos, como
carbonato de cálcio, óxidos de ferro, óxidos de alumínio e silício
(BRADY et al., 1974; CURI et al., 1993; RESENDE et al., 2007).
A cimentação pode ser contínua ou descontínua ao longo dos
horizontes do solo, e ser fraca (quebrável com as mãos), forte (não
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quebrável com as mãos, mas facilmente quebrável com o uso do
martelo pedológico) e extremamente forte (não quebrável mesmo
com o uso do martelo pedológico, por exemplo, concreções
ferruginosas) (SANTOS et al., 2005).
3.9 Considerações sobre erosão
Erosão é a remoção de constituintes de solos desprendidos por
estarem expostos às intempéries climáticas na superfície (BERTONI;
LOMBARDI NETO, 1990). A origem do termo erosão é do latim
erodere, que significa corroer.
A erosão é um dos primordiais processos de formação dos solos
(RESENDE et al., 2007), e pode constituir-se em um processo natural
de dissecação e modelamento da paisagem na superfície terrestre
(BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990). As atividades humanas
podem desencadear processos denominados de erosão acelerada
ou antrópica.
Erodibilidade do solo é a vulnerabilidade que este possui aos
processos erosivos (BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990;
JACINTO et al., 2006), e estudos de caracterização química, física
e mineralógica dos solos são importantes ferramentas para identificar,
entender e propor soluções no caso de surgimento dos processos
erosivos (JACINTO et al., 2006).
Erosividade é a capacidade que os agentes ativos de erosão,
como chuvas, ventos e gravidade, possuem de provocar erosão
(CURI et al., 1993), por exemplo, a energia cinética de cada gota de
chuva determina a capacidade erosiva de uma ocorrência de chuva
(BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990), assim a intensidade da
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30

COUTO, L. et al.

chuva é um componente importante para predizer fenômenos
erosivos (BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990).
A erosão é um processo dinâmico causado por forças ativas,
sendo de ordem climática como chuvas e ventos, e por características
energéticas do terreno, como declividade, aliada ao seu comprimento,
em sinergismo com forças passivas como a erodibilidade do solo
(BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990).
Inicialmente temos o impacto das gotas de chuva, desagregando
e desestruturando o solo. Em seguida as partículas soltas são transportadas e removidas do sistema pela ação da água. Segundo Bertoni
e Lombardi Neto (1990), diferentes formas de erosão hídrica podem
ocorrer simultaneamente no mesmo terreno, cabendo dentre outras
a classificação como laminar, em sulco e voçoroca.
A erosão laminar é a mais sutil de todas elas, consistindo na
remoção gradual das camadas superficiais dos solos, em decorrência
da maior erodibilidade desta em relação à camada mais profunda, e
é importante causa de decréscimo da fertilidade do solo, pois
geralmente são essas camadas mais superficiais as mais ricas em
nutrientes (BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990). Esse tipo de
erosão está geralmente associado aos solos que apresentam
horizontes B mais argilosos, estruturados e coesos do que seus
respectivos horizontes A, tal como pode ocorrer em Cambissolos e
Argissolos.
A erosão em sulco é devido à concentração do fluxo de drenagem
na superfície do solo, em decorrência das irregularidades ao longo
de sua superfície (BERTONI; LOMBARDI NETO, 1990), sendo
tão intensa quanto forem a erosividade decorrente das chuvas, da
declividade dos terrenos e da erodibilidade do solo.
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A voçoroca ("terra rasgada" no tupi-guarani) é o estágio mais
avançado da erosão em sulco, resultando assim em grandes cavidades
em extensão e em profundidade, dada a remoção de grande
quantidade de massa de solo do terreno (BERTONI; LOMBARDI
NETO, 1990). Uma vez desencadeada, as voçorocas geram danos
ambientais cujas medidas de controle fazem-se extremamente
onerosas. A erosão eólica pode também constituir-se em sério
problema por remover partículas de solos descobertos (BERTONI;
LOMBARDI NETO, 1990); ocorre em condições de alta erosividade
dos ventos atuantes, concomitante com a erodibilidade do solo, ou
seja, solos que se apresentam desagregados e desestruturados em
sua superfície.
De acordo com Coelho e Brito Galvão (1998), a estabilidade de
um talude depende dos seguintes fatores: (i) propriedades físicas e
mecânicas do material que constitui o talude; (ii) propriedades físicas
e mecânicas do material da fundação ­ no caso de materiais de
fundação pouco resistentes recomenda-se a remoção desses materiais, se for economicamente viável, ou a utilização de processos de
estabilização de solos, caso não seja viável a remoção de parte do
material de fundação. Nesse caso, ao se fazer a análise da estabilidade
de taludes, devem ser consideradas as superfícies prováveis de
ruptura que passam pela fundação; (iii) geometria do talude, na qual
se inserem altura, declividade, bermas, etc.; (iv) existência de
nascente no local; (v) presença de nível de água no interior do talude:
recomenda-se manter esse nível o mais baixo possível, através do
sistema de drenagem; e (vi) tendências à erosão, neste caso a
execução de um sistema de drenagem superficial é muito importante.
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COUTO, L. et al.

As principais fontes de erros que podem ser introduzidos na
estimativa de estabilidade de taludes provêm não somente do uso de
métodos aproximados de análise de estabilidade, mas também do
uso de métodos não adequados, de coleta de amostras e de ensaios,
os quais não produzem com suficiente precisão as condições dos
materiais e dos estados de tensões do solo natural ou do aterro
compactado, na situação.
3.10 Equação Universal de Perdas de Solo
Na tentativa de descrever os processos de perdas de solo por
erosão e de estimar sua intensidade, é muito utilizado o método
paramétrico denominado genericamente de Equação Universal de
Perdas de Solo, ou equação de Wischmeier (RESENDE et al., 2007),
ou ainda equação RUSLE (Revised Loss Soil Equation):

A = R x K x LS x C x P
em que:
· A = perda anual de solo: dado em t ha-1 ano-1;
· R = fator de preciptação e run-off: é afetado pela energia
potencial, pela intesidade quantidade de chuva e pelo run-off;
· K = fator de erodibilidade do solo: é afetado pela textura do solo,
pela matéria orgânica, pela estrutura e pela permeabilidade;
· LS = fator topográfico: é afetado pela inclinação, pelo
comprimento e pela forma do talude (côncavo ou convexo);
· C = fator de manejo de culturas: é afetado pela superfície de
recobrimento, pelo dossel, pela biomassa, pelo uso do solo e pelo
tipo de cobertura vegetal; e
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· P = fator de práticas de proteção e manejo do solo: é afetado
pela rotação de culturas, pelo tipo de proteção do solo, pelas
barreiras, pelo mulch para recobrir o solo, pelos terraços e pelas
técnicas de proteção do solo.
Os conhecimentos técnicos são importantes para determinar
os fatores e para adotar e interpretar os dados existentes, para que
os resultados obtidos sejam os mais seguros possíveis.
Os fatores podem ser obtidos através de fórmulas empíricas,
de dados experimentais já existentes, de gráficos-padrão ou dos dados
no próprio local.
Dados internacionais estimam uma perda de solo no mundo da
ordem de 80 bilhões de toneladas/ano (SMITH, 1958).
De acordo com Walker (2004), a perda de solo nos Estados
Unidos é de cerca de 2 bilhões de toneladas/ano, sendo o custo para
recuperação do top-soil da ordem de US$80,000 ha-1, e sua
recuperação definitiva leva de 30 a 100 anos.
O Quadro 1 ilustra os limites potenciais de perda de solo em
função do nível da erosão, baseado em análise técnica, para
considerar qual o nível de erosão encontrado; se analisados pelo
aspecto da engenharia, em que é necessário padronização e cálculos,
o nível será o mesmo independentemente do ponto de vista técnico.
A cobertura vegetal contribui para atenuar a taxa de erosão do
solo, mas o fator mais importante é a cobertura do solo, que o protege
totalmente, mantém a umidade, favorece a infiltração desejável e
reduz o run-off. Desta forma, não adianta ter 100% de cobertura
vegetal e 0% de cobertura do solo, pois ocorrerá perda de solo da
ordem de 0,2. No caso inverso, se tivermos 100% de cobertura do
solo e 0% de cobertura vegetal, a perda será de aproximadamente
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COUTO, L. et al.

Quadro 1 - Limites potenciais de perda do solo em função do nível
da erosão
Classe

Nível de Erosão

Potencial de Perda do Solo
-1
-1
(tonelada ha ano )

1

Muito baixo

33

Fonte: Wall (1997).

0,05, mostrando a importância da cobertura do solo. Esta cobertura
pode existir de forma natural, pela serapilheira (litter), ou por proteção
artificial, como geotêxteis, geomantas e biomantas antierosivas, que
tem o mesmo papel da serapilheira, funcionando como elemento
fundamental no controle de sedimentos e erosão do solo, sendo este
comentário evidenciado na Figura 7.
A seguir serão discutidos os fatores que constituem a Equação
da Perda do Solo e como determiná-los, apresentando fórmulas
empíricas e gráficos, de maneira a facilitar o entendimento, o cálculo
e a interpretação.
A Equação da Perda do Solo apresenta sua fórmula multiplicativa, ou seja, fatores que se apresentam elevados contribuem
para aumentar significativamente a perda do solo, ocorrendo o mesmo
Boletim Técnico CBCN, n. 1, 2010

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35

Fonte: Pereira (2008).

Figura 7 - Tipo de recobrimento do solo X perda de solo.
com fatores pequenos, que resultam em perda reduzida de solo.
Portanto, a perda de solo é diretamente proporcional à grandeza de
cada fator.
3.10.1 Fator climático
É o fator climático que avalia a precipitação e o run-off, e é
afetado pela energia potencial, pela intensidade, pela quantidade de
chuva e pelo run-off. A energia potencial da chuva pode ser calculada
a partir da seguinte fórmula:
E = 210,2 + 89.log(I)
em que
· E = energia potencial da chuva (joules m² cm-1); e
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COUTO, L. et al.

I = Intensidade da chuva em um período (cm por hora).
O índice de erosão pluvial é calculado como:
n

R=

i=1

(210,2 + 89 logI )(I .T).I
j

j

j

30

100
em que
· R = índice de erosão pluvial;
· Ji = período de tempo em horas;
· I30 = máxima intensidade de chuva (mm);
· T = intervalos homogêneos de chuva forte; e
· n = número de intervalos.
O fator R correspondente a um ano, e é o somatório dos valores
de R de cada uma das chuvas registradas no período de tempo
estudado. Para se obter o valor representativo e confiável de R é
necessário calcular um ciclo de pelo menos dez anos.
Existe uma equação para calcular o fator R que é mais simples,
e o resultado final é semelhante ao da fórmula anterior, enfatizando,
neste caso, apenas a maior pluviosidade:
R = 0,417 x p2,17
em que
· R = índice de erosão pluvial; e
· p = maior precipitação num período de dois anos, durante 6 horas
(em mm).

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Neste caso, podem ser utilizados mapas de precipitação, que
contenham intensidades e quantidades de chuva. Na ilustração em
questão utilizamos o mapa de precipitação do Estado de Minas Gerais,
Brasil (Figura 8), mas para trabalhos específicos o técnico deverá
utilizar dados de estações meteorológicas, com um tempo de
recorrência de pelo menos 20 anos.
ESTADO DE MINAS GERAIS
ZONEAMENTO AGROCLIMÁTICO
1996

PRECIPITAÇÃO TOTAL ANUAL
(mm)
1500

Fonte: Pereira (2006).

Figura 8 - Estado de Zoneamento agroclimático do Estado de
Minas Gerais.

3.10.2 Fator de erodibilidade
Existem dois métodos que podem ser utilizados para determinar
o fator K (erodibilidade do solo). O primeiro é a equação de
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38

COUTO, L. et al.

Wischmeier e Smith (1978), que é baseada nas informações de:
· porcentagem de areia, silte e areia muito fina;
· porcentagem de matéria orgânica;
· estrutura do solo; e
· permeabilidade.
O segundo método é o nomograma:
· para obter o fator k com base em todos os parâmetros; e
· para aproximar o fator k com base no tamanho das partículas
e matéria orgânica.
Para cada tipo de solo é avaliada a relação entre a perda e o
número de unidades do índice de erosão pluvial correspondente, em
condições de cultivo permanente. Com o conjunto de valores obtidos,
calcula-se o fator k para cada solo, e então se estabelece uma
equação de regressão em função das variáveis representativas das
propriedades físicas do solo.
A regressão é expressa pela seguinte equação:
Fator K: pode ser determinado através de gráficos e calculado através
de fórmulas de regressão:
100K = 10-4 x 2,71M1,14(12-a)% + 4,20(b-2)% + 3,23(c-3)%

em que
· K = fator de erodibilidade; e
· M = textura do solo.
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39

sendo
M= [100 - % argila] . [ % (silte + areia) ]
a = porcentual de matéria orgânica no solo.
b = estrutura do solo, adotar:
1 = grãos muito finos (Ø < 1 mm).
2 = grãos finos (1 mm