O CAPITÃO SAIU
PARA O ALMOÇO E OS
MARINHEIROS
TOMARAM
CONTA DO NAVIO

28/08/91

23:28

Foi um dia bom no hipódromo, quase forrei o bolso.
Mas é chato aqui, mesmo quando você está ganhando. Tem os 30 minutos entre os
páreos, sua vida escorrendo para o espaço. As pessoas têm uma aparência cinzenta, gasta. E
aqui estou com elas. Mas aonde mais poderia ir? A um museu de arte? Imaginem passar o dia
inteiro em casa e brincar de escritor. Poderia usar um lencinho branco. Lembro de um poeta
que costuma aparecer nas festas. Faltavam botões na camisa, as calças manchadas de vômito,
cabelos nos olhos, sapatos desamarrados, mas usava uma longa echarpe que mantinha sempre
bem limpa. Aquilo indicava que ele era um poeta. Sua obra? Esqueça...
Cheguei, nadei na piscina, e depois fui ao spa. Minha alma está a perigo. Sempre esteve.
Estava sentado no sofá com Linda, uma boa e escura noite chegando, quando bateram na
porta. Linda abriu.
"É melhor você vir aqui, Hank..."
Fui até a porta, de pés descalços e roupão. Um cara loiro e jovem, uma moça gorda e uma
garota de tamanho médio.
"Eles querem o seu autógrafo..."
"Eu não recebo pessoas", disse a eles.
"Nós só queremos o seu autógrafo", disse o loiro, "prometemos não voltar nunca mais."
Então começou a dar risadinhas e segurar a cabeça. As garotas só ficaram olhando.
"Mas nenhum de vocês tem caneta, nem mesmo um pedaço de papel", disse eu.
"Ah", disse o garoto loiro, tirando as mãos da cabeça. "Voltaremos de novo com um
livro! Talvez numa hora mais adequada..."
O roupão. Os pés descalços. Talvez o garoto achasse que eu era excêntrico. Talvez eu
fosse.
"Não venham de manhã", disse a eles.
Vi eles se afastarem e fechei a porta...
Agora estou aqui escrevendo sobre eles. A gente tem que ser um pouco duro, se não eles
ficam aporrinhando. Tive algumas experiências terríveis abrindo aquela porta. Muitos que
acham que, de alguma forma, você vai convidá-los para entrar e para beber a noite toda.
Prefiro beber sozinho. Um escritor não deve nada, exceto ao seu texto. Ele não deve nada para
o leitor, exceto a disponibilidade da página impressa. E, pior, muitos dos que batem à porta
não são nem leitores. Só ouviram falar alguma coisa. O melhor leitor e a melhor pessoa são os
que me recompensam com a sua ausência.

29/08/91

22:55

Hoje, foi devagar no hipódromo. Minha maldita vida pendurada no gancho. Vou lá todos
os dias. Não encontro ninguém lá, só os funcionários. Provavelmente, tenho alguma doença.
Saroyan perdeu seu rabo no hipódromo, Fante, nas cartas, e Dostoievsky, na roleta. E
realmente não é uma questão de dinheiro, a não ser que você fique duro. Eu tinha um amigo
jogador que dizia: "Não me importo se perco ou se ganho, só quero apostar". Tenho mais
respeito pelo dinheiro. Tive pouco na maior parte da vida. Sei o que é um banco de praça, e o
proprietário bater na porta. Só existem duas coisas erradas com o dinheiro: quando é demais
ou de menos.
Acho que sempre arranjamos alguma coisa para nos atormentar. E, no hipódromo, você
sente as outras pessoas, a escuridão desesperada, e como jogam e desistem com facilidade. A
multidão do hipódromo é o mundo em tamanho menor, a vida lutando contra a morte e
perdendo. No final, ninguém ganha, buscamos apenas uma prorrogação, um momento sem ser
ofuscado. (Merda, a brasa do cigarro queimou um dos meus dedos enquanto estava meditando
sobre esta falta de sentido. Isto me acordou, me tirou deste estado sartriano!) Diabos,
precisamos de humor, precisamos rir. Eu costumava rir mais, eu costumava fazer tudo mais,
exceto escrever. Hoje, escrevo e escrevo e escrevo, quanto mais velho fico, mais escrevo,
dançando com a morte. Excelente show. E acho que a coisa está boa. Um dia, dirão:
"Bukowski está morto", e daí serei verdadeiramente descoberto e pendurado em fedorentos e
brilhantes postes de luz. E daí? A imortalidade é uma estúpida invenção dos vivos. Você vê o
que faz o hipódromo? Faz com que o texto flua. Relâmpagos e sorte. O último azulão
cantando. Qualquer coisa que digo soa bem porque eu arrisco quando escrevo. Gente demais é
cuidadosa demais. Estudam, ensinam e fracassam. A convenção apaga a sua chama.
Me sinto melhor agora, aqui neste segundo andar com o Macintosh. Meu companheiro.
E Mahler está no rádio, desliza com tanta facilidade, arriscando muito, isso é necessário
às vezes. Então, ele manda um daqueles trechos apoteóticos. Obrigado, Mahler, pego
emprestado de você e nunca poderei pagar.
Fumo demais, bebo demais, mas não consigo escrever demais, o texto fica vindo e peço
mais e chega e se mistura com Mahler. Às vezes, paro deliberadamente. Digo espere um
pouco, vá dormir ou olhe seus nove gatos ou sente com sua mulher no sofá. Você está no
hipódromo ou com o Macintosh. E então paro, piso no freio, estaciono a maldita coisa.
Algumas pessoas escreveram que meus livros as ajudaram a seguir em frente. Me ajudaram
também. Os livros, os cavalos, os nove gatos.
Aqui, há uma pequena sacada, a porta está aberta e posso ver as luzes dos carros na
Harbor Freeeway sul, nunca param, o rolar das luzes, sem parar. Todas aquelas pessoas. O que
estão fazendo? O que estão pensando? Todos nós vamos morrer, que circo! Só isso deveria
fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados
pelas trivialidades, somos devorados por nada.

Continue, Mahler! Você fez com que esta fosse uma noite maravilhosa. Não pare, filho
da puta! Não pare!

11/09/91

01:20

Deveria cortar minhas unhas dos pés. Meus pés estão me machucando há umas duas
semanas. Sei que são as unhas dos pés, mas não consigo achar tempo para cortá-las. Estou
sempre atrasado, não tenho tempo para nada. Claro, se eu pudesse ficar longe do hipódromo
teria tempo de sobra. Mas toda a minha vida tem sido uma questão de lutar por uma simples
hora para fazer o que eu quero fazer. Tem sempre alguma coisa atrapalhando a minha chegada
a mim mesmo.
Devo fazer um esforço gigante para cortar minhas unhas dos pés hoje à noite. Sim, eu sei
que tem pessoas morrendo de câncer, que tem pessoas dormindo nas ruas, em caixas de
papelão, e fico falando em cortar minhas unhas. Ainda assim, provavelmente estou mais perto
da realidade do que um panaca que assiste a 162 jogos de baseball por ano. Estive em meu
inferno, estou no meu inferno, não me acho superior. O fato de estar vivo e com 71 anos e
falando sem parar sobre minhas unhas dos pés é milagre suficiente pra mim.
Tenho lido os filósofos. São uns caras realmente estranhos, engraçados e loucos.
Jogadores. Descartes veio e disse: é pura bobagem o que esses caras estão falando. Disse que a
matemática era o modelo da verdade absoluta e óbvia. Mecanismo. Então, Hume veio com seu
ataque à validade do conhecimento científico causal. E depois veio Kierkegaard: "Enfio meu
dedo na existência ­ não tem cheiro de nada. Onde estou?". E depois veio Sartre, que
sustentava que a existência é absurda. Adoro esses caras. Embalam o mundo. Será que tinham
dor de cabeça por pensar dessa forma? Será que uma torrente de escuridão rugia entre seus
dentes? Quando você pega homens como esses e os compara aos homens que vejo caminhando
nas ruas ou comendo em cafés ou aparecendo na tela da TV, a diferença é tão grande que
alguma coisa se contorce dentro de mim, me chutando as tripas.
Provavelmente, não vou fazer as unhas dos pés esta noite. Não estou louco, mas também
não estou são. Não, talvez eu esteja louco. De qualquer forma, hoje, quando a luz do dia
aparecer e quando forem duas da tarde, acontecerá o primeiro páreo do último dia de corridas
em Del Mar. Joguei todos os dias, em todos os páreos. Vou dormir agora, minhas unhas como
lâminas rasgando os lençóis novos. Boa noite.

12/09/91

23:19

Sem cavalos hoje. Me sinto estranhamente normal. Entendo por que Hemingway
precisava das touradas, elas o situavam, lembravam-no de onde era e o que era. Às vezes nos
esquecemos, pagando contas de gasolina, trocando o óleo etc. A maioria das pessoas não está
pronta para a morte, a sua ou a dos outros. Ela as choca, as apavora. É como uma grande
surpresa. Diabos, não deveria ser nunca. Levo a morte em meu bolso esquerdo. Às vezes, tiroa do bolso e falo com ela: "Oi, gata, como vai? Quando virá me buscar? Vou estar pronto".
Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o
crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou
não levam até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. As
pessoas as cagam. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, cinema, dinheiro, família,
foder. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem Deus sem pensar, engolem o país sem
pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que os outros pensem por elas. Seus cérebros
estão entupidos de algodão. São feios, falam feio, caminham feio. Toque para elas a maior
música de todos os tempos e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das mortes das pessoas é
uma empulhação. Não sobra nada para morrer.
Veja, preciso dos cavalos, perco meu senso de humor. Uma coisa que a morte não suporta
é que você ria dela. O verdadeiro riso ganha a maior das apostas. Não rio há três ou quatro
semanas. Alguma coisa está me comendo vivo. Me coço, me viro, olho em volta, tentando
encontrá-la. O Caçador é esperto. Não consigo vê-lo. Ou vê-la.
Este computador deve voltar para a loja. Não vou abençoá-los com os detalhes. Algum
dia, vou saber mais sobre os computadores do que os próprios computadores. Mas, nesse
momento, esta máquina está me vencendo.
Tem dois editores que conheço que ficam ofendidos com os computadores. Tenho essas
duas cartas e elas são furiosas contra os computadores. Fiquei surpreso com a amargura nas
cartas. E com a criancice. Sei que o computador não pode escrever por mim. Se pudesse, eu
não ia querer. As cartas eram longas demais. Inferiam que o computador não faz bem à alma.
Bom, poucas coisas fazem. Mas sou a favor da conveniência, se posso escrever o dobro e a
qualidade permanece a mesma, então prefiro o computador. Escrever é quando voo, escrever é
quando começo incêndios. Escrever é quando tiro a morte do meu bolso esquerdo, atiro-a
contra a parede e a pego de volta quando rebate.
Esses caras acham que você tem que estar crucificado e sangrando para ter alma. Querem
que você esteja meio louco, babando na camisa. Já estou cheio da cruz, meu tanque está cheio
disso. Se puder ficar fora da cruz, ainda terei bastante combustível. Demais. Deixe que eles
subam na cruz, eu os congratulo. Mas a dor não cria a obra, um escritor, sim.
De qualquer forma, de volta à loja com isto e quando esses dois editores virem meu
trabalho batido à máquina de novo vão pensar, ah, o Bukowski está com sua alma de volta. É
muito melhor ler esse negócio.

Ah, bem, o que faríamos sem os editores? Ou melhor ainda, o que eles fariam sem nós?

13/09/91

17:28

O hipódromo está fechado. Não há apostas entre hipódromos com Pomona, aqui ó que eu
vou dirigir nesse calorão. Provavelmente, vou acabar nas corridas à noite em Los Alamitos. O
computador veio outra vez da oficina, mas não corrige mais a ortografia. Tentei de tudo para
descobrir por quê. É provavel que eu tenha que ligar para a loja e perguntar para o cara: "O
que é que faço agora?". E ele vai dizer alguma coisa como: "Você vai ter que transferi-lo do
disco principal para o disco rígido". Provavelmente, vou acabar apagando tudo. A máquina de
escrever está atrás de mim e diz: "Olhe, ainda estou aqui".
Tem noites em que esta sala é o único lugar onde quero estar. Ainda assim, me levanto e
sou uma casca vazia. Sei que poderia fazer o diabo e fazer as palavras dançarem nesta tela se
me embebedasse, mas tenho que buscar a irmã de Linda no aeroporto amanhã de tarde. Ela
vem fazer uma visita. Ela mudou seu nome de Robin para Jharra. Quando as mulheres ficam
mais velhas, trocam de nome. Quero dizer, muitas fazem isso. Imagine se um homem fizesse
isso. Conseguem me imaginar telefonando para alguém:
"Ei, Mike, aqui é o Tulipa."
"Quem?"
"Tulipa. Antes era Charles, mas agora é Tulipa. Não vou mais atender ao nome Charles."
"Vá se foder."
Mike desliga...
Ficar velho é muito estranho. A coisa principal é que você tem que ficar constantemente
dizendo a si mesmo estou velho, estou velho. Você se vê no espelho quando desce no elevador,
mas não olha diretamente para o espelho, dá uma olhada de lado, um sorriso amarelo. Você
não está tão mal, você parece algo como uma vela empoeirada. Azar, fodam-se os deuses,
foda-se o jogo. Você já deveria estar morto há 35 anos. Isto é uma cena a mais, mais uma
olhada no show de horror. Quanto mais velho o escritor fica, melhor ele deve escrever, ele já
viu mais coisas, já aguentou mais, já perdeu mais, está mais perto da morte. Esta última é a
maior vantagem. E há sempre a nova página, a página em branco, 8 e ½ por 11 polegadas. O
jogo continua. Daí você sempre lembra de uma ou duas coisas que os outros caras disseram.
Jeffers: "Zangue-se com o sol". Maravilhoso demais. Ou Sartre: "O inferno são os outros".
Direto no alvo. Nunca estou sozinho. A melhor coisa é ficar sozinho, mas nem tanto assim.
À minha direita, o rádio trabalha duro me trazendo mais excelente música clássica.
Escuto isso por três a quatro horas por noite enquanto estou fazendo outras coisas, ou nada. É
minha droga, lava a sujeira do dia de dentro de mim. Os compositores clássicos conseguem
fazer isso por mim. Os poetas, os novelistas, os escritores de contos, não. Uma gangue de
fajutos. Existe alguma coisa em escrever que atrai os fajutos. O que é? Os escritores são os
mais difíceis de aguentar, nos livros ou ao vivo. E são piores ao vivo do que nos livros e isso é
muito ruim. E nós adoramos falar mal uns dos outros. Como eu.
Quanto a escrever, hoje escrevo basicamente da mesma forma que fazia há 50 anos,

talvez um pouco melhor, mas não muito. Por que tenho que chegar aos 51 para poder pagar o
aluguel com os meus livros? Quero dizer, se estou certo e escrevo igual, por que demorou
tanto? Tive que esperar que o mundo me entendesse? E, se ele me entende, como estou agora?
Mal, é isso. Mas não acho que não fiquei burro por acaso. Será que um cara burro se dá conta
que é? Mas estou longe de estar satisfeito. Há alguma coisa em mim que não consigo
controlar. Nunca dirijo meu carro por cima de uma ponte sem pensar em suicídio. Quero dizer,
não fico pensando nisso. Mas passa pela minha cabeça: SUICÍDIO. Como uma luz que pisca.
No escuro. Alguma coisa que faz você continuar. Saca? De outra forma, seria apenas loucura.
E não é engraçado, colega. E cada vez que escrevo um bom poema, é mais uma muleta que me
faz seguir em frente. Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os
sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora? A vida me fode, não nos
damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes
de merda. Não me surpreende que os hospícios e as cadeias estejam cheios e que as ruas
estejam cheias. Gosto de olhar os meus gatos, eles me acalmam. Eles me fazem sentir bem.
Mas não me coloque em uma sala cheia de humanos. Nunca faça isso comigo. Especialmente
numa festa. Não faça isso.
Ouvi falar que encontraram minha primeira mulher morta, na Índia, e que ninguém da
família quis o corpo. Pobre garota. Ela tinha o pescoço aleijado, não virava. Fora isso, era
perfeitamente linda. Ela se divorciou de mim e devia ter feito isso. Não fui bom ou generoso o
suficiente para salvá-la.

21/09/91

21:27

Fui à estreia de um filme ontem à noite. Tapete vermelho. Lâmpadas de flash. Festa
depois. Duas festas depois. Pouco ouvi do que foi dito. Gente demais. Quente demais. Na
primeira festa, fui encurralado no bar por um cara jovem com olhos muito redondos que nunca
piscavam. Não sei o que ele tinha tomado. Ou não tinha tomado. Muitas pessoas estavam
assim por ali. O cara estava com três garotas bem bonitas e ele ficava me falando o tempo
todo como elas gostavam de chupar pau. As garotas apenas sorriam e diziam: "É sim!". E toda
a conversa continuou desse jeito. Sem parar. Eu tentava adivinhar se era verdade ou se
estavam me enganando. Mas depois de um tempo me cansei daquilo. Mas o cara continuava
me pressionando, falando de como as garotas gostavam de chupar pau. Seu rosto ia ficando
cada vez mais perto e ele continuava falando. Finalmente, estendi o braço, agarrei-o pela
camisa, com força, e o segurei assim e disse: "Escute, não ficaria bem um cara de 71 anos tirar
o seu couro na frente de toda essa gente, ficaria?". Daí, eu o larguei. Foi para outro lado do
bar, seguido por suas garotas. Não consegui entender nada.

Acho que estou acostumado a me sentar num quartinho e fazer com que as palavras tenha
algum sentido. Já vejo o suficiente da humanidade nos hipódromos, nos supermercados, nos
postos de gasolina, nas estradas, nos cafés etc. Não se pode evitar. Mas tenho vontade de me
dar um chute na bunda quando vou a festas, mesmo que a bebida seja de graça. Nunca
funciona comigo. Já tenho argila suficiente para brincar. As pessoas me esvaziam. Preciso sair
para me reabastecer. Sou o que é melhor para mim, sentado aqui atirado, fumando um
baseadinho e vendo as palavras brilharem na tela. Raramente encontro uma pessoa rara ou
interessante. É mais que perturbador, é um choque constante. Está me tornando um maldito
mal-humorado. Qualquer um pode ser um maldito mal-humorado, e a maioria é. Socorro!
Só preciso de uma boa noite de sono. Mas antes, nunca uma maldita coisa para ler.
Depois que você lê uma certa quantidade de literatura decente, simplesmente não há mais
nada. Nós mesmos temos que escrever. Não há entusiasmo. Mas espero acordar de manhã. E
na manhã em que eu não acordar, tudo bem. Não precisarei mais de persianas, lâminas de
barbear, programas dos páreos ou secretárias eletrônicas. De qualquer forma, o telefone é, em
geral, para minha mulher. Os Sinos Não Dobram por Mim[1].
Dormir, dormir. Durmo de barriga para baixo. Velho hábito. Vivi com mulheres loucas
demais. Tinha que proteger as partes privadas. Pena que o cara da festa não me enfrentou.

Estava a fim de chutar um traseiro. Teria me alegrado imensamente. Boa noite.
[1]. The Bells do not Toll for Me. Trocadilho entre a companhia telefônica Bell e Toll (tarifa) com o título do famoso livro
de Hemingway Por quem os sinos dobram. (N. da T.)

25/09/91

00:28

Maldita noite quente, os gatos estão num estado deplorável, no meio de todo aquele pelo,
olham para mim e não posso fazer nada. Linda saiu para algum lugar. Ela precisa de coisas
para fazer, de pessoas para conversar. Tudo bem pra mim, mas ela tende a beber e precisa
voltar dirigindo. Não sou boa companhia, não gosto de conversar. Não quero trocar ideias ­ ou
almas. Sou apenas um bloco de pedra para mim mesmo. Quero ficar dentro do bloco, sem ser
perturbado. Foi assim desde o começo. Resisti a meus pais, resisti à escola e depois resisti a
tornar-me um cidadão decente. O que quer que eu fosse, fui desde o começo. Não queria que
ninguém mexesse com isso. E ainda não quero.
Acho que as pessoas que têm cadernos e anotam seus pensamentos são umas cretinas. Só
estou fazendo isso porque alguém sugeriu que eu o fizesse. Como você vê, não sou nem
mesmo um cretino original. Mas isso, de alguma forma, faz com que seja mais fácil. Só deixo
rolar. Como uma bosta quente ladeira abaixo.
Não sei o que fazer com o hipódromo. Acho que está perdendo a graça pra mim. Estava
hoje no Hollywood Park, apostas entre hipódromos, 13 páreos do Fairplex Park. Depois do 7o
páreo, estou ganhando US$ 72. E daí? Isso vai tirar alguns destes cabelos brancos das minhas
sobrancelhas? Vai me transformar em um cantor de ópera? O que eu quero? Estou apostando
num jogo difícil, estou apostando uma chance de 18 por cento. Faço muito isso. Assim, não
deve ser muito difícil. O que eu quero? Realmente não me importo se existe um Deus ou não.
Não me interessa. Então, que diabos é 18 por cento?
Olho e vejo o mesmo cara falando. Fica no mesmo lugar todos os dias falando com essa
ou aquela pessoa ou pessoas. Segura o Programa dos Páreos e fala sobre os cavalos. Que saco!
O que estou fazendo aqui?
Vou embora. Caminho até o estacionamento, pego meu carro e saio. São só quatro da
tarde. Outros saem junto. Somos lesmas caminhando sobre uma folha.
Então, chego na entrada da garagem, estaciono e saio. Tem um recado da Linda grudado
no telefone. Abro a caixa do correio. Uma conta de gás. E um grande envelope cheio de
poemas. Todos impressos em folhas separadas de papel. Mulheres falando sobre suas
menstruações, sobre suas tetas e peitos e sobre serem comidas. Completamente chato. Jogo no
lixo.
Então, dou uma cagada. Me sinto melhor. Tiro a roupa e entro na piscina. Água gelada.
Mas ótima. Caminho até a parte funda da piscina, a água subindo centímetro por centímetro,
me gelando. Daí, mergulho debaixo da água. É repousante. O mundo não sabe onde estou.
Subo, nado até a outra ponta, encontro o degrau, me sento. Deve estar no 9o ou no 10o páreo.
Os cavalos ainda estão correndo. Mergulho de novo na água, consciente da minha estúpida

brancura, da minha idade grudada em mim como uma sanguessuga. Mesmo assim, tudo bem.
Eu deveria ter morrido há 40 anos. Subo à superfície, nado até o outro lado, saio.
Isto foi há muito tempo. Estou aqui em cima agora com o Macintosh IIsi. E isto é tudo
por hoje. Acho que vou dormir. Descansar para ir ao hipódromo amanhã.

26/09/91

12:16

Recebi as provas do novo livro hoje. Poesia. Martin disse que vai dar umas 350 páginas.
Acho que os poemas são bons. Assalto ao trem[2]. Sou um velho trem a vapor, correndo para o
hipódromo.
Levei umas duas horas para ler. Tenho certa prática nisso. As linhas rolam livremente e
falam sobre o que quero que falem. Hoje, minha principal influência sou eu mesmo.
À medida que vivemos, caímos e somos destroçados por várias armadilhas. Ninguém
escapa delas. Alguns até mesmo convivem com elas. A ideia é se dar conta de que uma
armadilha é uma armadilha. Se você está numa e não se dá conta, você está fodido. Acho que
me dei conta da maioria das minhas armadilhas e escrevi sobre elas. É claro, nem tudo o que
escrevi foi sobre armadilhas. Existem outras coisas. Ainda assim, alguns dizem que a vida é
uma armadilha. Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que
agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores
tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi
escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado.
E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando
rio abaixo junto com a merda.
Cada nova linha é um começo e não tem nada a ver com as linhas que a precederam.
Todos começamos como novos, a cada vez. E, é claro, isto não tem nada de sagrado. O mundo
pode viver muito mais facilmente sem livros do que sem encanamentos. E alguns lugares do
mundo quase não têm nenhum dos dois. É claro, preferia viver sem encanamento, mas preciso
dele porque estou doente.
Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se
um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais
força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando
um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz
você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você
vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela,
mande-a. Seja o Palhaço nas Trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha...

[2]. The poems hold up. Uphold. ­ Acho que os poemas são bons. Assalto a trem.

26/09/91

23:36

Um título para o novo livro. Fiquei sentado no hipódromo tentando pensar em um. Este é
um lugar onde se pode pensar. Suga seu cérebro e seu espírito. É um chupar de pau até esgotar,
é isso que aquele lugar é. E não tenho dormido bem à noite. Alguma coisa está roubando a
minha energia.
Vi o solitário hoje no hipódromo. "Como vai, Charles?" "Tudo bem", disse pra ele e me
afastei. Ele quer camaradagem. Quer falar sobre coisas. Cavalos. Você não fala sobre cavalos.
É a ÚLTIMA coisa sobre a qual você fala. Alguns páreos já passaram e o flagrei me olhando
por cima da máquina de apostas automáticas. Coitado. Fui pra fora, me sentei e um guarda
começou a falar comigo. Bom, são chamados de seguranças. "Estão mudando o placar", disse
ele. "É", respondi. Tinham tirado a coisa do chão e a estavam mudando mais para o oeste.
Bom, tinham feito gente trabalhar. Eu gostava de ver homens trabalhando. Achei que o
segurança estava falando comigo para descobrir se eu era louco ou não. Provavelmente, não
era por isso. Mas fiquei com essa ideia. Deixo que as ideias saltem de mim assim. Cocei
minha barriga e fingi ser um cara velho e legal. "Vão voltar a encher os lagos", eu disse. "É",
ele disse. "Este lugar costumava se chamar o Hipódromo dos Lagos e das Flores." "É
mesmo?", disse ele. "É", contei a ele, "havia um concurso da Garota Ganso. Escolhiam uma
garota ganso e ela saía de barco, remando entre os gansos. Uma tarefa bem chata." "É", disse o
guarda. Ele ficou lá parado. Me levantei. "Bom", eu disse, "vou pegar um café. Não se canse."
"Claro", disse ele, "boa sorte." "Pra você também, cara", disse eu. Daí, me afastei.
Um título. Minha cabeça estava vazia. Estava ficando frio. Sendo macaco velho, achei
melhor pegar meu casaco. Desci pela escada rolante do 4o andar. Quem inventou a escada
rolante? Degraus que se movem. E depois falam de loucura. Pessoas subindo e descendo em
escadas rolantes, elevadores, dirigindo carros, tendo portas de garagem que se abrem ao tocar
de um botão. Depois elas vão para as academias queimar a gordura. Daqui a 4.000 anos, não
teremos pernas, nos arrastaremos sobre nossas bundas, ou talvez só rolemos como
tumbleweeds[3]. Cada espécie destrói a si mesma. O que matou os dinossauros foi que eles
comeram tudo à sua volta e depois tiveram que comer uns aos outros e com isso só restou um
e o filho da puta morreu de fome.
Desci até o meu carro, peguei o casaco, vesti-o e subi as escadas rolantes de volta. Isso
me fez sentir mais como um playboy, um gigolô ­ saindo do lugar e depois voltando. Me senti
como se tivesse consultado alguma fonte secreta especial.
Bem, fiz as apostas, tive alguma sorte. Lá pelo 13o páreo, ficou escuro e começou a
chover. Apostei dez minutos antes e fui embora. O trânsito apavora os motoristas de L.A.
Entrei na freeway atrás de um mar de lanternas vermelhas. Não liguei o rádio. Queria silêncio.
Um título me passou pela cabeça: Bíblia para os desencantados. Não, não é bom. Lembrei de
alguns dos melhores títulos. Quero dizer, de outros escritores. Curve-se à madeira e às pedras.
Grande título, péssimo escritor. Notas do underground. Grande título. Grande escritor.

Também, O coração é um caçador solitário. Carson McCullers, um escritor muito
subestimado. De todas as minhas dezenas de títulos, o que mais gostei foi Confissões de um
homem insano o suficiente para viver com bestas. Mas gastei esse em um pequeno panfleto
mimeografado. Azar.
Então, a freeway entupiu e eu fiquei lá, sentado. Nenhum título. Minha cabeça estava
vazia. Tive vontade de dormir por uma semana. Fiquei contente por ter colocado as latas de
lixo na rua. Estava cansado. Agora não preciso mais fazer isso. Latas de lixo. Uma noite
dormi, bêbado, em cima de latas de lixo. New York City. Fui acordado por um enorme rato
sentado na minha barriga. Nós dois, de uma só vez, pulamos quase um metro pra cima. Eu
estava tentando ser um escritor. Hoje, eu deveria ser um e não consegui pensar num título. Eu
era uma fraude. O trânsito começou a se movimentar e fui atrás. Ninguém sabia o que os
outros eram e isso era ótimo. Então, um grande raio caiu sobre a freeway e, pela primeira vez
naquele dia, me senti muito bem.
[3]. Tumbleweeds: arbusto seco que rola com o vento pelos desertos. (N. da T.)

30/09/91

23:36

Assim, depois de alguns dias de cabeça vazia, acordei esta manhã e havia um título,
surgiu enquanto eu dormia: Poemas da Última Noite da Terra. Era adequado ao conteúdo,
poemas sobre o fim, doença e morte. Misturados com outros, é claro. Talvez um pouco de
humor. Mas o título funciona para este livro e para esta vez. Quando você consegue um título,
ele engloba tudo, os poemas encontram sua ordem. E eu gosto do título. Se visse um livro com
um título assim, o pegaria e tentaria ler algumas páginas. Alguns títulos exageram para
chamar a atenção. Não funcionam, porque a mentira não funciona.
Bom, terminei isto. E agora? De volta à novela e mais poemas. O que aconteceu com o
conto? Me abandonou. Existe uma razão, mas eu não sei qual é. Se pensasse bem nisso,
poderia encontrar a razão, mas pensar nisso não ajudaria em nada. Isto é, esse tempo poderia
ser usado para a novela ou o poema. Ou para cortar minhas unhas dos pés.
Sabe, alguém deveria inventar um alicate decente para as unhas do pé. Tenho certeza de
que pode ser feito. Os que eles nos dão são totalmente desajeitados e decepcionantes. Li que
um marginal tentou assaltar uma loja de bebidas com um alicate de unha do pé. Também não
funcionou. Como Dostoievsky cortava suas unhas do pé? Van Gogh? Beethoven? Cortavam?
Não acredito. Eu costumava deixar que Linda fizesse isso. Ela fazia um trabalho excelente ­
só de vez em quando tirava um pedaço de carne. Eu já senti dor o suficiente. De qualquer tipo.
Sei que vou morrer logo e isso me parece estranho. Sou egoísta, gostaria de continuar a
escrever mais palavras. Isso me dá um brilho, me joga no ar dourado. Mas, na verdade, por
quanto tempo posso continuar ainda? Não é certo continuar. Diabos, de qualquer forma, a
morte é a gasolina no tanque. Nós precisamos dela. Eu preciso. Você precisa. Nós
emporcalhamos o lugar se demorarmos demais.
A coisa mais estranha, acho, depois que as pessoas morrem, é olhar os seus sapatos. É a
coisa mais triste. É como se a maior parte da sua personalidade permanecesse em seus sapatos.
As roupas, não. Está nos sapatos. Ou num chapéu. Ou num par de luvas. Pegue uma pessoa que
recém morreu. Coloque seu chapéu, suas luvas e seus sapatos na cama, olhe para eles e você
enlouquece. Não faça isso. De qualquer forma, agora elas sabem algo que você não sabe.
Talvez.
Último dia de corridas hoje. Fiz o jogo entre hipódromos no Hollywood Park, apostando
no Fairplex Park. Apostei em todos os 13 páreos. Tive um dia de sorte. Saí totalmente
rejuvenescido e fortalecido. Nem mesmo me senti de saco cheio lá hoje. Me senti lépido e
faceiro. Quando você está bem, é ótimo. Você repara nas coisas. Como quando, dirigindo de
volta, você repara no volante do seu carro. O painel de instrumentos. Você se sente como
numa maldita espaçonave. Você costura no trânsito, elegantemente, não grosseiramente ­
medindo distâncias e velocidades. Coisa idiota. Mas não hoje. Você está por cima e fica por
cima. Que estranho. Mas você não luta contra isso. Porque você sabe que não vai durar. Dia
livre amanhã. Corrida de Oaktree, 2 de outubro. As corridas não param, milhares de cavalos

correndo. Tão sensatos quanto as marés, parte deles.
Até percebi um carro da polícia me seguindo na Harbor Freeway sul. A tempo. Diminuí
para 90. De repente, ele ficou para trás. Mantive os 90. Eles quase me pegaram a 120. Eles
odeiam os Acura. Fiquei nos 90. Por cinco minutos. Passaram por mim a mais de 120. Adeus,
amigo. Odeio ser multado, como todo mundo. Você tem que usar o espelho retrovisor o tempo
todo. É simples. Mas é provável que você acabe sendo pego. E quando for, agradeça por não
estar bêbado ou carregando drogas. Se você não estiver. De qualquer forma, já foi multado.
E agora estou aqui em cima com o Macintosh e há um maravilhoso espaço à minha
frente. Música horrível no rádio, mas não se pode esperar um dia 100 por cento. Se conseguir
51, você ganhou. Hoje foi um 97.
Vejo que Mailer escreveu uma enorme novela nova sobre a CIA e etc. Norman é um
escritor profissional. Uma vez, perguntou à minha mulher: "O Hank não gosta dos meus
livros, não é?". Norman, poucos escritores gostam do trabalho dos outros escritores. Eles só
gostam deles quando morrem ou se já morreram há muito tempo. Os escritores só gostam de
cheirar a própria merda. Sou um desses. Não gosto nem mesmo de falar com escritores, de vêlos ou, pior, de ouvi-los. E o pior é beber com eles, se babam todos, realmente são
lamentáveis, parece que estão procurando pela asa da mãe.
Prefiro pensar sobre a morte do que sobre escritores. Muito mais agradável.
Vou desligar esse rádio. Os compositores às vezes estragam tudo. Se eu tivesse que falar
com alguém, acho que preferiria muito mais um cara que conserta computadores ou um agente
funerário. Com bebida ou sem bebida. De preferência, com.

02/10/91

23:03

A morte vem para aqueles que esperam e aqueles que não esperam. Dia escaldante, hoje,
maldito dia escaldante. Saí do correio e meu carro não pegou. Bom, eu sou um cidadão
decente. Sou membro do Auto Club. Assim, precisei de um telefone. Há 40 anos, havia
telefones em todo lado. Telefones e relógios. Você sempre podia olhar para o lado e ver que
horas eram. Isto não existe mais. Não há mais hora grátis. E os telefones públicos estão
desaparecendo.
Fui por instinto. Fui ao correio, desci uma escada e lá, num canto escuro, sozinho e sem
ser anunciado, estava um telefone. Um telefone sujo e grudento. Não havia outro num raio de
três quilômetros. Sabia como fazer um telefone funcionar. Talvez. Informações. A voz da
telefonista surgiu e achei que estava salvo. Era uma voz calma e entendiada e me perguntou
que cidade eu queria. Disse a cidade e o autoclube. (Você tem que saber como fazer as
pequenas coisas e você tem que fazê-las sem parar ou está morto. Morto nas ruas. Ignorado,
indesejável.) A moça me deu um número, mas era o número errado. Do escritório. Depois
consegui a oficina. Uma voz de macho, calma, cansada, mas combativa. Maravilhoso. Dei a
ele a informação. "30 minutos", ele disse.
Voltei ao carro, abri uma carta. Era um poema. Cristo. Era sobre mim. E ele. Nos
encontramos, parece, duas vezes, há 15 anos. Ele também tinha me publicado em sua revista.
Eu era um grande poeta, ele disse, mas eu bebia. E tinha vivido uma vida desgraçada e
marginal. Hoje, os jovens poetas bebiam e viviam vidas miseráveis e marginais porque eles
achavam que era assim que se fazia. Também, que eu tinha atacado outras pessoas em meus
poemas, inclusive ele. E que eu tinha imaginado que ele tinha escrito poemas desfavoráveis
sobre mim. Não é verdade. Ele era uma pessoa legal, disse que tinha publicado vários outros
poetas em sua revista, por 15 anos. E eu não era uma pessoa legal. Eu era um grande escritor,
mas não uma pessoa legal. E ele nunca teria se "amigado" comigo. Foi isso que ele escreveu:
"amigado". E ele escrevia "vosê" o tempo todo em vez de "você"... A ortografia dele não era
boa.
Estava quente dentro do carro. Fazia 39 graus, o primeiro de outubro mais quente desde
1906.
Eu não ia responder à sua carta. Ele escreveria de novo.
Outra carta de um agente, contendo o trabalho de um escritor. Dei uma olhada. Ruim. É
claro. "Se você tiver qualquer sugestão sobre seu texto ou qualquer dica de publicação,
gostaríamos muito..."
Outra carta de uma senhora me agradecendo por eu ter escrito algumas linhas ao seu
marido e feito um desenho por sua sugestão, que isto o tinha deixado muito feliz. Mas agora
estavam divorciados e ela estava fazendo trabalhos free lance e ela poderia vir e me
entrevistar?
Duas vezes por semana recebo pedidos de entrevistas. Não há muito o que dizer. Existem

muitas coisas para se escrever, mas não para se falar.
Lembro de uma vez, nos velhos tempos, de um jornalista alemão que me entrevistou.
Enchi-o de vinho e falamos por quatro horas. Depois disso, ele se inclinou para frente, bêbado,
e disse: "Não sou um jornalista. Só queria uma desculpa para te ver"...
Joguei as cartas de lado e fiquei sentado esperando. Daí vi o caminhão-guincho. Um cara
jovem e sorridente. Um garoto legal. Claro.
"EI, GAROTO!", gritei, "AQUI!"
Ele deu uma ré, saí do carro e contei o problema.
"Me reboca até a oficina Acura", disse para ele.
"O carro ainda está na garantia?", perguntou.
Ele sabia muito bem que não estava. Estávamos em 1991 e eu estava dirigindo um
modelo 1989.
"Não interessa", disse eu, "me reboca até a loja Acura."
"Eles vão levar um tempão para consertar, talvez uma semana."
"Claro que não, eles são bem rápidos."
"Escute", disse o garoto, "temos nossa própria oficina. Podemos levar o carro lá, talvez
consertá-lo hoje. Se não, nós te registramos e telefonamos assim que possível."
Naquele momento, visualizei meu carro na sua oficina por uma semana. Pra me dizerem
que eu precisava de um novo eixo excêntrico. Ou fixar as cabeças de cilindro.
"Me reboca para a Acura", eu disse.
"Espere", disse o garoto. "Tenho que ligar para o chefe primeiro."
Esperei. Ele voltou.
"Ele disse pra fazer pegar no tranco."
"O quê?"
"Pegar no tranco."
"Tudo bem. Vamos lá."
Entrei no meu carro e deixei que escorregasse até o caminhão. Ele me puxou um pouco e
o carro deu a partida imediatamente. Assinei os papéis e ele foi embora e eu fui embora...
Então, decidi deixar o carro na oficina da esquina.
"Nós conhecemos você. Você tem vindo aqui há anos", disse o gerente.
"Legal", disse eu, e sorri: "Então, não me sacaneiem."
Ele só me olhou.
"Nos dê 45 minutos."
"Tudo bem."
"Precisa de uma carona?"
"Claro."
Apontou. "Ele te leva."
Um garoto legal parado ali. Fomos até o carro dele. Dei o endereço a ele. Subimos a
colina.
"Você ainda está fazendo filmes?", me perguntou.
Eu era uma celebridade, sabe.
"Não", eu disse. "Foda-se Hollywood."

Ele não entendeu aquilo.
"Pare aqui", eu disse.
"Ei, esta casa é grande."
"Eu só trabalho aqui", disse eu.
Era verdade.
Saí do carro. Dei dois dólares a ele. Ele protestou, mas ficou com eles.
Andei pelo caminho da entrada. Os gatos estavam espalhados por ali, esgotados. Na
minha próxima vida, quero ser um gato. Dormir 20 horas por dia e esperar ser alimentado.
Sentar por aí lambendo meu cu. Os humanos são desgraçados demais, irados demais,
obcecados demais.
Fui pra cima e sentei na frente do computador. É o meu novo consolador. Meu trabalho
dobrou em potência e produção desde que o comprei. É uma coisa mágica. Sento na frente dele
como a maioria das pessoas senta na frente dos seus aparelhos de TV.
"É só uma máquina de escrever melhorada", me disse meu genro uma vez.
Mas ele não é um escritor. Ele não sabe o que é quando as palavras surgem no espaço,
brilham na luz, quando os pensamentos que vêm na sua cabeça podem ser seguidos
imediatamente por palavras, que encorajam mais pensamentos e mais palavras a seguir. Com
uma máquina de escrever, é como caminhar na lama. Com um computador, é como patinar no
gelo. É uma rajada brilhante. Claro, se não há nada dentro de você, não importa. E depois tem
o trabalho de limpeza, as correções. Diabos, eu costumava escrever tudo duas vezes. A
primeira, para colocar as ideias, e a segunda, para corrigir os erros. Assim, é uma vez só para o
divertimento, a glória e a fuga.
Imagino qual será o próximo passo depois do computador. Provavelmente, você só
apertará os dedos nas têmporas e sairá esse monte de palavras perfeitas. É claro, você terá que
encher o tanque antes de começar, mas tem sempre os sortudos que conseguem fazer isso.
Espero.
O telefone tocou.
"É a bateria", ele disse, "você precisava de uma bateria nova."
"E se eu não puder pagar?"
"Daí vamos ficar com a sua estepe."
"Já vou aí."
E assim que comecei a descer a ladeira, ouvi meu vizinho idoso. Estava gritando para
mim. Subi a escadaria da sua casa. Ele estava vestido com calças de pijama e um velho abrigo
cinza. Fui até ele e o cumprimentei com um aperto de mãos.
"Quem é você?", perguntou.
"Sou seu vizinho. Moro aqui há dez anos."
"Tenho 96 anos", disse ele.
"Eu sei, Charley."
"Deus não quer me levar porque Ele tem medo que eu fique com o emprego dele."
"Você poderia."
"Poderia ficar com o trabalho do Diabo, também."
"Poderia."

"Quantos anos você tem"?
"71."
"71?"
"É."
"Isso é ser velho também."
"É, eu sei, Charley."
Apertamos as mãos e desci as escadas e depois ladeira abaixo, passando pelas plantas
cansadas, pelas casas cansadas.
Eu estava a caminho do posto de gasolina.
Mais um dia chutado no traseiro.

10/03/91

23:56

Hoje foi o segundo dia de apostas entre hipódromos. Em Oak Tree, onde os cavalos
estavam correndo ao vivo, com transmissão pela TV, havia apenas 7.000 pessoas. Muita gente
não quer dirigir aquele longo caminho até Arcadia. Para aqueles que vivem na parte sul da
cidade, isto significa tomar a Harbor Freeway, depois a Pasadena Freeway e depois disso mais
um tempo nas ruas da cidade para chegar ao hipódromo. É um caminho longo e quente, para ir
e voltar. Sempre chego totalmente exausto.
Um escovador me ligou. "Não havia ninguém lá. É o fim. Preciso de um novo emprego.
Acho que vou comprar um processador de texto e me tornar um escritor. Vou escrever sobre
você..."
Sua voz estava na secretária eletrônica. Telefonei de volta pra ele e o cumprimentei por
ter chegado em 2o numa aposta 6 pra 1. Mas ele estava de cara.
"O escovador está acabado. É o fim", disse ele.
Bom, veremos quantos vão aparecer amanhã. Sexta. Provavelmente mais uns mil. Não
são as apostas entre hipódromos, é a economia. As coisas estão piores do que o governo ou a
imprensa admitem. Aqueles que ainda estão vivos na economia se calam. Imagino que o maior
negócio é a venda de drogas. Diabos, acabem com isso e quase todos os jovens vão ficar
desempregados. Eu ainda sobrevivo como escritor, mas isto pode acabar da noite para o dia.
Bem, ainda tenho minha pensão de idoso: US$ 943,00 por mês. Eles me deram isso quando fiz
70 anos. Mas isso também pode terminar. Imaginem todos os velhos perambulando pelas ruas
sem as suas pensões. Não ignorem esta possibilidade. A dívida nacional pode nos puxar para
baixo como um polvo gigante. As pessoas vão estar dormindo nos cemitérios. Ao mesmo
tempo, há uma crosta de ricos que vivem acima da podridão. Isto não é incrível? Algumas
pessoas têm tanto dinheiro que nem mesmo sabem quanto têm. E estou falando de milhões. E
olhe para Hollywood, lançando filmes de 60 milhões de dólares, tão idiotas quantos os pobres
bobos que vão assisti-los. Os ricos ainda estão lá, sempre encontram uma forma de mamar no
sistema.
Lembro de quando os hipódromos estavam cheios de pessoas, ombro a ombro, bunda a
bunda, suando, gritando, se empurrando até os bares lotados. Era uma época boa. Se o dia
fosse bom, você encontrava uma mulher no bar e, naquela noite em seu apartamento, vocês
dois estariam bebendo e rindo. Achávamos que aqueles dias (e noites) nunca terminariam. E
por que deveriam? Amassos nos estacionamentos. Jogos de pulso. Bravatas e glória.
Eletricidade. Diabos, a vida era boa, a vida era divertida. Todos nós éramos homens, não
levávamos desaforo de ninguém. E, francamente, era bom. Trago e uma trepada. E muitos
bares, bares lotados. Sem TV. Você falava e arranjava confusão. Se prendiam você por estar
bêbado na rua, eles só deixavam você preso durante a noite para passar a bebedeira. Você
perdia empregos e encontrava outros. Não havia por que ficar no mesmo lugar. Que época!
Que vida! Loucuras estavam sempre acontecendo, seguidas por outras loucuras.

Hoje, as coisas estão em banho-maria. Sete mil pessoas em um grande hipódromo numa
tarde ensolarada. Ninguém no bar. Apenas um solitário barman segurando uma toalha. Onde
estão as pessoas? Há mais pessoas do que nunca, mas onde estão elas? Paradas numa esquina,
sentadas numa sala. O Bush pode ser reeleito porque ganhou uma guerra fácil. Mas ele não fez
nada pela economia. Você nem mesmo sabe se seu banco vai abrir amanhã. Não quero ficar
me lamentando. Mas você sabe, nos anos 30 pelo menos todo mundo sabia onde estava. Hoje,
é um jogo de espelhos. E ninguém tem bem certeza do que o sustenta. Ou para quem estão
trabalhando na verdade. Se estiverem trabalhando.
Merda, tenho que sair disso. Ninguém parece estar se importando com o estado de coisas.
Ou, se está, está em algum lugar que ninguém consegue ouvi-lo.
E eu fico por aí escrevendo poemas, uma novela. Não posso evitar, não consigo fazer
outra coisa.
Fui pobre por 60 anos. Agora, não sou rico nem pobre.
No hipódromo, vão começar a despedir pessoas nos guichês, nos estacionamentos, na
administração e na manutenção. Vão diminuir os prêmios. Pistas menores. Menos jóqueis.
Muito menos riso. O capitalismo sobreviveu ao comunismo. Hoje, ele se devora a si mesmo. A
caminho do ano 2000. Estarei morto e fora daqui. Deixando minha pequena pilha de livros.
Sete mil no hipódromo. Sete mil. Não acredito. A Sierra Madre chora no nevoeiro. Quando os
cavalos não correrem mais, o céu cairá, chato, amplo, maciço, esmagando tudo. Glassware
ganhou o 9o, pagou US$ 9,00. Tinha apostado dez nele.

09/10/91

12:07

A aula de computação foi um chute no saco. Você anda centímetro por centímetro e tenta
entender o todo. O problema é que os livros falam de um jeito e algumas pessoas, o oposto. A
terminologia se torna lentamente compreensível. O computador só faz, ele não sabe. Você
pode confundi-lo e ele se voltar contra você. Depende de você se dar bem com ele. Mesmo
assim, o computador pode ficar louco e fazer coisas estranhas. Pega vírus, entra em curto,
congela etc. De alguma forma, esta noite, acho que quanto menos eu falar sobre o computador,
melhor.
O que será que aconteceu com aquele repórter francês maluco que me entrevistou em
Paris tempos atrás? Aquele que bebia uísque como a maioria das pessoas bebe cerveja? E ele
ficava mais inteligente e interessante à medida que as garrafas se esvaziavam. Provavelmente
morto. Eu costumava beber 15 horas por dia, mas em geral era vinho e cerveja. Eu deveria
estar morto. Vou estar morto. Nada mal, pensando nisso. Tive uma existência estranha e
confusa, em grande parte horrível, baixaria total. Mas acho que foi a forma com que me
arrastei pela merda que fez a diferença. Hoje, olhando pra trás, acho que exibi certa
compostura e classe, independentemente do que estava acontecendo. Lembro de como os caras
do FBI estavam putos comigo na viagem de carro. "EI, ESSE CARA ESTÁ CALMO
DEMAIS", gritou um deles, furioso. Eu não tinha perguntado por que tinham me pegado ou
para onde estávamos indo. Não me importava. Apenas mais uma fatia da falta de sentido da
vida. "AGORA, ESPEREM", disse a eles. "Estou com medo." Isso pareceu fazer com que se
sentissem melhor. Para mim, eles eram como criaturas do espaço sideral. Não conseguíamos
nos relacionar. Mas era estranho. Eu não sentia nada. Bom, não era exatamente estranho para
mim, quero dizer que era estranho no sentido comum. Eu via apenas mãos, pés e cabeças. Eles
tinham decidido alguma coisa, dependia deles. Eu não buscava justiça ou lógica. Nunca
busquei. Talvez seja por isso que nunca escrevi nada de protesto social. Para mim, a estrutura
toda nunca fez nenhum sentido, seja o que fosse que fizessem com ela. Na verdade, você não
pode tornar alguma coisa boa se essa coisa não existe. Aqueles caras queriam que eu
demonstrasse medo, estavam acostumados a isso. Eu só estava de cara.
Aqui vou para a aula de computação. Mas é para o meu bem, brincar com as palavras,
meu único brinquedo. Só meditando aqui hoje à noite. A música clássica no rádio não está
muito boa. Acho que vou desligar e me sentar um pouco com minha mulher e os gatos. Nunca
pressione, force a palavra. Diabos, não há disputa e, certamente, pouquíssima competição.
Pouquíssima.

14/10/91

12:47

É claro, há alguns tipos estranhos no hipódromo. Tem um cara que está lá quase todos os
dias. Parece que ele nunca ganha um páreo. Depois de cada páreo, ele grita, espantado com o
cavalo que ganhou. "É UMA MERDA!", ele grita. E depois continua falando aos berros que o
cavalo nunca deveria ter ganho. Pelo menos por uns bons cinco minutos. Muitas vezes, o
cavalo devolve a pule em 3, 2, 5. Bem, um cavalo desses deve mostrar alguma coisa, ou as
apostas seriam muito mais altas. Mas para este senhor, isso não faz sentido. E que ele não
perca um photochart. Daí, ele vem fundo. "QUE DEUS SE FODA! ELE NÃO PODE FAZER
ISSO COMIGO!" Não tenho ideia de por que ele não é barrado no hipódromo.
Uma vez, perguntei a um outro cara: "Escute, como esse cara se sustenta?". Eu o tinha
visto falando com ele algumas vezes.
"Ele pede dinheiro emprestado", me disse.
"Mas ele não fica sem agiotas?"
"Ele descobre novos. Você sabe qual a sua expressão favorita?"
"Não."
"A que horas o banco abre de manhã?"
Acho que ele só quer estar no hipódromo, de alguma forma, só estar lá. Significa algo
para ele, mesmo que ele continue a perder. É o lugar onde estar. Um sonho louco. Mas lá é
chato. Um lugar confuso. Todo mundo acha que só eles sabem a resposta. Estúpidos egos
perdidos. Sou um deles. Só que, para mim, é um passatempo. Acho. Espero. Mas existe
alguma coisa lá, mesmo que por um curto período de tempo, muito curto, um instante, como
quando meu cavalo está correndo e depois ganha. Eu vejo isso acontecendo. Há uma animação,
uma subida. A vida quase faz sentido quando os cavalos fazem o que você pediu. Mas os
intervalos são muito chatos. Pessoas de pé por ali. Perdedores, na maioria. Começam a parecer
secos como pó. São sugados até secarem. Mas, sabe, quando me forço a ficar em casa, começo
a me sentir muito inquieto, doente, inútil. É estranho. As noites são sempre razoáveis, eu
escrevo à noite. Mas tenho que me livrar dos dias. Também sou doente, de certa forma. Não
estou enfrentando a realidade. Mas quem, diabos, quer fazer isso?
Isso me lembra uma vez que fiquei naquele bar em Filadélfia das cinco da manhã até as
duas da manhã seguinte. Parecia ser o único lugar onde eu poderia estar. Muitas vezes, nem
mesmo me lembrava de ir ao meu quarto e voltar. Parecia que eu estava sempre no banco do
bar. Eu estava fugindo da realidade. Não gostava dela.

Talvez, para esse cara, o hipódromo seja o que o bar era para mim.
Tudo bem, me diga alguma coisa útil. Ser um advogado? Um médico? Um deputado?
Isto também é uma bosta. Acham que não é uma bosta, mas é. Estão trancados num sistema e
não conseguem sair. E quase todo mundo não é muito bom no que faz. Não importa, estão no
casulo seguro.
Foi meio engraçado lá hoje. Estou falando do hipódromo de novo.
O Gritão Maluco estava lá, como sempre. Mas havia um outro cara, você podia ver que
havia algo errado com seus olhos. Eles pareciam furiosos. Ele estava parado ao lado do Gritão,
escutando. Então, ele ouviu as dicas do Gritão para o páreo seguinte. O Gritão era bom nisso.
E, evidentemente, Olhos Furiosos estava apostando nas dicas do Gritão.
O dia foi passando. Estava saindo do banheiro e então vi e ouvi. Olhos Furiosos estava
berrando para o Gritão: "Vá se foder, cale a boca! Vou te matar!". O Gritão virou de frente e
saiu caminhando e dizendo: "Por favor... Por favor...", de uma forma muito exaustiva e
repugnante. Olhos Furiosos o seguiu: "SEU FILHO DA PUTA! VOU TE MATAR!".
A segurança chegou, interceptou Olhos Furiosos e o levou embora. Evidentemente,
mortes não seriam toleradas no hipódromo.

Pobre Gritão. Ficou quieto o resto do dia. Mas ficou até o fim. Apostar, é claro, pode te
comer vivo.
Tive uma namorada que me disse uma vez: "Você está realmente em péssimo estado, vá
aos Alcoólicos Anônimos e aos Jogadores Anônimos ao mesmo tempo". Mas, na verdade, ela
não se importava com nenhuma destas coisas, só quando interferiam com os exercícios de
cama. Daí, ela as odiava.
Lembro de um amigo meu que era um jogador total. Uma vez, ele me disse: "Não me
importo se ganho ou se perco, só quero apostar".
Não sou assim, estive nas Filas de Sopa dos Indigentes por vezes demais. Não ter
dinheiro nenhum só tem uma leve pincelada de romantismo quando você é muito jovem.
De qualquer forma, o Gritão estava lá de novo no dia seguinte. A mesma coisa: vociferou
contra os resultados de cada páreo. De certa forma, é um gênio, porque ele nunca escolhe um
vencedor. Pense nisso. É uma coisa muito difícil de fazer. Quero dizer, mesmo se você não
sabe nada, você pode só escolher um número, qualquer número, digamos três. Você pode
apostar no três por dois ou três dias e é possível que finalmente consiga um vencedor. Mas
esse cara, não. Ele é uma maravilha. Sabe tudo de cavalos, tempos, variantes da pista, ritmo,
classe etc., mas ainda assim consegue escolher apenas os perdedores. Pense nisso. Depois
esqueça, se não você vai enlouquecer.
Ganhei US$ 275 hoje. Comecei a jogar em cavalos tarde, quando tinha 35 anos. Estou
com eles há 36 anos e acho que eles ainda me devem US$ 5.000. Se os deuses me derem mais
uns oito ou nove anos, morrerei empatado.
Bem, essa é uma meta que vale a pena perseguir, não acham?
Hem?

15/10/91

00:55

Demolido. Umas duas noites bebendo esta semana. Tenho que admitir que não me
recupero tão rápido como antes. A melhor coisa de estar cansado é que você não se sai (ao
escrever) com nenhuma proclamação extravagante e maluca. Não que seja ruim, exceto se isso
se tornar um hábito. A primeira coisa que se deve fazer ao escrever é salvar seu próprio rabo.
Se fizer isso, automaticamente será gostoso, divertido.
Um escritor que conheço está ligando para as pessoas, dizendo que escreve cinco horas
por noite. Imagino que tenhamos que ficar maravilhados com isso. Claro, será que vou ter que
repetir pra vocês? O que interessa é o que ele está escrevendo. Será que ele conta o tempo que
fala ao telefone como parte de suas cinco horas escrevendo?
Consigo escrever de uma a quatro horas, mas a quarta hora se esvai em quase nada.
Conheci um cara que me disse uma vez: "Fodemos a noite toda". Não é o mesmo cara que
escreve cinco horas por noite. Mas já se encontraram. Talvez devam se alternar, trocar. O cara
que escreve por cinco horas fode a noite toda, e o cara que fode a noite toda escreve durante
cinco horas. Ou talvez possam foder um ao outro enquanto outra pessoa escreve. Eu não, por
favor. Que a mulher escreva. Se houver uma...
Humm... sabe, estou me sentindo um pouco idiota esta noite. Fico pensando em Máximo
Gorky. Por quê? Não sei. De certa forma, parece que Gorky nunca existiu de verdade. É
possível acreditar que alguns escritores realmente existiram. Como Turgueniev ou D. H.
Lawrence. Acho que Hemingway está no meio do caminho. Ele estava lá de verdade, mas não
estava. Mas Gorky? Ele escreveu algumas coisas fortes. Antes da Revolução. Depois da
Revolução, sua obra começou a empalidecer. Não tinha muito do que falar mal. É como os que
protestam contra a guerra, precisam de uma guerra para crescer. Algumas pessoas se deram
bem protestando contra guerras. E quando não há uma guerra, elas não sabem o que fazer.
Como durante a Guerra do Golfo. Havia um grupo de escritores, poetas; tinham planejado um
enorme protesto contra a guerra, estavam prontos com seus poemas e seus discursos. De
repente, a guerra terminou. E o protesto estava marcado para uma semana depois. Mas eles
não cancelaram. Fizeram de qualquer forma. Porque queriam estar no palco. Precisavam disso.
Foi algo como um índio fazendo a Dança da Chuva. Eu mesmo sou contra a guerra. Era contra
a guerra há muito tempo atrás, quando isto não era nem mesmo uma coisa popular, decente e
intelectual. Mas desconfio da coragem e dos motivos de muitos dos que protestam contra a
guerra profissionalmente. De Gorky para isso, o quê? Deixe a cabeça divagar, quem se
importa?
Outro bom dia no hipódromo. Não se preocupem, não estou ganhando todo o dinheiro.
Geralmente, aposto US$ 10 ou US$ 20 para ganhar ou, quando acho que vou me dar muito
bem, subo pra US$ 40.
Os hipódromos confundem ainda mais as pessoas. Eles têm dois caras na TV antes de
cada páreo e falam sobre quem eles acham que vai ganhar. Mostram as probabilidades de cada

corrida. Assim como todos os bookmakers, as barbadas e os serviços de apostas. Mesmo os
computadores não conseguem determinar os cavalos, independentemente da quantidade de
informações que é fornecida. Cada vez que você paga alguém para dizer a você o que deve
fazer, você é um perdedor. E isto inclui seu psiquiatra, seu psicólogo, seu operador da bolsa de
valores, seu professor e seu etc.
Não há nada que ensine mais do que se reorganizar depois do fracasso e seguir em frente.
Mas a maioria das pessoas fica paralisada de medo. Elas têm tanto medo do fracasso que
acabam fracassando. Estão condicionadas demais, acostumadas demais que digam o que
devem fazer. Começa com a família, passa pela escola e entra no mundo dos negócios.
Veja, tenho alguns dias bons no hipódromo e, de repente, sei tudo.
Há uma porta aberta para a noite e estou sentado aqui, congelando, mas não vou me
levantar e fechar a porta porque as palavras estão fugindo e gosto demais disso para parar.
Mas, merda, eu vou. Vou levantar, fechar a porta e mijar.
Pronto, já fiz. Ambas as coisas. Até pus um blusão. Velho escritor põe blusão, senta, sorri
para a tela do computador e escreve sobre a vida. Seremos tão santos? E, meu Deus, você já
pensou quanto mijo uma pessoa mija durante toda a vida? O quanto ela come, caga?
Toneladas. Horrível. É melhor morrermos e sairmos daqui, estamos envenenando tudo com o
que expelimos. As malditas dançarinas, elas também fazem isso.
Não há cavalos amanhã. Terça-feira é um dia de folga.
Acho que vou descer e sentar com minha mulher, ver um pouco da estúpida TV. Estou
sempre no hipódromo ou nesta máquina. Talvez ela goste disso. Espero. Bem, aqui vou eu.
Sou um cara legal, sabe? Descer. Deve ser estranho viver comigo. É estranho pra mim.
Boa noite.

20/10/91

00:18

Esta é uma dessas noites em que não há nada. Imagine se fosse sempre assim. Vazio.
Apático. Sem luz. Sem dança. Nem mesmo insatisfação.
Assim, não se tem o bom senso de cometer suicídio. A ideia simplesmente não ocorre.
Levantar. Coçar-se. Beber um pouco d'água.
Me sinto como um cachorro vira-lata em julho, só que é outubro.
Mesmo assim, tive um bom ano. Montes de páginas estão na prateleira atrás de mim.
Escritas desde 18 de janeiro. É como um louco em liberdade. Ninguém são escreveria tantas
páginas. É uma doença.
Este ano também foi bom porque mantive os visitantes afastados, mais do que nunca. Só
fui enganado uma vez. Um homem me escreveu de Londres, disse que tinha sido professor em
Soweto. E quando leu um pouco de Bukowski para seus alunos, muitos demonstraram um
grande interesse. Crianças africanas negras. Gostei daquilo. Sempre gostei de acontecimentos
a distância. Mais tarde, esse homem me escreveu, dizendo que trabalhava para o Guardian e
que gostaria de vir aqui me entrevistar. Pediu meu telefone, via correio, e eu dei a ele. Ele me
ligou. Parecia legal. Combinamos uma data e uma hora e ele estava a caminho. Chegou a data
e a hora e lá estava ele. Linda e eu oferecemos vinho e ele começou. A entrevista parecia legal,
só meio excêntrica, estranha. Ele fazia uma pergunta, eu respondia e ele começava a falar de
algumas experiências que teve, mais ou menos relacionando-as com a resposta que eu tinha
dado. O vinho continuava rolando e a entrevista acabou. Continuamos bebendo e ele falou da
África etc. Seu sotaque começou a mudar, a alterar e a ficar, acho, mais grosseiro. E ele
parecia estar ficando cada vez mais burro. Começou a mudar bem na nossa frente. Entrou em
sexo e ficou aí. Gostava de garotas negras. Eu disse que não conhecia muitas, mas que Linda
tinha uma amiga mexicana. Foi o suficiente. Começou a falar do quanto gostava de garotas
mexicanas. Ele tinha que conhecer essa garota mexicana. Era uma necessidade. Dissemos,
bem, talvez. Ele continuou sem parar. Estávamos bebendo vinho, mas agia como se tivesse
bebido uísque. Logo, se limitou a falar "Mexicana... Mexicana... onde está esta garota
mexicana?" Ele se dissolveu completamente. Era apenas um bêbado de bar, babão e sem
sentido. Disse a ele que a noite tinha terminado. Tinha que ir ao hipódromo no dia seguinte.
Nós o empurramos para a porta. "Mexicana... mexicana", dizia.
"Você vai nos mandar uma cópia da entrevista, não é?", perguntei.
"É claro, é claro", disse ele. "Mexicana..."
Fechamos a porta e ele foi embora.

Tivemos que beber para tirá-lo da cabeça.
Isso foi meses atrás. O artigo jamais chegou. Ele não tinha nada a ver com o Guardian.
Não sei se ele tinha ligado mesmo de Londres. Provavelmente, tinha ligado de Long Beach. As
pessoas usam o truque da entrevista para entrar pela minha porta. E como geralmente não
pagam por uma entrevista, qualquer um pode chegar e bater na porta com um gravador e uma
lista de perguntas. Um cara com sotaque alemão veio uma noite com um gravador. Disse que
pertencia a uma publicação alemã que tinha uma circulação de milhões. Ficou horas. Suas
perguntas pareciam burras, mas eu me abri, tentei fazer com que a entrevista fosse animada e
boa. Ele deve ter gravado umas três horas de fita. Bebemos, bebemos e bebemos. Logo, sua
cabeça começou a cair pra frente. Fizemos que bebesse além da conta e estávamos prontos
para seguir adiante. Nos divertimos muito. Sua cabeça caía sobre seu peito. Pequenas gotas de
baba escorriam pelos cantos da boca. Eu o sacudia. "Ei! Ei! Acorde!" Despertou e me olhou.
"Tenho que te falar uma coisa", disse ele. "Não sou um repórter, só queria vir aqui ver você."
Houve épocas em que fui um trouxa também para fotógrafos. Diziam que tinham
conexões, mandavam amostras de seu trabalho. Vinham com suas telas, seus fundos, seus
flashes e seus assistentes. E você nunca mais ouvia falar deles. Quero dizer, eles nunca
mandavam nenhuma fotografia de volta. Nenhuma. São os maiores mentirosos. "Vou mandar
uma série completa." Um cara disse: "Vou mandar pra você uma em tamanho natural". "Como

assim?", perguntei. "Vou mandar uma foto 2 por 3 metros." Isso já faz uns dois anos.
Eu sempre disse que o trabalho do escritor é escrever. Se eu for queimado por todos esses
fajutos e filhos da puta, é culpa minha. Vão puxar o saco da Elizabeth Taylor!

22/10/91

16:46

A vida perigosa. Tive que levantar às oito horas para dar comida para os gatos porque o
cara da Segurança Westec vinha às oito e meia para começar a instalar um sistema mais
sofisticado de alarme. (Era eu o cara que costumava dormir em cima de latas de lixo?)
A Segurança Westec chegou exatamente às oito e meia. Um bom sinal. Levei-o ao redor
da casa mostrando janelas, portas etc. Bom, bom. Colocaríamos fios nelas, instalaríamos
detectores para quebra de vidros, sensores baixos, sensores cruzados, aspersores para incêndio
etc. Linda desceu e fez algumas perguntas. Ela é melhor nisso do que eu.
Me veio um pensamento: "Quanto tempo isso vai demorar?".
"Três dias", ele disse.
"Jesus Cristo", disse eu. (Dois desses dias o hipódromo estaria fechado.)
Assim, demos um tempo e o deixamos lá. Dissemos que já voltaríamos. Tínhamos um
cheque-presente de US$ 100 no I. Magnin's que alguém tinha nos dado de presente de
casamento. Eu também tinha que depositar um cheque de direitos autorais. Assim, ao banco.
Assinei o cheque.
"Eu gostei muito da sua assinatura", disse a garota.
Outra garota veio e olhou a assinatura.
"A assinatura dele muda a toda hora", disse Linda.
"É que eu fico assinando meu nome nos livros", eu disse.
"Ele é um escritor", disse Linda.
"É mesmo? O que você escreve?", perguntou uma das garotas.
"Diz pra ela", falei para Linda.
"Ele escreve poemas, contos e novelas", ela disse.
"E fiz um filme", disse eu. "Barfly."
"Ah", disse uma das garotas. "Eu vi."
"Você gostou"?
"Gostei", ela sorriu.
"Muito obrigado", falei.
Nos viramos e saímos.
"Ouvi uma das garotas dizer, quando entramos: `Sei quem é aquele cara' ", disse Linda.
Viu? Somos famosos. Entramos no carro e fomos até o shopping center para comer
alguma coisa perto do I. Magnin's.
Pegamos uma mesa, comemos sanduíche de peru e tomamos suco de maçã e capucinos.
Da mesa, podia-se ver uma grande parte do shopping. O lugar estava virtualmente vazio. Os
negócios não iam bem. Bem, tínhamos um cupom de cem dólares para gastar. Ajudaríamos a
economia.
Eu era o único homem lá. Só havia mulheres nas mesas, sozinhas ou aos pares. Os
homens estavam em outro lugar. Não me importei. Me sentia seguro com as mulheres. Estava

descansando. Minhas feridas estavam cicatrizando. Podia aguentar um pouco de sombra.
Imagine se eu pudesse pular abismos para sempre. Talvez depois de um descanso eu pudesse
me jogar outra vez da beirada. Talvez.
Terminamos de comer e fomos ao I. Magnin's.
Eu precisava de camisas. Olhei as camisas. Não achei uma puta camisa. Parecia que
tinham sido desenhadas para idiotas. Desisti. Linda precisava de uma bolsa. Encontrou uma,
com desconto de 50%. Era US$ 395. Só que não parecia ser de US$ 395. Mais como $ 49,50.
Desistiu. Havia duas cadeiras com cabeças de elefante no encosto. Legais. Mas custavam
milhões. Havia um pássaro de vidro bonito, US$ 75, mas Linda disse que não tínhamos onde
colocá-lo. A mesma coisa com o peixe de listras azuis. Estava ficando cansado. Olhar as
coisas me deixou cansado. As lojas de departamentos me fadigam e deprimem. Não há nada
nelas. Toneladas e toneladas de merda. Mesmo que fosse de graça, eu não levaria nada. Será
que eles nunca vendem nada legal?
Decidimos que talvez um outro dia. Fomos à livraria. Eu precisava de um livro sobre o
meu computador. Precisava saber mais. Encontrei um livro. Fui até um vendedor. Ele fez a
nota. Paguei com cartão. "Muito obrigado", disse ele. "Poderia fazer a gentileza de assinar
isso?" Ele me alcançou meu último livro. Bem, eu era famoso. Me reconheceram duas vezes
no mesmo dia. Duas vezes era o suficiente. Três vezes ou mais e você teria problemas. Os
deuses estavam fazendo tudo na medida pra mim. Perguntei seu nome, escrevi-o no livro,
escrevinhei alguma coisa, meu nome e um desenho.
Paramos na loja de computadores no caminho de casa. Precisava de papel para a
impressora a laser. Eles não tinham. Fiz uma banana para o vendedor. Me fez pensar nos
velhos tempos. Ele me recomendou um lugar. Encontramos no caminho de casa. Encontramos
tudo lá, com desconto. Comprei papel laser para os próximos dois anos e também envelopes
para correspondência, canetas, clipes de papel. Agora, tudo o que eu tinha a fazer era escrever.

Chegamos em casa. O homem da segurança já tinha ido. O cara do telhado tinha vindo e
ido embora. Deixou um bilhete: "Voltarei às quatro da tarde". Sabíamos que o cara do telhado
não ia voltar às quatro. Era maluco. Uma infância ruim. Muito confuso. Mas bom com as
telhas.
Levei as coisas para cima. Eu estava pronto. Eu era famoso. Eu era um escritor.
Sentei e liguei o computador. Abri os JOGOS IDIOTAS. Daí, comecei a jogar Tao.
Estava ficando cada vez melhor nisso. Raramente perdia para o computador. Era mais fácil
que apostar em cavalos, mas, de certa forma, não me satisfazia tanto. Bom, voltarei na quartafeira. Apostar nos cavalos aperta os meus parafusos. É parte do esquema. Funciona. E eu tinha
5.000 folhas de papel para encher.

31/10/91

00:27

Dia horrível no hipódromo, não tanto em dinheiro perdido, talvez até tenha ganho um
pouco, mas a sensação lá estava horrível. Era como se eu estivesse perdendo tempo e, sabe,
não me resta muito tempo. Os mesmos rostos, a mesma taxa de 18 por cento. Às vezes, me
sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar,
como atuar, só que não há uma câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um
filme ruim. Conheço os funcionários dos guichês bem demais. Às vezes, conversamos um
pouco enquanto faço as apostas. Gostaria de encontrar um funcionário indiferente, que
simplesmente furasse minhas pules e não dissesse nada. No fim, todos se tornam sociáveis.
Estão de saco cheio. E também estão em guarda: muitos dos jogadores são um pouco malucos.
Com frequência, há brigas com os funcionários, sirenes soam alto e a segurança vem correndo.
Falando conosco, os funcionários podem ter uma ideia sobre nós. Sentem-se mais seguros
assim. Preferem o apostador amistoso.
Para mim, os jogadores são mais fáceis. Os regulares sabem que sou algum tipo de louco
e que não quero falar com eles. Estou sempre trabalhando em um novo sistema, muitas vezes
mudo de sistema no meio do caminho. Estou sempre tentando fazer com que os números se
encaixem ao redor da possibilidade real, tentando codificar a loucura em um simples número
ou grupo de números. Quero entender a vida, acontecimentos na vida. Li um artigo que
afirmava que já faz um longo tempo que, no xadrez, se acreditava que um rei, um bispo e uma
torre eram iguais a um rei e dois cavalos. Uma máquina Los Alamos com 65.536
processadores foi colocada em funcionamento no programa. O computador solucionou o
problema em cinco horas, depois de levar em conta 100 bilhões de jogadas, trabalhando para
trás, a partir da posição de vitória. Descobriu que o rei, a torre e o bispo poderiam derrotar o
rei e os dois cavalos em 223 jogadas. Isto foi absolutamente fascinante para mim. Certamente
é melhor que o jogo tedioso, mesquinho de apostar em cavalos.
Acho que trabalhei demais na minha vida como trabalhador comum. Trabalhei como tal
até os 50 anos. Aqueles desgraçados me acostumaram a ir a algum lugar todos os dias e ficar
nesse lugar por muitas horas e depois voltar. Me sinto culpado de só ficar rolando por aí.
Assim, me encontro no hipódromo, de saco cheio e, ao mesmo tempo, enlouquecendo. Reservo
as noites para o computador ou para beber ou para ambos. Alguns dos meus leitores acham
que adoro cavalos, que a ação me excita, que sou um apostador tarado, um machão. Recebo
livros pelo correio sobre cavalos, corridas de cavalos, histórias sobre o hipódromo etc. Não
dou a mínima pra isso. Vou ao hipódromo quase com relutância. Sou idiota demais para
imaginar outro lugar para ir. Onde, onde, durante o dia? Os Jardins Suspensos? Um cinema?
Diabos, me ajudem, não posso ficar sentado com senhoras e a maioria dos homens da minha
idade morreu e, se não morreu, deveria estar morta, porque com certeza parecem mortos.
Tentei ficar longe do hipódromo, mas daí fico muito nervoso e deprimido e, de noite, não
sobra gás para o computador. Acho que tirar a minha bunda daqui me força a olhar para a

Humanidade, e quando você olha a Humanidade você TEM que reagir. É um excesso, um
contínuo espetáculo de horrores. É, fico de saco cheio lá, aterrorizado aqui fora, mas também
sou, até agora, um tipo de estudante. Um estudante do inferno.
Quem sabe? Daqui a alguns dias posso estar preso à cama. Vou ficar deitado, pintando
sobre folhas de papel coladas na parede. Vou pintá-las com um longo pincel e provavelmente
até goste disso.
Mas, nesse momento, são os rostos dos jogadores, rostos de papelão, rostos horríveis,
maus, vazios, avarentos, moribundos, dia após dia. Rasgando suas pules, lendo seus vários
jornais, olhando as alterações no placar à medida que são moídos, se tornando cada vez
menores, enquanto eu fico lá com eles, como um deles. Somos doentes, o peixe-piolho da
esperança. Nossas roupas pobres, nossos carros velhos. Nos movemos em direção à miragem,
nossas vidas são desperdiçadas, como as de todo mundo.

03/11/91

00:48

Fiquei em casa em vez de ir ao hipódromo hoje. Estava com a garganta inflamada e uma
dor no topo da cabeça, um pouco para o lado direito. Quando você chega aos 71 anos, nunca se
pode adivinhar quando sua cabeça vai explodir através do para-brisa. Ainda vou atrás de uma
boa bebedeira de vez em quando e fumo cigarros demais. O corpo fica puto da cara comigo
quando faço isso, mas a mente também tem que ser alimentada. E o espírito. Beber alimenta
minha mente e meu espírito. De qualquer forma, fiquei em casa, dormi até as 12:20.
Dia frouxo. Entrei na piscina de hidromassagem como um boa-vida. O sol estava
brilhando e a água borbulhava e fazia redemoinhos, quente. Relaxei. Por que não? Dê um
tempo. Tente se sentir melhor. O mundo inteiro é um saco de merda se rasgando. Não posso
salvá-lo. Mas recebi muitas cartas de pessoas que disseram que meus livros salvaram suas
vidas. Mas não escrevi para isso, escrevi para salvar a minha própria vida. Sempre estive por
fora, nunca me adaptei. Descobri isso nos pátios das escolas. E outra coisa que aprendi foi que
eu aprendia muito devagar. Os outros caras sabiam tudo; eu não sabia merda nenhuma. Tudo
estava imerso numa luz branca e estonteante. Eu era um idiota. No entanto, mesmo quando eu
era um idiota, sabia que não era um idiota completo. Eu tinha algum cantinho de mim que
estava protegendo, havia alguma coisa lá. Não importa. Aqui estava eu na piscina e minha vida
estava terminando. Não me importava, já tinha visto o circo. Ainda assim, sempre haverá mais
coisas para escrever até que me atirem na escuridão ou seja o que for. Isto é que é legal sobre a
palavra, permanece indo em frente, buscando coisas, formando frases, se divertindo. Eu estava
cheio de palavras e elas ainda saíam em boa forma. Eu tinha sorte. Na piscina. Garganta ruim,
dor de cabeça, eu tinha sorte. Velho escritor na piscina, meditando. Legal, legal. Mas o inferno
está sempre lá, esperando para se abrir.
Meu velho gato amarelo veio e me olhou na água. Olhamos um para o outro. Sabíamos
tudo e nada. Daí, foi embora.
O dia continuou. Linda e eu almoçamos em algum lugar, não lembro onde. A comida não
estava muito boa, cheio de pessoas de sábado. Estavam vivas, mas não estavam vivas.
Sentadas nas mesas e nos reservados, comendo e falando. Espere, Jesus, isso me lembra
alguma coisa. Almocei aqui outro dia antes de ir ao hipódromo. Sentei no balcão, estava
completamente vazio. Fiz meu pedido e estava comendo. Homem entrou e sentou no banco
BEM AO MEU LADO. Havia outros 20 ou 25 bancos vazios. Ele sentou no que estava ao meu
lado. Não gosto tanto assim de pessoas. Quanto mais longe estou delas, melhor eu me sinto.
Fez o pedido e começou a falar com a garçonete. Sobre futebol americano profissional. Eu
mesmo vejo às vezes, mas falar disso num café? Eles falaram sem parar, tagarelaram sobre
isso e aquilo. Sem parar. Jogador predileto. Quem deveria ganhar etc. Daí, alguém de um
reservado entrou na conversa. Acho que não teria me incomodado tanto se não estivesse
roçando os cotovelos com aquele desgraçado ao meu lado. Um bom tipo, com certeza. Ele
gostava de futebol. Seguro. Americano. Sentado ao meu lado. Esqueça.

Então, sim, almoçamos, Linda e eu, voltamos e a tarde passou calma, e logo depois que
escureceu a Linda reparou em alguma coisa. Ela era boa nesse tipo de coisa. Eu a vi voltando
pelo pátio e ela disse: "O Velho Charlie caiu, os bombeiros estão lá".
O Velho Charlie é o cara de 96 anos que mora na grande casa ao lado da nossa. A mulher
morreu na semana passada. Estavam casados há 47 anos.
Fui até a frente e lá estava o caminhão dos bombeiros. Havia um cara parado lá. "Sou
vizinho do Charley. Ele está vivo?"
"Está", disse ele.
Era evidente que estavam esperando pela ambulância. O caminhão dos bombeiros tinha
chegado antes. Linda e eu esperamos. A ambulância chegou. Foi estranho. Dois baixinhos
saíram, pareciam muito pequenos. Ficaram lado a lado. Três caras do caminhão de bombeiros
ficaram ao seu redor. Um deles começou a falar com os baixinhos. Ficaram ali e concordaram
com a cabeça. Daí, aquilo acabou. Foram e pegaram a maca. Levaram-na pela longa escadaria
até a casa.
Ficaram lá um tempão. Daí, saíram. O Velho Charley estava preso na maca. Quando
estavam prontos para colocá-lo na ambulância, demos um passo à frente. "Aguenta firme,
Charley", eu disse. "Estaremos esperando por você quando voltar", disse Linda.
"Quem são vocês?", Charley perguntou.
"Somos seus vizinhos", Linda respondeu.
Daí, foi colocado na ambulância e se foi. Um carro vermelho, com dois parentes, os
seguiu.
Meu vizinho veio do outro lado da rua. Nos demos as mãos. Tomamos algumas
bebedeiras juntos. Contei a ele sobre Charley. E estávamos todos chateados porque os parentes
o deixavam muito tempo sozinho. Mas não havia muito que pudéssemos fazer.
"Vocês têm que ver a minha cachoeira", disse meu vizinho.
"Tudo bem", eu disse. "Vamos lá."
Atravessamos a rua, passamos por sua mulher, pelos filhos, saímos pela porta dos fundos
para o pátio, passando pela piscina e, com certeza, lá no fundo, havia uma ENORME
cachoeira. Subia toda uma escarpa e parte da água parecia estar saindo de um tronco de árvore.
Era imensa. E construída de pedras lindas e enormes de cores diferentes. A água rugia,
inundada de luzes. Era difícil de acreditar. Havia um operário lá, ainda trabalhando na
cachoeira. Havia mais coisas a serem feitas.
Apertei a mão do operário.
"Ele leu todos os seus livros", meu vizinho disse.
"Tá brincando", eu disse.
O operário sorriu para mim.
Então, voltamos para a casa. Meu vizinho me convidou: "Que tal um copo de vinho?".
Disse para ele: "Não, obrigado". Daí expliquei sobre a garganta inflamada e a dor no topo
da minha cabeça.
Linda e eu atravessamos a rua e voltamos para casa.
E, basicamente, foi isso sobre o dia e a noite.

22/11/91

00:26

Bem, meu 71o ano foi um ano muito produtivo. Provavelmente escrevi mais palavras
este ano do que em qualquer ano da minha vida. E, apesar de um escritor ser um mau juiz do
seu próprio trabalho, ainda tenho a tendência de acreditar que estou escrevendo melhor do que
antes ­ quero dizer, tão bem quanto nos meus períodos de auge. Este computador, que comecei
a usar em 18 de janeiro, tem muito a ver com isso. Simplesmente é mais fácil escrever, a
palavra é transferida mais rápido do cérebro (ou de onde quer que venha) aos dedos e dos
dedos ao monitor, onde fica visível imediatamente ­ nítida e clara. Não é uma questão de
velocidade em si, é uma questão de fluxo, um rio de palavras e, se as palavras forem boas,
deixe que elas fluam com facilidade. Chega de carbonos, chega de reescrever. Antes, eu
precisava de uma noite para escrever e a noite seguinte para corrigir os erros e a bagunça da
noite anterior. Erros de ortografia, de tempos verbais etc. podem agora ser todos corrigidos na
cópia original sem ter que datilografar tudo de novo, escrever por cima ou rasurar. Ninguém
gosta de ler uma cópia rabiscada, nem mesmo o escritor. Sei que tudo isso pode parecer
frescura e excesso de zelo, mas não é, tudo o que faz é deixar que a força ou sorte que você
possa ter criado surja claramente. É para seu bem, realmente, e se é assim que você perde sua
alma, sou totalmente a favor.
Houve alguns momentos ruins. Lembro de uma noite, depois de escrever por umas quatro
horas, que achei que tinha tido uma sorte incrível quando ­ bati em alguma coisa ­ houve uma
descarga de luz azul e as várias páginas que tinha escrito desapareceram. Tentei de tudo para
trazê-las de volta. Simplesmente desapareceram. Sim, eu tinha posto em "Salvar tudo", mas
não fez diferença. Isto já tinha acontecido outras vezes, mas não com tantas páginas. Vou te
contar, foi a mais terrível das sensações quando as páginas desapareceram. Pensando bem, já
perdi três ou quatro páginas da minha novela outras vezes. Um capítulo inteiro. O que fiz foi
simplesmente escrever tudo de novo. Quando você faz isso, você perde alguma coisa,
pequenos detalhes não voltam, mas você também ganha alguma coisa, porque quando você
reescreve você deixa de fora partes de que não gostou muito e acrescenta partes que são
melhores. E daí? Bem, daí é que é uma longa noite. Os passarinhos já acordaram. Minha
mulher e os gatos acham que fiquei louco.
Consultei alguns especialistas sobre a "luz azul", mas nenhum conseguiu me dizer nada.
Descobri que a maioria dos experts em computador não são muito espertos. Acontecem coisas
confusas que não estão nos livros. Acho que sei uma coisa que poderia ter recuperado o
trabalho depois da "luz azul"...
A pior noite foi quando sentei no computador e ele ficou completamente maluco,
mandando bombas, sons estranhos e altos, momentos de escuridão, treva mortal, tentei, tentei
e não consegui fazer nada. Daí, reparei no que parecia ser um líquido que tinha endurecido
sobre a tela e ao redor da abertura perto do "cérebro", a abertura onde se colocam os disquetes.
Um dos meus gatos tinha mijado no computador. Tive que levar para a loja de computadores.

O mecânico tinha saído e quando um vendedor retirou uma parte do "cérebro" um líquido
amarelo espirrou sobre a sua camisa branca e ele gritou "mijo de gato!". Coitado. Coitado. De
qualquer forma, deixei o computador. A garantia não cobria nenhum dano por mijo de gato.
Tiveram que tirar, praticamente, todas as entranhas do "cérebro". Levaram oito dias para
consertá-lo. Durante este período, voltei à minha máquina de escrever. Era como tentar
quebrar pedras com as mãos. Tive que aprender a datilografar de novo. Tinha que ficar bêbado
para conseguir que as palavras fluíssem. E, mais uma vez, era uma noite para escrever e outra
para arrumar. Mas ainda bem que a máquina estava lá. Ficamos juntos por mais de cinco
décadas e tivemos ótimos momentos. Quando peguei o computador de volta, foi com certa
tristeza que recoloquei a velha máquina no seu canto. Mas voltei ao computador e as palavras
voaram como pássaros enlouquecidos. E não houve mais nenhuma luz azul e palavras que
desapareciam. Estava ainda melhor. O gato ter mijado no computador arrumou tudo. Só que
agora, quando saio do computador, cubro-o com uma grande toalha de praia e fecho a porta.
Sim, esse tem sido meu ano mais produtivo. O vinho fica melhor se for envelhecido
adequadamente.
Não estou competindo com ninguém, não tenho ilusões com a imortalidade, não estou
nem aí pra ela. É a AÇÃO enquanto você está vivo. Os partidores se abrindo na luz do sol, os
cavalos mergulhando na luz, todos os jóqueis, bravos e pequenos diabos em sua seda brilhante,
indo fundo, fazendo acontecer. A glória é o movimento e a audácia. Que a morte se foda. É
hoje e hoje e hoje. Sim.

09/12/91

01:18

A maré está vazante. Sento e olho para um clipe de papel durante cinco minutos. Ontem,
voltando na freeway, estava anoitecendo. Havia um pouco de neblina. O Natal está chegando
como um arpão. De repente, me dou conta que estou quase sozinho. Então, na estrada, vi um
grande para-choque grudado num pedaço da cerca. Evitei-o a tempo, depois olhei para a
direita. Havia uma carambola de carros, quatro ou cinco, mas estava tudo silencioso, sem
movimento, ninguém em volta, sem fogo, sem fumaça, sem faróis. Estava indo rápido demais
para ver se havia pessoas nos carros. Então, de repente, ficou noite. Às vezes, não há nenhum
aviso. As coisas acontecem em segundos. Tudo muda. Você está vivo. Você está morto. E as
coisas continuam.
Somos finos como papel. Existimos por acaso entre as percentagens, temporariamente. E
esta é a melhor e a pior parte, o fator temporal. E não há nada que se possa fazer sobre isso.
Você pode sentar no topo de uma montanha e meditar por décadas e nada vai mudar. Você
pode mudar a si mesmo para ser aceitável, mas talvez isso também esteja errado. Talvez
pensemos demais. Sinta mais, pense menos.
Todos os carros na carambola pareciam ser de cor cinza. Estranho.
Gosto da forma com que os filósofos destroem os conceitos e as teorias que os
precederam. Isso tem acontecido há séculos. Não, não é assim, dizem. É desse jeito. Isto
continua sem parar e parece lógica, esta continuidade. O principal problema é que os filósofos
devem humanizar sua linguagem, torná-la mais acessível, então os pensamentos se iluminam
mais, ficam ainda mais interessantes. Acho que estão aprendendo a fazer isso. A simplicidade
é essencial.
Ao escrever, você deve deslizar. As palavras podem ser distorcidas e instáveis, mas se
deslizam, há um certo deleite que ilumina tudo. O escrever cuidadoso é mortal. Acho que
Sherwood Anderson foi um dos que melhor brincou com as palavras, como se fossem pedras,
ou pedaços de comida para serem comidos. PINTAVA as palavras no papel. E elas eram tão
simples que você sentia fachos de luz, portas abrindo, paredes brilhando. Você via tapetes,
sapatos e dedos. Ele tinha as palavras. Maravilhoso. Mas também eram como balas de
revólver. Te atingiam direto. Sherwood sabia alguma coisa, tinha o instinto. Hemingway
tentava demais. Você sentia o trabalho duro em seus livros. Eram blocos rígidos, colados. E
Anderson podia rir enquanto te contava algo sério. Hemingway nunca conseguiu rir. Quem
escreve de pé às seis da manhã não tem senso de humor. Quer derrotar alguma coisa.
Cansado esta noite. Não durmo o suficiente. Adoraria dormir até o meio-dia, mas com o
primeiro páreo às 12:30, mais o caminho e aprontar os números, tenho que sair daqui às 11 da
manhã, antes do carteiro chegar. E raramente vou dormir antes das duas da manhã. Levanto
umas duas vezes para mijar. Um dos gatos me acorda às seis da manhã, exatamente, todas as
manhãs, tem que sair. Também, os corações solitários gostam de ligar antes das dez. Não
atendo, a secretária eletrônica pega os recados. Quero dizer, meu sono é interrompido. Mas se

é só isso que tenho para reclamar, estou em grande forma.
Sem cavalos nos próximos dois dias. Não vou me levantar antes do meio-dia amanhã e
me sinto como uma usina elétrica, dez anos mais jovem. Diabos, é de morrer de rir ­ dez anos
mais moço me faz ter 61, vocês acham isso legal? Me deixem chorar, me deixem chorar.
É uma da manhã. Por que não paro agora e vou dormir?

18/01/92

23:59

Bem, ando pra cima e pra baixo entre a novela, o poema e o hipódromo e ainda estou
vivo. Não tem muita coisa acontecendo no hipódromo, não consigo me livrar da humanidade e
aqui estou. E também tem a estrada, chegar lá e voltar. A freeway sempre me faz lembrar do
que é a maioria das pessoas. É uma sociedade competitiva. Eles querem que você perca para
que possam ganhar. É inato e muito disso aparece na estrada. Os que dirigem devagar querem
bloquear o seu caminho, os que dirigem rápido querem passar por você. Me mantenho a 110,
assim ultrapasso e sou ultrapassado. Os motoristas rápidos não me incomodam. Saio da sua
frente e deixo que passem. Os vagarosos é que são irritantes, os que andam a 90 na pista
rápida. E algumas vezes você pode ficar engavetado. Você enxerga o suficiente da cabeça e do
pescoço do motorista da frente pra fazer uma leitura. A leitura é que esta pessoa tem a alma
adormecida e, ao mesmo tempo, amargurada, grosseira, cruel e burra.
Escuto uma voz me dizendo: "Você é burro em pensar assim. Você é que é burro".
Há sempre os que defendem os subnormais na sociedade porque não se dão conta de que
os subnormais são subnormais. E a razão por que não se dão conta é que eles também são
subnormais. Temos uma sociedade subnormal e é por isso que fazem o que fazem e fazem aos
outros o que fazem. Mas é problema deles e eu não me importo, a não ser que tenha que viver
com eles.
Lembro de jantar uma vez com um grupo de pessoas. Numa mesa ao lado havia um outro
grupo de pessoas. Falavam alto e riam. Mas sua risada era totalmente falsa, forçada.
Continuavam sem parar.
Finalmente, disse para as pessoas da nossa mesa: "É muito chato, não?".
Uma das pessoas da nossa mesa virou-se para mim, deu um sorriso enternecido e disse:
"Gosto quando as pessoas estão felizes".
Não respondi. Mas senti um buraco negro e escuro se formando nas minhas entranhas.
Bem, e daí?
Você faz uma leitura das pessoas nas estradas. Você faz uma leitura das pessoas em
mesas de jantar. Você faz uma leitura das pessoas nos supermercados etc. etc. É a mesma
leitura. O que você pode fazer? Você as evita e espera. Toma mais um drinque. Também gosto
quando as pessoas estão felizes. Só que não tenho visto muitas.
Assim, fui hoje ao hipódromo e me sentei no meu lugar. Havia um cara usando um boné
de trás pra frente. Um desses bonés que dão grátis no hipódromo. Dia grátis. Estava com seu
programa das corridas e uma gaita de boca. Pegou a gaita e soprou. Não sabia tocar. Só
soprava. E também não era a escala de 12 tons de Schoenberg. Era uma escala de dois ou três
tons. Ficava sem ar e pegava o programa.
Na minha frente, sentaram os mesmos três caras que estiveram lá a semana toda. Um
cara de uns 60 anos que sempre usava roupas marrons e um chapéu marrom. Ao seu lado,
sentava um outro velho, de uns 65 anos, com o cabelo muito branco, branco como a neve, de

pescoço torto e ombros redondos. Ao seu lado, estava um oriental de uns 45 anos que fumava
o tempo todo. Antes de cada páreo, discutiam em que cavalo iam apostar. Havia esses
incríveis apostadores, como o Gritão Maluco, de quem já falei pra vocês antes. Vou dizer por
quê. Tenho sentado atrás deles há duas semanas. E nenhum deles escolheu um vencedor. E
apostaram nas barbadas também, isto é, pules que pagavam 2 e 7 ou 8. Isto é, talvez, 45 páreos
vezes três escolhas. São 135 escolhas sem um vencedor. Uma estatística realmente fantástica.
Pensem nisso. Digamos que cada um deles escolhesse um número como 1 ou 2 ou 3 e ficasse
com ele, automaticamente escolheria um vencedor. Mas, pulando de número, de alguma forma
conseguiram, usando todo seu poder cerebral e know-how, continuar perdendo. Por que
continuam vindo ao hipódromo? Não se envergonham da sua inaptidão? Não, há sempre um
próximo páreo. Algum dia vão ganhar. Bastante.
Vocês devem compreender então, quando volto do hipódromo e saio da estrada, por que
este computador parece tão legal pra mim. É uma tela em branco para colocar palavras. Minha
mulher e meus nove gatos parecem ser os gênios do mundo. E são.

08/02/92

01:16

O que os escritores fazem quando não estão escrevendo? Eu vou ao hipódromo. Nos
meus primeiros tempos, ou passava fome ou trabalhava em empregos de revirar o estômago.
Agora, me mantenho afastado dos escritores ­ ou das pessoas que se dizem escritores.
Mas entre 1970 e 1974, quando decidi ficar em um lugar e escrever ou morrer, os escritores
vinham aqui, todos poetas. POETAS. E descobri uma coisa curiosa: nenhum deles tinha
qualquer meio visível de sustento. Ou, se faziam leituras de poesias, poucos assistiam,
digamos de quatro a 14 outros POETAS. Mas todos viviam em apartamentos razoavelmente
bons e pareciam ter tempo de sobra para sentar no meu sofá e beber minha cerveja. Adquiri
fama na cidade de ser o maluco, de fazer festas onde coisas inomináveis aconteciam e
mulheres doidas dançavam e quebravam as coisas, ou que eu expulsava as pessoas da minha
casa, ou que havia batidas policiais ou etc. etc. Muito disso era verdade. Mas eu também tinha
que escrever para meu editor e para as revistas para conseguir dinheiro para o aluguel e o
trago, e isto significava escrever prosa. Mas esses... poetas... só escreviam poesia... eu achava
que eram superficiais e pretensiosas... mas eles continuavam com ela, vestiam-se
razoavelmente bem, pareciam bem-alimentados, e tinham todo esse tempo pra sentar no sofá e
tempo pra conversar ­ sobre sua poesia e sobre si mesmos. Muitas vezes, eu perguntava:
"Escute, como você se sustenta?". Eles só ficavam sentados, sorriam para mim, bebiam minha
cerveja e esperavam que alguma das minhas doidas mulheres aparecesse, na esperança de que,
de alguma forma, conseguissem um pouco de sexo, admiração, aventura ou seja lá o que for.
Estava ficando claro para mim que eu teria que me livrar desses bajuladores molengas. E,
gradualmente, descobri seu segredo, um a um. Na maioria das vezes, nos bastidores, bem
escondida, estava a MÃE. A mãe tomava conta destes gênios, pagava o aluguel, a comida e as
roupas.
Lembro uma vez, numa rara saída de casa, eu estava sentado no apartamento desse
POETA. Estava um saco, nada para beber. Ele ficou falando que era uma injustiça ele não ter
maior reconhecimento. Os editores, todos conspiravam contra ele. Apontou o dedo para mim:
"Você também, você disse pra Martin não me publicar!" Não era verdade. Daí, ele começou a
reclamar e a se queixar sobre outras coisas. Então, tocou o telefone. Ele atendeu e começou a
falar bem baixinho e reservadamente. Desligou e virou-se para mim.
"É a minha mãe, ela está vindo pra cá. Você tem que ir embora."
"Tudo bem, gostaria de conhecer a sua mãe."
"Não! Não! Ela é horrível! Você tem que ir embora! Agora! Rápido!"
Tomei o elevador e saí. E risquei-o de meu caderno.
Havia um outro. A mãe pagava para ele a comida, o carro, o seguro, o aluguel e até
mesmo escrevia parte dos seus poemas. Inacreditável. E isso aconteceu durante décadas.
Havia outro cara, parecia sempre muito calmo, bem-alimentado. Dava aulas numa
oficina de poesia em uma igreja todos os domingos de tarde. Tinha um bom apartamento. Era

membro do partido comunista. Digamos que seu nome fosse Fred. Perguntei a uma senhora
que frequentava sua oficina e que o admirava muito: "Escute, como o Fred se sustenta?".
"Bem", disse ela, "Fred não quer que ninguém saiba, porque ele é muito reservado sobre isso,
mas ele ganha dinheiro limpando caminhões de comida."
"Caminhões de comida?"
"É, você sabe, essas caminhonetes que entregam café e sanduíches no intervalo e no
almoço nos locais de trabalho, bem, esses caminhões de comida."
Passaram uns dois anos e então foi descoberto que Fred também era proprietário de dois
edifícios de apartamentos e que vivia principalmente dos aluguéis. Quando descobri isso,
tomei um trago e fui até o apartamento de Fred. Ficava em cima de um pequeno teatro. Um
lugar pretensiosamente artístico. Saltei para fora do carro e toquei a campainha. Ele não
respondeu. Eu sabia que ele estava lá. Tinha visto sua sombra passando atrás das cortinas.
Voltei para o carro e comecei a tocar a buzina e a gritar: "Ei, Fred, sai daí!". Joguei uma
garrafa de cerveja em uma das suas janelas. Picou e voltou. Isso o fez se mexer. Saiu na
varanda e me espiou. "Bukowski, vá embora!"

"Fred, vem aqui embaixo que eu vou te dar um chute na bunda, seu comunista
proprietário de terras!"

Ele correu para dentro. Fiquei lá parado, esperando por ele. Nada. Então, me ocorreu que
ele estava chamando a polícia. Já tinha encontrado demais a polícia. Entrei no carro e fui pra
casa.
Outro poeta vivia nessa casa na beira do mar. Uma casa legal. Ele nunca tinha emprego.
Eu ficava pegando no pé dele: "Como você se sustenta? Como você se sustenta?". Afinal, ele
confessou. "Meus pais têm propriedades e eu cobro o aluguel para eles. Eles me pagam um
salário." Ele ganhava um salário e tanto, imagino. De qualquer forma, pelo menos ele me
contou.
Alguns nunca contam. Havia esse outro cara. Escrevia bons poemas, mas muito poucos.
Sempre tinha seu bom apartamento. Ou estava indo para o Havaí ou algum outro lugar. Era um
dos mais descontraídos. Sempre de roupas novas e recém-passadas, de sapatos novos. Sempre
bem barbeado, de cabelo bem cortado; tinha dentes cintilantes. "Vamos lá, cara, como você se
sustenta?" Nunca falou. Nem mesmo sorria. Só ficava lá parado, em silêncio.
E também há um outro tipo que vive de caridade. Escrevi um poema sobre um deles, mas
nunca publiquei porque, no fundo, sentia pena dele. Aqui está parte do poema:
João com o cabelo solto, João exigindo dinheiro, João da barriga grande, João da voz
alta, alta, João da troca, João que se exibe para as garotas, João que acha que é um gênio,
João que vomita, João que fala mal dos sortudos, João ficando cada vez mais velho, João
ainda exigindo dinheiro, João escorregando pelo pé de feijão, João que fala mas não faz, João
que escapa impune do assassinato, João que faz biscates, João que fala dos velhos tempos,
João que fala e fala, João com a mão estendida, João que aterroriza os fracos, João, o
amargurado, João dos cafés, João implorando reconhecimento, João que nunca tem emprego,
João que superestima totalmente seu potencial, João que fica gritando sobre seu talento não
reconhecido, João que culpa a todos.
Você sabe quem é João, você o viu ontem, você o verá amanhã, você o verá semana que
vem.
Querendo sem fazer, querendo de graça.
Querendo fama, querendo mulheres, querendo tudo.
Um mundo cheio de Joãos descendo pelo pé de feijão.
Já estou cansado de escrever sobre poetas. Mas devo acrescentar que estão prejudicando
a si mesmos vivendo como poetas em vez de outra coisa. Trabalhei como um trabalhador
comum até os 50 anos. Vivia espremido entre as pessoas. Nunca pretendi ser um poeta. Não
estou dizendo que trabalhar para viver seja uma grande coisa. Na maioria das vezes, é horrível.
E muitas vezes você tem que lutar para manter um emprego horrível porque existem 25 caras
atrás de você prontos para pegar o mesmo emprego. É claro que é sem sentido, é claro que te
arrasa. Mas acho que estar nesta confusão me ensinou a deixar a frescura de lado quando
escrevia. Acho que você tem que enfiar a cara na lama, de vez em quando, acho que você tem

que saber o que é uma prisão, o que é um hospital. Acho que você tem que saber o que é ficar
sem comer por uns quatro ou cinco dias. Acho que viver com mulheres loucas faz bem para a
espinha. Acho que você pode escrever com satisfação e liberdade depois de passar pelo aperto.
Só digo isso porque todos os poetas que conheci têm sido uns frouxos, uns parasitas. Não
tinham nada para escrever, exceto sua egoísta falta de persistência.
Sim, fico longe dos POETAS. Você me culpa por isso?

16/03/92

00:53

Não tenho ideia do que causa isso. Aparece: uma certa ideia sobre os escritores do
passado. E minhas ideias não são nem mesmo precisas, são apenas minhas, quase que
totalmente inventadas. Acho que Sherwood Anderson, por exemplo, era baixinho e de ombros
levemente encurvados. Provavelmente, tinha ombros retos e era alto. Não interessa. Eu o vejo
do meu jeito. (Nunca vi uma foto dele.) Vejo Dostoievsky como um cara barbudo, grandão,
com letárgicos olhos verde-escuros. Primeiro, ele era gordo demais, depois magro demais,
depois gordo demais. Bobagem, com certeza, mas eu gosto da minha bobagem. Até vejo
Dostoievsky como um cara que desejava garotinhas. Faulkner, vejo, em meio a uma certa
penumbra, como um ranzinza e um cara com mau hálito. Gorky, como um cara que bebe
escondido. Tolstoi, como um homem que tinha ataques de fúria por besteiras. Vejo
Hemingway como um cara que dançava balé a portas fechadas. Vejo Celine como um cara que
não dormia direito. Vejo e.e. cummings como um grande jogador de sinuca. Poderia continuar
sem parar.
Em geral, tinha essas visões quando era um escritor faminto, meio louco, incapaz de me
adaptar à sociedade. Tinha pouca comida, mas muito tempo. Quem quer que fossem os
escritores, eram mágicos para mim. Abriam portas de um jeito diferente. Precisavam de uma
bebida forte ao acordar. A vida era demais para eles. Cada dia era como caminhar sobre
cimento fresco. Fiz deles meus heróis. Me alimentava deles. Minhas ideias sobre eles me
sustentavam no meu lugar nenhum. Pensar sobre eles era muito melhor do que lê-los. Como D.
H. Lawrence. Que sujeitinho perverso. Ele sabia tanto que isso fazia com que ficasse possesso
o tempo todo. Sensacional, sensacional. E Aldous Huxley... poder mental de sobra. Ele sabia
tanto que isso lhe dava dor de cabeça.
Me espreguiçava em minha cama de fome e pensava nesses caras.
A literatura era tão... romântica. É.
Mas os compositores e pintores também eram bons, sempre ficando loucos, se
suicidando, fazendo coisas estranhas e abjetas. O suicídio parecia uma ideia tão boa. Eu
mesmo tentei algumas vezes, falhei, mas cheguei perto, fiz umas boas tentativas. Agora, aqui
estou com quase 72 anos. Meus heróis já se foram há muito e tive que viver com outros.
Alguns dos novos criadores, alguns dos recém-famosos. Não são a mesma coisa pra mim.
Olho para eles, os escuto e penso, é só isso? Quero dizer, eles parecem estar numa boa... eles
reclamam... mas eles parecem estar NUMA BOA. Não há loucura. Só os que parecem loucos
são os que fracassaram como artistas e acham que o fracasso é culpa de forças exteriores. E
criam muito mal, de forma horrível.
Não tenho mais ninguém em quem me espelhar. Não consigo nem me espelhar em mim
mesmo. Costumava entrar e sair de cadeias, costumava arrombar portas, quebrar janelas, beber
29 dias por mês. Hoje, sento em frente deste computador com o rádio ligado, ouvindo música
clássica. Nem mesmo estou bebendo esta noite. Estou me resguardando. Pra quê? Será que

quero viver até os 80, 90 anos? Não me importo de morrer... mas não neste ano, tá legal?
Não sei, era diferente no passado. Os escritores pareciam ser mais... escritores. Coisas
eram feitas. A Black Sun Press. Os Crosby. Me lembro tanto daquela época! Caresse Crosby
publicou um dos meus contos na sua revista Portfolio, junto com Sartre, acho, e Henry Miller
e acho que, talvez, Camus. Não tenho mais a revista. As pessoas me roubam. Levam minhas
coisas quando bebem comigo. Por isso que estou cada vez mais sozinho. De qualquer forma,
outros devem ter saudades dos extraordinários anos 20, Gertrude Stein e Picasso... James
Joyce, Lawrence e essa turma.
Para mim, parece que não somos mais o que éramos. É como se tivéssemos gasto as
opções, como se não conseguíssemos mais fazer alguma coisa.
Sento aqui, acendo um cigarro, ouço música. Minha saúde está boa e espero estar
escrevendo bem ou melhor que nunca. Mas tudo mais que leio parece tão... usado... é como um
estilo reconhecido. Talvez eu tenha lido demais, talvez eu tenha lido por tempo demais.
Também, depois de décadas e décadas escrevendo (e escrevi um monte), quando leio outro
escritor acho que posso dizer exatamente quando ele está fingindo, a mentira salta aos olhos,
as resvaladas untuosas... Posso adivinhar qual será a próxima linha, o próximo parágrafo...
Não há brilho, emoção, risco. É uma tarefa que aprenderam, como consertar uma torneira que
pinga.
Gostava mais quando conseguia imaginar grandeza nos outros, mesmo que nem sempre
houvesse.
Na minha cabeça, via Gorki em um cortiço, pedindo tabaco para o cara ao lado. Via
Robinson Jeffers falando com um cavalo. Via Faulkner olhando para o último gole da garrafa.
É claro, é claro, era bobo. Os jovens são bobos e os velhos, idiotas.
Tenho que me adaptar. Mas para todos nós, mesmo agora, a próxima linha está sempre lá
e pode ser a linha que finalmente consegue dar o recado, que diz tudo. Podemos dormir
pensando nisso durante as lentas noites e esperar que aconteça.
Provavelmente, somos tão bons hoje quanto aqueles filhos da puta do passado. E alguns
dos jovens pensam sobre mim como eu pensava sobre eles. Eu sei, recebo cartas. Eu as leio e
jogo fora. Estes são os monumentais anos 90. Existe a próxima linha. E a linha depois dessa.
Até não haver mais nenhuma.
É. Mais um cigarro. Depois, acho que vou tomar um banho e dormir.

16/04/92

00:39

Dia ruim no hipódromo. No caminho pra lá, sempre fico ruminando sobre qual sistema
usar. Devo ter uns seis ou sete. E, certamente, escolhi o errado. Ainda assim, nunca vou perder
meu rabo nem a cabeça no hipódromo. É que eu não aposto tanto. Os anos de pobreza me
tornaram cauteloso. Mesmo os dias que ganho não são fantásticos. Mas prefiro estar certo do
que errado, especialmente quando dou horas da minha vida. Pode-se sentir que o tempo está
sendo literalmente assassinado lá. Hoje, estavam se aproximando da partida do 2o páreo.
Ainda faltavam três minutos e os cavalos e os jóqueis se aproximavam lentamente. Por
alguma razão, parecia um tempo agonizantemente longo pra mim. Quando você tem 70 anos,
incomoda mais que alguém foda com seu tempo. Tá bem, sei que eu mesmo me coloquei na
situação de ser fodido.
Costumava ir nas corridas de cachorros à noite, no Arizona. Só que lá eles sabiam o que
estavam fazendo. Era só você virar as costas para buscar uma bebida e já estava saindo um
outro páreo. Sem 30 minutos de intervalo. Zip, zip, corriam um depois do outro. Era
estimulante. O ar da noite era frio e a ação, contínua. Você não achava que alguém estava
tentando cortar seu saco entre os páreos. E depois que tudo terminava, você não estava
cansado. Podia beber pelo resto da noite e brigar com sua namorada.
Mas com os cavalos é um inferno. Fico isolado. Não falo com ninguém. Isso ajuda. Bem,
os bilheteiros me conhecem. Tenho que ir até os guichês e usar minha voz. Ao longo dos anos,
passam a te conhecer. E a maioria é bem legal. Acho que os anos que passaram lidando com a
humanidade lhes deram uma certa visão. Por exemplo, sabem que a maior parte da raça
humana é uma grande merda. Mesmo assim, mantenho distância dos bilheteiros. Guardando
meus conselhos para mim mesmo, tenho uma vantagem. Poderia ficar em casa e fazer isso.
Poderia trancar a porta e brincar com tintas ou qualquer coisa assim. Mas, de alguma forma,
tenho que sair, e ter certeza de que toda a humanidade é uma grande merda. Como se fosse
mudar! Ei, cara, você deve ser louco. Mas existe alguma coisa lá, isto é, não penso em morrer
lá, por exemplo, lá você se sente burro demais para conseguir pensar. Apesar disso, já levei
um caderno, bem, escreveria alguma coisa entre os páreos. Impossível. O ar é denso e pesado,
somos todos membros voluntários de um campo de concentração. Quando chego em casa, daí
posso pensar na morte. Só um pouquinho. Não muito. Não me preocupo com a morte ou não
tenho pena de morrer. Parece uma tarefa desgraçada. Quando? Na próxima quarta-feira à
noite? Ou quando estiver dormindo? Ou por causa da próxima terrível ressaca? Acidente de
trânsito? É uma carga, é uma coisa que deve ser feita. E vou morrer sem acreditar em Deus.
Isso vai ser bom, posso enfrentá-la de cabeça em pé. É uma coisa que você tem que fazer,
como calçar os sapatos de manhã. Acho que vou ter saudades de escrever. Escrever é melhor
que beber. E escrever enquanto você está bebendo sempre faz as paredes dançarem. Talvez
haja um inferno, será? Se houver, lá estarei e sabem o que mais? Todos os poetas estarão lá,
lendo seus trabalhos e eu vou ter que ouvir. Serei afogado por sua elegante vaidade, por sua

transbordante autoestima. Se houver um inferno, este será o meu: um poeta atrás do outro
lendo sem parar...
De qualquer forma, um dia especialmente ruim. Esse sistema que geralmente funcionava
não funcionou. Os deuses embaralharam as cartas. O tempo está mutilado e você é um idiota.
Mas o tempo foi feito para ser desperdiçado. O que você vai fazer em relação a isso? Você não
pode estar sempre a mil. Você para e anda. Você chega ao topo e depois cai num buraco negro.
Você tem um gato? Ou gatos? Eles dormem, cara. Podem dormir 20 horas por dia e são lindos.
Sabem que não há nada para se preocupar. A próxima refeição. E alguma coisinha para matar
de vez em quando. Quando estou sendo dilacerado pelas forças, olho para um ou vários dos
meus gatos. É só olhar para um deles dormindo ou meio dormindo e relaxo. Escrever também
é meu gato. Escrever me faz enfrentar as coisas. Me acalma. Por algum tempo, pelo menos.
Daí, meus fios se cruzam e tenho que fazer tudo de novo. Não consigo entender os escritores
que decidem parar de escrever. Como eles esfriam?
Bem, o hipódromo estava chato e morto hoje, mas aqui estou de volta em casa e haverá
um amanhã, muito provavelmente. Como consigo fazer isso?

Em parte, é o poder da rotina, um poder que mantém a maioria de nós. Um lugar para ir,
uma coisa para fazer. Somos treinados desde o começo. Sair, entrar. Talvez haja alguma coisa
interessante lá. Que sonho ignorante! Parece a época em que eu saía para arranjar mulheres
nos bares. Pensava, talvez esta seja a certa. Outra rotina. Mesmo assim, durante o ato sexual,
pensava, esta é outra rotina. Estou fazendo o que acham que devo fazer. Me sentia ridículo,
mas mesmo assim seguia em frente. O que mais poderia fazer? Bem, deveria ter parado.
Deveria ter me afastado e dito: "Olhe, meu bem, estamos sendo muito bobos. Somos apenas
ferramentas da natureza".
"Como assim?"
"Quero dizer, meu bem, você já viu duas moscas fodendo ou algo parecido?"
"VOCÊ ESTÁ LOUCO. VOU EMBORA DAQUI!"
Não podemos nos examinar de perto demais ou vamos parar de viver, parar de fazer tudo.
Como os sábios que ficavam sentados em uma pedra e não se mexiam. Não sei se isso é tão

sábio, também. Eles descartam o óbvio, mas algo faz com que o descartem. Em um certo
sentido, são uma mosca fodendo a si mesma. Não há fuga, ação ou falta de ação. Temos
apenas que nos considerar como uma derrota: qualquer lance no tabuleiro leva a um xequemate.
Assim, foi um dia ruim no hipódromo hoje, sinto um gosto ruim na boca da minha alma.
Mas vou voltar amanhã. Tenho medo de não ir. Porque, quando volto pra casa, as palavras
engatinhando por esta tela de computador fascinam meu rabo cansado. Deixo-o só para voltar
para ele. É claro, é claro. É isso. Não é?

23/06/92

00:34

Provavelmente, escrevi mais e melhor nos últimos dois anos do que em qualquer época
da minha vida. É como se, depois de cinco décadas fazendo isso, chegasse mais perto de
realmente fazê-lo. Mesmo assim, nos dois últimos meses, comecei a sentir um certo cansaço.
O cansaço é quase físico, mas também é um pouco espiritual. Pode ser que eu esteja pronto
para entrar em decadência. É um pensamento horrível, é claro. O ideal seria continuar até o
momento da minha morte, não desbotar. Em 1989, superei uma tuberculose. Este ano, operei
um olho que ainda não está bom. E dor na perna, calcanhar e pé direitos. Coisas pequenas.
Pedaços de câncer de pele. A morte mordendo meus calcanhares, deixando que eu saiba. Sou
um saco velho, é isso. Bem, não poderia beber até morrer. Cheguei perto, mas não aconteceu.
Hoje, mereço viver com o que restou.
Bem, não escrevo há três noites. Devo enlouquecer? Mesmo em meus piores momentos,
posso sentir as palavras borbulhando dentro de mim, ficando prontas. Não estou numa
competição. Nunca quis fama ou dinheiro. Quis escrever do jeito que queria, só isso. E tive
que escrever ou ser tomado por algo pior que a morte. Palavras não como preciosidades, mas
como necessidades.
No entanto, quando começo a duvidar da minha capacidade de trabalhar a palavra,
simplesmente leio outro escritor e então sei que não tenho com o que me preocupar. Minha
competição é só comigo mesmo: fazer direito, com poder, força, deleite e risco. Se não,
esqueça.
Tenho sido sábio o suficiente para permanecer isolado. Os visitantes são raros nesta casa.
Meus nove gatos correm como loucos quando um humano chega. E minha mulher também
está ficando cada vez mais como eu. Não quero que seja assim. É natural para mim. Mas para
Linda, não. Fico feliz quando ela pega o carro e sai pra encontrar pessoas. Afinal, tenho meu
maldito hipódromo. Posso sempre escrever sobre o hipódromo, aquele grande buraco vazio de
lugar nenhum. Vou lá para me sacrificar, mutilar as horas, assassiná-las. As horas devem ser
mortas. Enquanto você está esperando. As horas perfeitas são as que passo nesta máquina. Mas
você tem que ter horas imperfeitas para ter as perfeitas. Você tem que matar dez horas para
que duas vivam. O que você tem que cuidar é para não matar TODAS as horas, TODOS os
anos.
Você se determina a ser um escritor fazendo coisas instintivas que alimentam você e a
palavra, que te protegem contra a morte em vida. É diferente para cada um. E, para cada um,
muda. Uma época, significava pra mim beber muito, beber até a loucura. Afiava a palavra para
mim, a trazia à tona. E eu precisava do perigo. Precisava me colocar em situações perigosas.
Com os homens. Com as mulheres. Com os carros. Com as apostas. Com a fome. Com
qualquer coisa. Alimentava a palavra. Tive décadas disso. Agora, mudou. O que preciso agora
é mais sutil, mais invisível. É um sentimento no ar. Palavras ditas, palavras ouvidas. Coisas
vistas. Ainda preciso de um trago. Mas agora estou em nuanças e sombras. Sou alimentado

com palavras por coisas que mal me dou conta. Isto é bom. Escrevo uma merda diferente
agora. Alguns já reparam.
"Você se superou", é o que me dizem, em geral.
Sei o que perceberam. Eu também sinto isso. As palavras ficaram mais simples, porém
mais quentes, mais sombrias. Estou sendo alimentado por novas fontes. Estar perto da morte é
energizante. Tenho todas as vantagens. Posso ver e sentir coisas que são escondidas dos
jovens. Passei do poder da juventude para o poder da idade. Não haverá declínio. Hã, hã.
Agora, com licença, devo ir pra cama. São 00:55. Terminando a noite. Riam enquanto podem...

24/08/92

00:28

Bem, já tenho 72 anos há oito dias e noites e nunca mais vou poder dizer isso.
Os últimos dois meses têm sido ruins. Cansado. Física e espiritualmente. A morte não
significa nada. É caminhar arrastando a bunda, é quando as palavras não vêm voando da
máquina, é o engano.
Agora, no meu lábio inferior e embaixo dele, há um grande inchaço. E eu não tenho
energia. Não fui ao hipódromo hoje. Só fiquei na cama. Cansado, cansado. A multidão dos
domingos no hipódromo é a pior delas. Tenho problemas com o rosto humano. Acho muito
difícil olhar para ele. Encontro a soma total da vida de cada pessoa escrita nele e é uma visão
terrível. Quando se veem milhares de rostos em um só dia, é cansativo dos pés à cabeça. E por
todas as entranhas. Os domingos são tão lotados. É o dia dos amadores. Eles gritam e
praguejam. Ficam enfurecidos. Depois, ficam duros e vão embora, falidos. O que esperavam?
Fiz uma operação de catarata no meu olho direito há alguns meses. A operação não era
tão simples como indicavam informações erradas que obtive de pessoas que diziam ter feito
operações no olho. Ouvi minha mulher falando com a mãe dela ao telefone: "Você disse que
terminou em alguns minutos? E que dirigiu pra casa depois?". Outro cara mais velho me disse:
"Ah, não é nada, acaba num instante e você pode fazer tudo normalmente". Outros falaram da
operação de uma forma casual. Foi um passeio no parque. Bem, não pedi a essas pessoas
informações sobre a operação, elas apareceram. Depois de um tempo, comecei a acreditar.
Mesmo assim, duvidava que uma coisa delicada como um olho pudesse ser tratada mais ou
menos como cortar uma unha do pé.
Na minha primeira consulta ao médico, ele examinou o olho e disse que eu precisava ser
operado.
"Tudo bem", eu disse, "vamos lá."
"O quê?", ele perguntou.
"Vamos fazer agora. Vamos nessa!"
"Espere", disse ele, "primeiro temos que marcar o hospital. Depois, têm outras
preparações. Primeiro, quero te mostrar um filme sobre a operação. Só dura uns 15 minutos."
"A operação?"
"Não, o filme."
O que acontece é que eles tiram todo o cristalino do olho e o substituem por um
cristalino artificial. O cristalino é costurado e o olho tem que se adaptar e se recuperar. Depois
de três semanas, os pontos são retirados. Não é nenhum passeio no parque e a operação
demora muito mais que "uns dois minutos".
De qualquer forma, quando tudo terminou, a mãe da minha mulher disse que
provavelmente estava pensando no procedimento pós-operatório. E o velho? Perguntei a ele:
"Quanto tempo levou para que a tua visão ficasse realmente melhor depois da operação no
olho?". "Não tenho certeza de ter operado", disse ele.

Será que eu estou com esse lábio gordo por ter bebido água na tigela do gato?
Me sinto um pouco melhor esta noite. Seis dias por semana no hipódromo podem
desgastar qualquer um. Tente uma vez. Daí, volte pra casa e trabalhe na sua novela.
Ou talvez a morte esteja me mandando alguns sinais?
Outro dia, fiquei pensando no mundo sem mim. Há o mundo continuando a fazer o que
faz. E eu não estou lá. Muito estranho. Penso no caminhão do lixo passando e levando o lixo e
eu não estou lá. Ou o jornal jogado no jardim e eu não estou lá para pegá-lo. Impossível. E,
pior, algum tempo depois de estar morto, vou ser verdadeiramente descoberto. E todos aqueles
que tinham medo de mim ou que me odiavam quando eu estava vivo vão subitamente me
aceitar. Minhas palavras vão estar em todos os lugares. Vão se formar clubes e sociedades.
Será nojento. Será feito um filme sobre a minha vida. Me farão muito mais corajoso e
talentoso do que sou. Muito mais. Será suficiente para fazer os deuses vomitarem. A raça
humana exagera tudo: seus heróis, seus inimigos, sua importância.
Os filhos da puta. É isso aí, me sinto melhor. Maldita raça humana. É isso aí, me sinto
melhor.
A noite está refrescando. Talvez eu pague a conta do gás. Lembro que no bairro central
sul de L.A. mataram uma mulher chamada Love por não ter pago a conta do gás. A companhia
queria desligar o gás. A mulher os expulsou. Não me lembro com o quê. Talvez uma pá. A
polícia veio. Não lembro como aconteceu. Acho que ela procurou alguma coisa no avental.
Eles atiraram e a mataram.
Tudo bem, tudo bem, vou pagar a conta do gás.
Estou preocupado com minha novela. É sobre um detetive. Mas eu fico colocando-o em
situações quase impossíveis e daí tenho que tirá-lo delas. Às vezes, penso numa solução
quando estou no hipódromo. Sei que meu editor está curioso. Talvez ele ache que o texto não
seja literário. Digo que qualquer coisa que faço é literário, mesmo que eu tente que não seja
literário. Ele já deveria confiar em mim. Bem, se ele não quiser o texto, vou despejá-lo em
outro lugar. Vai vender tão bem quanto qualquer coisa que escrevi, não porque é melhor, mas
porque é tão bom quanto antes e meus leitores malucos estão prontos pra ele.
Olhe, talvez uma boa noite de sono hoje e eu acorde de manhã sem esse lábio grosso.
Pode me imaginar me inclinando no guichê, com esse enorme lábio, dizendo: "20 no cavalo
6?". Claro. Eu sei. O cara não ia nem notar. Minha mulher me perguntou: "O seu lábio não foi
sempre assim?".
Meu Deus.
Você sabia que os gatos dormem 20 das 24 horas do dia? Não se admira que tenham
melhor aparência do que eu.

28/08/92

00:40

Existem milhares de armadilhas na vida e a maioria de nós cai em muitas. A ideia, no
entanto, é ficar fora de quantas for possível. Fazer isso te ajuda a ficar tão vivo quanto
possível até você morrer...
A carta chegou dos escritórios da estação de uma rede de televisões. Era muito simples,
dizendo que esse cara, vamos chamá-lo de Joe Singer, queria vir aqui. Para falar de uma
proposta. Na página 1 da carta, estavam grudadas duas notas de cem dólares. Na página 2,
havia outros cem. Eu estava a caminho do hipódromo. Descobri que as notas de cem dólares se
destacavam com facilidade da carta, sem danos. Havia um número de telefone. Decidi ligar
para Joe Singer naquela noite, depois dos páreos.
Foi o que fiz. Joe foi informal, gentil. A ideia, disse ele, era criar um seriado de TV
baseado em um escritor como eu. Um cara velho que ainda estava escrevendo, bebendo,
apostando em cavalos.
"Por que não nos encontramos e conversamos sobre isso?", perguntou.
"Você vai ter que vir aqui", eu disse, "à noite."
"Tudo bem", disse ele, "quando?"
"Depois de amanhã."
"Legal. Você sabe quem eu quero que faça o seu papel?"
"Quem?"
Ele mencionou um ator, vamos chamá-lo de Harry Dane. Eu sempre gostei de Harry
Dane.
"Ótimo", disse eu, "e obrigado pelos 300."
"Queríamos chamar a sua atenção."
"Conseguiram."
Bom, a noite chegou e lá estava Joe Singer. Parecia agradável o suficiente, inteligente,
gentil. Bebemos e conversamos, sobre cavalos e várias coisas. Não muito sobre o seriado.
Linda, minha mulher, estava junto.
"Nos conte mais sobre o seriado", disse ela.
"Tudo bem, Linda", eu disse, "só estamos relaxando..."
Achei que Joe Singer tinha vindo mais ou menos para ver se eu era louco ou não.
"Tudo bem", disse ele, pegando sua pasta. "Aqui está um esboço..."
Me passou umas quatro ou cinco folhas de papel. Era em grande parte uma descrição do
personagem principal e achei que tinham me descrito razoavelmente bem. O velho escritor
vivia com esta garota jovem, que recém tinha saído da faculdade, ela fazia todo o trabalho
sujo, arrumava suas leituras e coisas assim.
"A TV queria essa garota aí, sabe", disse Joe.
"É", eu disse.

Linda não disse nada.
"Bem", disse Joe, "olhe isso de novo. Também tem algumas ideias, ideias de enredo,
cada episódio terá um ponto de vista diferente, você sabe, mas tudo será baseado no seu
personagem."
"Tudo bem", eu disse. Mas comecei a ficar meio apreensivo.
Bebemos por mais umas duas horas. Não me lembro muito da conversa. Conversa fiada.
E a noite terminou...
No dia seguinte, depois do hipódromo, li a página com as ideias para os episódios.
1. O desejo de Hank de jantar lagosta é frustrado por ativistas dos direitos animais.
2. A secretária arruina as chances de Hank com uma garota que transava com poetas.
3. Para homenagear Hemingway, Hank come uma garota chamada Millie, cujo marido,
um jóquei, quer pagar Hank para continuar transando com ela. Tem que haver um gancho.
4. Hank permite que um jovem artista pinte seu retrato e é forçado a revelar sua própria
experiência homossexual.
5. Um amigo de Hank quer que ele invista em sua mais nova ideia. Um uso industrial
para vômito reciclado.
Liguei para Joe.
"Meu Deus, cara, o que é isso sobre uma experiência homossexual? Eu nunca tive
nenhuma."
"Bem, não precisamos usar essa."
"Não vamos mesmo. Escute, falo com você depois, Joe."
Desliguei. As coisas estavam ficando estranhas.
Liguei para Harry Dane, o ator. Já tinha estado aqui em casa algumas vezes. Tinha um
ótimo rosto marcado pelo tempo e era sincero. Não era afetado. Gostava dele.
"Harry", disse eu, "tem essa rede, esse canal de TV ­ querem fazer um seriado baseado
em mim e querem que você seja o ator. Falaram com você?"
"Não."
"Achei que poderia reunir você e esse cara e ver o que acontece."
"Que canal?"
Eu disse o canal.
"Mas essa é uma TV comercial, censura, comerciais, risadas gravadas."
"Esse cara, Joe Singer, disse que tem muita liberdade no que fazem."
"É censura, você não pode ofender os anunciantes."
"O que eu mais gostei é que ele queria que você fizesse o papel principal. Por que você
não vem aqui em casa para conhecê-lo?"
"Gosto do que você escreve, Hank, se pudéssemos conseguir, digamos, a HBO, talvez
saísse legal."
"Bem, é. Mas por que você não vem aqui, ver o que ele tem a dizer? Faz tempo que eu
não te vejo."

"Tudo bem. Tá legal, vou, mas principalmente para ver você e Linda."
"Ótimo. Que tal depois de amanhã? Vou combinar com ele."
"Tudo bem", ele disse.
Telefonei para Joe Singer.
"Joe. Depois de amanhã, nove da noite. O Harry Dane vem aqui."
"Legal, ótimo. Podemos mandar uma limusine buscá-lo."
"Vai estar só ele na limusine?"
"Talvez. Ou talvez alguém do nosso pessoal esteja junto."
"Bem, não sei. Vou te ligar de novo..."
"Harry, eles estão tentando te comprar, querem mandar uma limusine pra te buscar."
"Seria só pra mim?"
"Ele não tinha certeza."
"Pode me dar o número do telefone dele?"
"Claro."
E foi isso.
Quando, mais tarde, cheguei do hipódromo, Linda disse: "Harry Dane ligou. Falamos
sobre o negócio da TV. Perguntou se precisávamos de dinheiro. Eu disse que não".
"Ele ainda vem aqui?"
"Vem."
Cheguei um pouco mais cedo do hipódromo no dia seguinte. Decidi ir pra piscina de
hidromassagem. Linda tinha saído, provavelmente para comprar libações para o encontro. Eu
mesmo estava ficando com um pouco de medo do seriado de TV. Ele podia me foder de vez.
Velho escritor faz isso, Velho escritor faz aquilo. Risadas gravadas. Velho escritor fica
bêbado, perde encontro de poesia. Bem, isso não seria tão ruim. Mas eu ia querer escrever a
merda, e, assim, os textos não iam ser tão bons. Escrevi por décadas em quartos apertados,
dormindo em bancos de praça, sentando em bares, trabalhando em todos os empregos idiotas,
enquanto escrevia e escrevia exatamente como eu queria e achava que devia. Finalmente, meu
trabalho estava sendo reconhecido. E eu ainda escrevia do jeito que eu queria e sentia que
devia. Ainda escrevia para não ficar louco, ainda escrevia para explicar esta maldita vida para
mim mesmo. E aqui estava eu, sendo convencido para fazer um seriado de TV em um canal
comercial. Poderiam tirar sarro de tudo porque eu tinha lutado tanto, em um seriado cômico
com risadas gravadas. Meu Deus, meu Deus.
Tirei a roupa e fui para a beira da piscina. Estava pensando sobre o seriado de TV, no
meu passado, agora e em tudo mais. Estava meio desligado. Entrei na piscina do lado errado.
Me dei conta na hora que entrei. Não havia degraus daquele lado. Aconteceu
rapidamente. Havia uma pequena plataforma no fundo, feita para sentar. Meu pé direito pisou
nela, escorregou e perdi o equilíbrio.
Você vai bater a cabeça na borda da piscina, me passou pela cabeça.
Me concentrei em empurrar minha cabeça para a frente enquanto caía, deixando que todo

o resto se fodesse. Minha perna direita pegou o grosso da queda, foi torcida, mas consegui
evitar que a cabeça batesse na borda. Daí, fiquei boiando na água borbulhante, sentindo
agulhadas de dor na perna direita. De qualquer forma, já estava sentindo dores ali, e agora
estava mal de vez. Me senti idiota com tudo aquilo. Poderia ter desmaiado. Poderia ter me
afogado. Linda voltaria para casa e me encontraria boiando, morto.
FAMOSO ESCRITOR, EX-POETA MARGINAL E BÊBADO É ENCONTRADO
MORTO NA PISCINA.
TINHA ACABADO DE ASSINAR UM CONTRATO PARA UM SERIADO CÔMICO
BASEADO EM SUA VIDA.
Isso não é nem mesmo um fim ignóbil. É ser totalmente cagado pelos deuses.
Consegui sair da piscina e ir até a casa. Mal conseguia caminhar. Cada passo na perna
direita dava uma agulhada fortíssima desde o calcanhar até o joelho. Me arrastei até o
refrigerador e tirei uma cerveja...
Harry Dane chegou primeiro. Veio no seu próprio carro. Pegamos o vinho e começamos a
beber. Quando Joe Singer chegou, já tínhamos tomado algumas. Fiz as apresentações. Joe
mostrou o formato geral do seriado proposto para Harry. Harry fumava e bebia o vinho muito
rápido.
"Tudo bem, tudo bem", disse ele, "mas e a trilha sonora? E Hank e eu teríamos controle
total sobre o material. Mas eu não sei. Existe a censura..."
"Censura? Que censura?", perguntou Joe.
"Patrocinadores, você tem que agradar os patrocinadores. Há um limite de até onde se
pode ir com esse material."
"Teremos liberdade total", disse Joe.
"Não pode ser", disse Harry.
"Risadas gravadas são horríveis", disse Linda.
"É", eu disse.
"É que", disse Harry, "já trabalhei em seriados de TV. É um saco, leva horas e horas por
dia, é pior que fazer um filme. É trabalho duro."
Joe não respondeu.
Continuamos todos a beber. Passaram umas duas horas. As mesmas coisas pareciam ser
ditas de novo. Harry dizia que talvez devêssemos ir à HBO. E que as risadas gravadas eram
horríveis. E Joe dizia que estaria tudo bem, que havia muita liberdade na TV comercial, que os
tempos tinham mudado. Era realmente muito chato, terrível. Harry estava bebendo demais.
Daí começou a falar sobre o que estava errado no mundo e as principais causas disso. Tinha
uma certa ideia que repetia com frequência. Era uma boa ideia. Infelizmente, era tão boa que
eu esqueci. Mas Harry continuava.
De repente, Joe levantou-se num salto. "Bem, que merda, vocês fizeram um monte de
filmes ruins! A TV fez algumas coisas boas! Nem tudo que fazemos é podre! Vocês ficam
falando desses filmes de merda!"
E correu para o banheiro.

Harry olhou para mim e deu um sorriso amarelo. "Puxa, ele ficou furioso, não?"
"É, Harry."
Servi mais um pouco de vinho. Sentamos e esperamos. Joe Singer ficou no banheiro um
tempão. Quando saiu, Harry ficou lá falando com ele. Não consegui ouvir o que diziam. Acho
que Harry ficou com pena dele. Logo depois, Joe começou a juntar suas coisas e colocar
dentro da pasta. Foi até a porta e olhou para mim: "Te ligo", disse ele.
"Tudo bem, Joe."
Então, foi embora.
Linda, Harry e eu continuamos a beber. Harry continuou falando sobre o que estava
errado com o mundo, repetindo aquela ótima ideia, que eu não consigo me lembrar. Não
falamos muito sobre a proposta do seriado de TV. Quando Harry foi embora, ficamos
preocupados por ele ir dirigindo. Dissemos que ele poderia ficar. Ele não aceitou. Disse que
poderia chegar em casa. Por sorte, conseguiu.
Joe Singer ligou na noite seguinte.
"Escute, não precisamos daquele cara. Ele não quer trabalhar. Podemos conseguir outra
pessoa."
"Mas, Joe, uma das principais razões por que me interessei no início foi por causa da
possibilidade de Harry Dane."
"Podemos conseguir outra pessoa. Vou te escrever, vou te mandar uma lista, vou
trabalhar nisso."
"Não sei, Joe..."
"Vou te escrever. E escute, falei com o pessoal e eles disseram que tudo bem, sem
risadas gravadas. Eles até disseram que não seria problema ir pra HBO. Isto me surpreendeu
porque eu trabalho pra eles, não pra HBO. De qualquer forma, vou te mandar uma lista de
atores..."

"Tudo bem, Joe..."
Eu continuava preso à teia. Agora, eu queria cair fora, mas não sabia bem como dizer
isso a ele. Isso me surpreendeu, em geral, eu era bom pra me livrar das pessoas. Me senti
culpado porque provavelmente ele tinha se esforçado muito para aquilo. E, originalmente,
num primeiro momento, a ideia de um seriado baseado em mim deve ter apelado para minha
vaidade. Mas agora não parecia uma coisa boa. Me senti uma merda com a coisa toda.
Uns dois dias depois, chegaram as fotos dos atores, um monte delas, e as favoritas
estavam marcadas. O número do telefone do agente estava ao lado de cada foto dos atores.
Fiquei enjoado de ver todos aqueles rostos, a maioria sorrindo. Os rostos eram banais, vazios,
muito Hollywood, muito, muito horripilantes. Junto com as fotos, havia uma nota curta:
"...saindo para três semanas de férias. Quando voltar, vou fazer esse negócio funcionar de
verdade..."
Foram os rostos que decidiram por mim. Não podia aguentar mais. Sentei e deixei fluir
no computador:

"...Tenho pensado muito no(s) seu(s) projeto(s) e, francamente, não posso fazê-lo. Isto
significaria o fim da minha vida como a tenho vivido e quis viver. É uma intromissão grande
demais na minha existência. Me faria muito infeliz, deprimido. Este sentimento foi surgindo
aos poucos, mas não sei bem como explicá-lo a você. Quando você e Harry discutiram naquela
noite, me senti ótimo, achei que tinha terminado. Mas você volta com uma nova lista de
atores. Quero ficar de fora, Joe, não posso lidar com isso. Foi uma sensação que tive desde o
começo e essa sensação ficou cada vez mais forte à medida que as coisas progrediram. Não
tenho nada contra você, você é um jovem inteligente que quer injetar sangue novo na TV ­
mas que não seja o meu. Talvez você não compreenda minha preocupação, mas, acredite, ela é
real, muito real. Deveria me sentir homenageado por você querer mostrar a minha vida para as
massas, mas, sinceramente, fico totalmente aterrorizado com essa ideia, sinto como se a
minha própria vida estivesse sendo ameaçada. Tenho que cair fora. Não consigo dormir de
noite, não consigo pensar, não consigo fazer nada.
Por favor, não telefone, não escreva. Nada pode mudar isso."
No dia seguinte, a caminho do hipódromo, coloquei a carta no correio. Me senti renascer.
Talvez eu ainda tivesse que lutar para me livrar. Mas eu iria aos tribunais. Qualquer coisa. De
certa forma, senti pena de Joe Singer. Mas, à merda com tudo, eu estava livre de novo.
Na estrada, liguei o rádio e, por sorte, tocava Mozart. A vida pode ser boa em certos
momentos, mas, às vezes, isso depende de nós.

30/08/92

01:30

Estava descendo a escada rolante no hipódromo depois do 6o páreo quando o garçom me
viu. "Está indo pra casa agora?", perguntou.
"Eu não faria isso com você, amigo", disse pra ele.
Os coitados têm que trazer comida da cozinha do hipódromo para os andares de cima
carregando uma quantidade enorme nas bandejas. Quando os clientes fogem sem pagar, são
eles que pagam a conta. Alguns dos apostadores sentam em quatro numa mesa. Os garçons
poderiam trabalhar o dia inteiro e ainda dever dinheiro ao hipódromo. E os dias cheios são os
piores, os garçons não podem vigiar todo mundo. E quando são pagos, os apostadores dão
umas gorjetas miseráveis.

Desci para o primeiro andar e fui para fora, fiquei tomando sol. Estava ótimo lá. Talvez
eu venha para o hipódromo e só fique tomando sol. Raramente penso em escrever lá, mas o fiz
desta vez. Pensei em algo que tinha lido recentemente, que eu era provavelmente o poeta
americano mais vendido e o mais influente, mais copiado. Que estranho. Bem, à merda com

isso. Tudo que importava era a próxima vez que eu sentaria no computador. Se ainda pudesse
fazer isso, estaria vivo; se não, tudo o que tinha acontecido antes pouco significaria para mim.
Mas o que estava fazendo, pensando sobre escrever? Eu estava pirando. Não pensava sobre
escrever nem mesmo quando estava escrevendo. Daí, ouvi a chamada para a largada, dei a
volta, entrei e fui de novo para a escada rolante. Na subida, passei por um cara que me devia
dinheiro. Ele olhou para baixo. Fingi que não o tinha visto. Não fez a menor diferença depois
que ele me pagou, porque pediu a grana emprestada de volta. Um velho veio até mim, mais
cedo: "Me dá 60 centavos!". Isso era suficiente para uma aposta de dois paus, mais uma
chance para sonhar. Era um lugar desgraçado e triste, mas quase todos os lugares são. Não
havia outro lugar para ir. Bem, havia, você poderia ir para o seu quarto e fechar a porta, mas
daí sua mulher ia ficar deprimida. Ou mais deprimida. A América era a Terra das Esposas
Deprimidas. E era culpa dos homens. Claro. De quem mais? Não se poderia culpar os pássaros,
os cachorros, os gatos, as minhocas, os ratos, as aranhas, os peixes, os etc. Eram os homens. E
os homens não podiam se permitir ficar deprimidos, se não o barco inteiro afundava. Bem, que
diabos.
Voltei à minha mesa. Três caras estavam na mesa ao lado e tinham um garotinho com
eles. Cada mesa tinha um pequeno aparelho de TV, só que o deles estava ligado no volume
MÁXIMO. O garoto tinha ligado numa comédia e era legal que os homens deixassem o garoto
ver seu programa. Mas ele não estava prestando a menor atenção a ele, não estava ouvindo,
estava sentado lá empurrando um pedaço de papel enrolado. Ele jogava o papel contra as
xícaras, e daí pegava o papel e jogava dentro de uma outra xícara. Algumas das xícaras
estavam cheias de café. Mas os homens continuaram a falar sobre cavalos. Meu Deus, aquela
TV estava ALTA. Pensei em dizer alguma coisa pros caras, pedir que abaixassem um pouco a
TV. Mas eram pretos e iriam pensar que eu era racista. Saí da mesa e fui até os guichês. Não
tive sorte, entrei numa fila lenta. Na frente, tinha um cara velho com dificuldade de fazer suas
apostas. Estava com a sua lista aberta na frente do guichê, junto com seu programa, e hesitava
muito sobre o que queria fazer. Provavelmente, vivia num asilo de velhos ou em algum tipo de
instituição, mas saiu para passar um dia no hipódromo. Bem, não existe nenhuma lei contra
isso e nenhuma lei contra ele estar atrapalhado. Mas, de alguma forma, incomodava. Jesus,
não tenho que sofrer isso, pensei. Tinha memorizado a parte de trás de sua cabeça, suas
orelhas, suas roupas, as costas curvadas. Os cavalos estavam se aproximando do partidor.
Todo mundo estava gritando com ele. Ele nem notou. Então, dolorosamente, o vimos pegar a
carteira lentamente. Câmera lenta, lenta. Abriu-a e olhou dentro dela. Daí, enfiou os dedos lá
dentro. Não quero mais continuar. Finalmente, pagou, e o bilheteiro lentamente devolveu o
troco. Daí, ele ficou lá olhando o dinheiro e as pules, voltou-se para o bilheteiro e disse: "Não,
eu queria a dupla exata 6-4, não era isso...". Alguém gritou uma obscenidade. Saí dali. Os
cavalos saltaram do partidor e fui ao banheiro mijar.
Quando voltei, o garçom tinha minha conta pronta. Paguei, dei uma gorjeta de 20% e
agradeci.
"Te vejo amanhã, amigo", disse ele.
"Talvez", eu disse.
"Você vai estar aqui", disse ele.

Os outros páreos continuaram. Apostei cedo no 9o e fui embora. Saí 10 minutos antes da
formação. Entrei no meu carro e saí. No final do estacionamento no Century Boulevard, ao
lado do sinal, havia uma ambulância, um carro de bombeiros e dois carros da polícia. Dois
carros tinham batido de frente. Havia vidro por todo lado, os carros estavam totalmente
destruídos. Alguém estava com pressa para entrar e alguém estava com pressa para sair.
Apostadores de cavalos.
Passei pelo lado do acidente e entrei à esquerda na Century.
Mais um dia baleado na cabeça e enterrado. Foi outro sábado de tarde no inferno. Dirigi
junto com os outros.

15/09/92

01:06

E ainda falam do bloqueio do escritor. Acho que fui mordido por uma aranha. Três vezes.
Reparei nesses três grandes vergões vermelhos no meu braço esquerdo na noite de 08-9-92.
Pelas nove da noite. Doíam um pouco quando tocava. Decidi ignorá-los. Mas depois de uns 15
minutos, mostrei as marcas a Linda. Naquele dia, ela tinha estado num pronto-socorro.
Alguma coisa tinha deixado um ferrão em suas costas. Era depois das nove da noite, tudo
fechado a não ser a Emergência do hospital local. Já havia estado lá antes: tinha caído numa
lareira quente quando estava bêbado. Não tinha caído direto no fogo, mas caí na superfície
quente e estava só de calção. Agora, era isso. Esses vergões.
"Acho que vou me sentir um idiota indo lá só com esses vergões. Lá tem gente
ensanguentada por acidentes de carro, facadas, tiros, tentativas de suicídio e tudo o que tenho
são três vergões vermelhos."
"Não quero me acordar de manhã com um marido morto", Linda disse.
Pensei nisso por 15 minutos e daí disse: "Tudo bem, vamos lá".
Estava calmo lá dentro. Uma senhora no balcão estava ao telefone. Ficou no telefone por
um tempo. Daí, terminou.
"Sim?", perguntou.
"Acho que fui mordido por alguma coisa", eu disse. "Talvez devessem dar uma olhada."
Disse a ela meu nome. Eu estava no computador. Última consulta: época da tuberculose.
Me levaram para uma sala. A enfermeira fez o de sempre. Pressão sanguínea.
Temperatura.
Daí, o médico. Ele examinou os vergões.
"Parece ser uma aranha", ele disse, "em geral, mordem três vezes."
Me deram uma injeção contra tétano, uma receita para alguns antibióticos e um pouco de
Benadryl.
Fomos até uma farmácia de plantão para comprar as coisas.
Tinha que tomar uma cápsula de Duricef 500 mg a cada 12 horas. O Benadryl, uma a
cada quatro horas.
Comecei. E aí que está. Depois de um dia ou mais, me sentia do mesmo jeito que na
época que tomava antibióticos para tuberculose. Só que então, por causa da minha fraqueza, eu
mal conseguia subir e descer as escadas, tinha que me arrastar pelo corrimão. Agora, só tinha
essa sensação nauseante, esse embotamento na cabeça. Doente no corpo, vazio na cabeça. Pelo
terceiro dia, sentei na frente deste computador pra ver se surgia alguma coisa. Só fiquei
sentado ali. Deve ser assim que você sente quando ela finalmente deixa você. E não há nada
que você possa fazer. Aos 72 anos, é sempre possível que ela me deixe. A capacidade de
escrever. Era um medo. E não era quanto à fama. Ou quanto ao dinheiro. Era quanto a mim. Eu
era mimado. Eu precisava da fuga, do divertimento, da liberação do escrever. A segurança do
escrever. O maldito trabalho disso. Todo o passado não significava nada. A reputação não

significava nada. Tudo o que importava era a linha seguinte. E se a próxima linha não surgisse,
eu estaria morto, mesmo que, tecnicamente, estivesse vivo.
Já parei de tomar os antibióticos há 24 horas, mas ainda me sinto embotado, um pouco
doente. Falta brilho e gás neste texto. Azar, garoto.
Agora, amanhã, devo ir ao meu médico de sempre para ver se preciso de mais
antibióticos. Os vergões ainda estão lá, apesar de menores. Quem sabe por quê?
Ah, sim, a amável senhora do balcão da recepção, assim que eu estava saindo, começou a
falar sobre mordidas de aranha. "É, teve esse sujeito de uns vinte anos. Foi mordido por uma
aranha, agora está paralítico da cintura pra cima."
"É mesmo?", perguntei.
"É", disse ela, "e houve um outro caso. Esse sujeito..."
"Deixe pra lá", disse a ela, "temos que ir embora."
"Bem", ela disse, "tenham uma boa noite."
"Você também", eu disse.

06/11/92

00:08

Esta noite, me sinto envenenado, mijado, usado, gasto até o osso. Não é só a velhice, mas
pode ter algo a ver com isso. Acho que a multidão, aquela multidão, a Humanidade, que
sempre foi difícil pra mim, aquela multidão está ganhando, afinal. Acho que o grande
problema é que tudo é uma performance repetida pra eles. Não há novidade neles. Nem
mesmo o menor dos milagres. Apenas se arrastam sobre mim. Se, um dia, eu pudesse ver
UMA pessoa fazendo ou dizendo algo incomum me ajudaria a seguir em frente. Mas são
rançosos, bolorentos. Não há emoção. Olhos, ouvidos, pernas, vozes, mas... nada. Congelam-se
dentro de si mesmos, se enganam, fingindo que estão vivos.
Era melhor quando eu era jovem, eu ainda procurava. Percorria as ruas à noite
procurando, procurando... me misturando, lutando, buscando... Não encontrei nada. Mas o
cenário geral, o nada, ainda não tinha tomado conta. Nunca encontrei um amigo de verdade.
Com as mulheres, havia esperança com cada uma, mas isso era no princípio. Mesmo no
começo, eu saquei, parei de procurar a Garota Ideal; eu só queria uma que não fosse um
pesadelo.
Com as pessoas, tudo que encontrei foram os vivos que agora estavam mortos ­ nos
livros, na música clássica. Mas isso ajudava, por um tempo. Mas havia apenas uns poucos
livros mágicos e interessantes, daí parou. A música clássica era meu baluarte. Escutava muito
no rádio, ainda escuto. E sempre me surpreendo, mesmo agora, quando escuto algo forte,
novo, que não ouvi antes, e isso acontece com bastante frequência. Enquanto escrevo agora,
estou escutando algo no rádio que nunca ouvi antes. Me empapuço de cada nota como um
homem faminto de sangue novo e novo significado e lá estão. Fico absolutamente admirado
pela grande quantidade de excelentes músicas, séculos e séculos delas. É possível que muitas
grandes almas tenham existido. Não posso explicar, mas é uma grande sorte eu ter isso na
vida, sentir isso, me alimentar disso e festejar. Nunca escrevo nada sem ter o rádio ligado com
música clássica, sempre foi parte do meu trabalho, escutar esta música enquanto escrevo.
Talvez, algum dia, alguém me explique por que há tanta energia do Milagre na música
clássica. Duvido que algum dia alguém me diga isso. Só me resta imaginar. Por quê, por quê,
por que não existem mais livros com esse poder? O que está errado com os escritores? Por que
existem tão poucos bons?

O rock não me toca. Fui a um show de rock mais por causa da minha mulher, Linda.
Claro, sou um cara legal, hem, hem? De qualquer forma, os ingressos eram de graça, cortesia
de um músico de rock que lê os meus livros. Devíamos ir para um camarote especial para os
famosos. Um diretor, ex-ator, veio nos buscar na sua caminhonete esporte. Outro ator estava
com ele. São talentosos, do seu jeito, e não são maus seres humanos. Fomos até a casa do
diretor, lá estava sua mulher, vimos seu bebê e daí saímos numa limusine. Drinques, conversa.
O show era no Dodger Stadium. Chegamos atrasados. A banda estava no palco, um som
ensurdecedor, gigante, 25.000 pessoas. Havia uma vibração, mas foi breve. Era muito
simplório. Acho que as letras seriam legais se você conseguisse ouvi-las. Provavelmente,
falavam de Causas, Decências, Amor achado e perdido etc. As pessoas precisam daquilo ­
anti-sistema, anti-pais, anti-alguma coisa. Mas uma banda milionária e bem-sucedida como
aquela, independentemente do que disser, AGORA FAZIA PARTE DO SISTEMA.
Depois de um certo tempo, o líder da banda disse: "Este show é dedicado a Linda e
Charles Bukowski!". 25.000 pessoas aplaudiram como se soubessem quem éramos. Isso é pra
morrer de rir.
Grandes estrelas do cinema andavam por ali. Já os tinha encontrado antes. Me preocupei
com isso. Fiquei preocupado que diretores e atores viessem à nossa casa. Eu não gostava de
Hollywood, os filmes raramente me emocionavam. O que eu estava fazendo ali, com aquelas

pessoas? Será que estava sendo sugado? 72 anos brigando a briga certa para ser sugado?
O show quase tinha terminado e seguimos o diretor para o bar VIP. Estávamos entre os
eleitos. Puxa!
Lá dentro, havia mesas, um bar. E os famosos. Fui até o bar. Os drinques eram de graça.
Havia um enorme barman preto. Pedi meu drinque e disse a ele: "Depois que eu tomar esse,
vamos voltar lá e atacar".
O barman sorriu.
"Bukowski!"
"Você me conhece?"
"Costumava ler suas Notas de um Velho Safado na L.A. Free Press e Open City."
"Bem, quem diria..."
Apertamos as mãos. A luta foi cancelada.
Linda e eu falamos com várias pessoas, não sei sobre o quê. Eu continuava voltando ao
bar a toda hora para pegar a minha vodka 7's. O barman me servia em copos altos. Eu também
tinha bebido na limusine no caminho para o show. A noite ficou mais fácil pra mim, era só
uma questão de beber bastante, rápido e com frequência.
Quando o astro do rock chegou, eu já estava mais pra lá do que pra cá, mas ainda estava
aqui. Ele sentou e conversamos, mas não lembro sobre o quê. Daí chegou a hora do black-out.
Evidentemente fomos embora. Só sei porque me contaram depois. A limusine nos levou de
volta pra casa. Quando cheguei em casa, tropecei nos degraus, caí e bati a minha cabeça nos
tijolos. Recém tínhamos colocado os tijolos. Cortei a cabeça e machuquei a mão direita e as
minhas costas.
Descobri a maior parte disso de manhã, quando levantei pra dar uma mijada. Havia o
espelho. A minha aparência era a dos velhos tempos das brigas de bar. Cristo. Lavei um pouco
do sangue, dei comida aos nossos nove gatos e voltei pra cama. A Linda também não estava se
sentindo bem. Mas ela tinha visto seu show de rock.
Sabia que não conseguiria escrever por três ou quatro dias e que demoraria uns dois para
voltar ao hipódromo.
De volta para a música clássica. Fui homenageado e tudo mais. Era legal que os astros do
rock lessem o meu trabalho, mas sabia de homens nas cadeias e nos hospícios que também
liam. Não posso controlar quem lê o meu trabalho. Esqueça.
É bom sentar aqui esta noite, neste quartinho no segundo andar, ouvindo o rádio, o velho
corpo, a velha mente remendando. Aqui é o meu lugar, assim. Assim. Assim.

21/02/93

00:33

Fui ao hipódromo hoje, na chuva, e vi vencerem sete favoritos em nove. Não tem jeito de
eu ganhar quando isso acontece. Vi as horas serem baleadas na cabeça e olhei as pessoas
estudando suas listas de barbadas, seus jornais e programas de páreos. Muitos foram embora
cedo, descendo as escadas rolantes. (Ruído de tiros lá fora, enquanto escrevo isso, a vida volta
ao normal.) Depois de uns quatro ou cinco páreos, saio das sociais e desço para a área das
populares. Havia uma diferença. Menos brancos, é claro, mais pobres, é claro. Lá embaixo, eu
era minoria. Dei uma volta e senti o desespero no ar. Estes eram apostadores de dois dólares.
Não apostavam nos favoritos. Apostavam na ponta, na dupla exata, na dupla. Buscavam um
monte de dinheiro com pouco dinheiro e estavam se afogando. Se afogando na chuva. Era
triste ali. Eu precisava de um novo hobby. O hipódromo tinha mudado. Há quarenta anos,
havia uma certa alegria, mesmo entre os perdedores. Os bares ficavam lotados. Era um pessoal
diferente, uma cidade diferente, um mundo diferente. Não havia dinheiro pra jogar pra cima,
dinheiro à-merda-com-ele, dinheiro voltaremos-amanhã. Era o fim do mundo. Roupas velhas.
Rostos retorcidos e amargurados. Era dinheiro alugado. O dinheiro a cinco dólares a hora. O
dinheiro dos desempregados, dos imigrantes ilegais. O dinheiro dos batedores de carteira, dos
assaltantes, o dinheiro dos deserdados. O ar era sombrio. E as filas eram longas. Faziam os
pobres esperar em longas filas. E ficavam nelas para ver seus sonhos esmagados.
Esse era o Hollywood Park, localizado na região dos pretos, no distrito dos centroamericanos e outras minorias.
Voltei para cima, nas sociais, às filas menores. Entrei na fila, joguei 20 no segundo mais
apostado.
"Quando você vai fazer?", perguntou o bilheteiro.
"Fazer o quê?", perguntei.
"Cobrar algumas pules."
"Qualquer dia desses", disse a ele.
Me virei e fui embora. Escutei-o dizendo mais alguma coisa. Velho grisalho e corcunda.
Ele estava num mau dia. Muitos dos bilheteiros apostam. Eu tentava pegar um bilheteiro
diferente cada vez que apostava, eu não queria ficar íntimo. O filho da puta passou dos limites.
Não era da sua conta se eu cobrasse os bilhetes ou não. Os bilheteiros apostavam com você
quando você estava ganhando. Perguntavam uns aos outros: "O que ele apostou?". Mas se você
dava a dica errada, ficavam putos. Deviam pensar por si mesmos. Só porque eu estava lá todos
os dias não significava que eu era um apostador profissional. Eu era um escritor profissional.
Às vezes.
Estava dando uma caminhada e vi esse garoto correndo na minha direção. Eu sabia o que
era. Bloqueou meu caminho.
"Com licença", disse ele, "você é Charles Bukowski?"
"Charles Darwin", disse eu, e passei pelo lado.

Não queria ouvir o que quer que fosse me dizer.
Assisti ao páreo e meu cavalo chegou em segundo, vencido pelo outro favorito. Às vezes,
ou quando a pista está embarrada, a maioria dos favoritos ganha. Não sei por que isso
acontece. Mas dei no pé do hipódromo e fui pra casa.
Cheguei em casa, cumprimentei Linda. Verifiquei o correio.
Carta de rejeição da Oxford American. Verifiquei os poemas. Nada mal, bons, mas não
excepcionais. Apenas um dia de perdedor. Mas eu ainda estava vivo. Era quase o ano 2000 e
eu ainda estava vivo, seja lá o que isso signifique.
Saímos para jantar em um restaurante mexicano. Muita conversa sobre a luta daquela
noite. Chavez e Haugin diante de 130.000 na Cidade do México. Achava que Haugin não tinha
nenhuma chance. Ele tinha coragem, mas não tinha pegada, movimento e já tinha passado uns
três anos do seu auge.
Aquela noite foi como esperado. Chavez nem mesmo se sentou entre os rounds. Quase
não alterou a respiração. A coisa toda foi um evento limpo, cabal, brutal. Os socos que Chavez
dava me faziam estremecer. Era como bater nas costelas de uma pessoa com uma marreta.
Chavez finalmente encheu o saco de lutar e o derrubou.
"Bem, afinal", disse para minha mulher, "pagamos para ver exatamente o que
pensávamos ver."
A TV foi desligada.
Amanhã, os japoneses vêm me entrevistar. Um dos meus livros foi traduzido para o
japonês e outro está a caminho. O que vou dizer a eles? Falar sobre cavalos? Sobre a vida
sendo estrangulada nas trevas da tribuna de honra? Talvez eles devam apenas fazer perguntas.
Deveriam. Eu era um escritor, não? Era tão estranho, mas todo mundo tinha que ser alguma
coisa, não é? Sem-teto, famoso, gay, louco, qualquer coisa. Se eles mais uma vez fizerem sete
favoritos ganharem em nove páreos, vou começar a fazer outra coisa. Correr. Ou os museus.
Ou pintura com os dedos. Ou xadrez. Isso, merda, é tão estúpido quanto.

27/02/93

00:56

O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio.
Por que há tão poucas pessoas interessantes? Em milhões, por que não há algumas?
Devemos continuar a viver com esta espécie insípida e tediosa? Parece que seu único ato é a
Violência. São bons nisso. Realmente florescem. Flores de merda, emporcalhando nossas
chances. O problema é que tenho que continuar a me relacionar com eles. Isto é, se eu quiser
que as luzes continuem acesas, se eu quiser consertar esse computador, se eu quiser dar a
descarga na privada, comprar um pneu novo, arrancar um dente ou abrir a minha barriga,
tenho que continuar a me relacionar. Preciso dos desgraçados para as menores necessidades,
mesmo que eles mesmos me causem horror. E horror é uma gentileza.
Mas eles pisoteiam a minha consciência com seu fracasso em áreas vitais. Por exemplo,
todos os dias, volto do hipódromo apertando o rádio em diferentes estações, procurando
música, música decente. Tudo é ruim, insípido, sem vida, sem melodia, indiferente. Mesmo
assim, algumas dessas composições são vendidas aos milhões e seus criadores se consideram
verdadeiros Artistas. É horrível, uma idiotice terrível entrando em jovens cabeças. Eles
gostam disso. Cristo, dê merda a eles, e eles comem. Não conseguem discernir? Não
conseguem ouvir? Não sentem a diluição, o mofo?
Não posso acreditar que não haja nada. Continuo tentando novas rádios. Meu carro tem
menos de um ano, mas a tinta preta do botão que aperto já está totalmente gasta. Agora o
botão está branco, marfim, olhando pra mim.
Bem, é, existe a música clássica. Tenho que me acostumar com isso. Mas sei que ela vai
sempre estar lá para mim. Escuto isso de três a quatro horas por noite. Mas ainda continuo
procurando outro tipo de música. Só que não existe. Deveria existir. Isso me perturba.
Escamotearam toda uma outra área. Pense em todas as pessoas vivas que nunca ouviram
música decente. Não se admira que seus rostos estejam caindo, não se admira que matem sem
pensar, não se admira que esteja faltando o coração.
Bem, o que é que eu posso fazer? Nada.
Os filmes são tão ruins quanto a música. Você ouve ou lê a crítica. Um grande filme,
dizem. E daí saio para ver o tal filme. E sento lá me sentindo um grande idiota, me sentindo
roubado, enganado. Posso adivinhar a próxima cena antes de acontecer. E os motivos óbvios
dos personagens, o que os move, o que desejam, o que é importante para eles é tão infantil e
patético, tão enfadonho e grosseiro. As partes românticas são irritantes, velhas, bobagens
preciosistas.
Acho que a maioria das pessoas vê filmes demais. E, com certeza, os críticos. Quando
dizem que um filme é ótimo, querem dizer que é ótimo em relação aos outros filmes que
viram. Perderam a visão geral. São martelados cada vez com mais filmes novos.
Simplesmente não sabem, estão perdidos no meio daquilo. Esqueceram o que é realmente
ruim, que é a maior parte do que assistem.

E não vamos nem falar em televisão.
E como escritor... será que sou um? Bem. Como escritor, é difícil ler o que os outros
escrevem. Não me bate. Pra começar, não sabem como colocar uma linha, um parágrafo. Só de
olhar o texto impresso a distância já parece chato. E quando você realmente lê, é pior que
chato. Não tem ritmo. Não tem nada de emocionante ou novo. Não tem jogo, fogo, gás. O que
estão fazendo? Parece ser trabalho pesado. Não se admira que a maioria dos escritores diga
que escrever é doloroso. Eu entendo isso.
Algumas vezes com meu texto, quando não foi extraordinário, tentei outras coisas.
Derramei vinho nas páginas, acendi um fósforo e queimei buracos nelas. "O que você está
FAZENDO aí? Sinto cheiro de fumaça!"
"Tudo bem, querida, está tudo bem..."
Uma vez, meu cesto de lixo pegou fogo e o levei correndo para a varanda e derramei
cerveja nele.
Para eu escrever, gosto de assistir a lutas de box, ver como o jab é usado, o direto de
direita, o gancho de esquerda, o uppercut, o counter punch. Gosto de vê-los lutar, sair da tela.
Existe algo a ser aprendido, algo a ser aplicado à arte de escrever, à maneira de escrever. Você
só tem uma chance, que logo desaparece. Só sobram páginas, e você pode queimá-las, se
quiser.
Música clássica, charutos, o computador faz o texto dançar, gritar, rir. O pesadelo da vida
também ajuda.
Todos os dias, quando entro no hipódromo, sei que estou mandando minhas horas à
merda. Mas ainda tenho a noite. O que os outros escritores fazem? Ficam na frente do espelho
e examinam os lóbulos da orelha? E então escrevem sobre eles. Ou sobre suas mães. Ou como
Salvar o Mundo. Bem, podiam me poupar não escrevendo esse troço chato. Essa bobagem sem
energia e murcha. Pare! Pare! Pare! Preciso ler alguma coisa. Será que não há nada para ler?
Acho que não. Se você achar, me conte. Não, não faça isso. Eu sei: você escreveu. Esquece.
Vai dar uma cagada.
Lembro de uma carta longa e furiosa que recebi um dia de um cara que me disse que eu
não tinha o direito de dizer que não gostava de Shakespeare. Muitos jovens iam acreditar em
mim e não se dariam ao trabalho de ler Shakespeare. Eu não tinha o direito de tomar essa
posição. E assim por diante. Não respondi na época. Mas vou responder agora.
Vá se foder, colega. E eu não gosto também de Tolstói!

Charles Bukowski
Charles Bukowski nasceu a 16 de agosto de 1920 em Andernach, Alemanha, filho de um soldado americano e de
uma jovem alemã. Aos três anos de idade, foi levado aos Estados Unidos pelos pais. Criou-se em meio à pobreza de Los
Angeles, cidade onde morou por cinquenta anos, escrevendo e embriagando-se. Publicou seu primeiro conto em 1944, aos
24 anos de idade. Só aos 35 anos é que começou a publicar poesias. Foi internado diversas vezes com crises de
hemorragia e outras disfunções geradas pelo abuso do álcool e do cigarro. Durante a sua vida, ganhou certa notoriedade
com contos publicados pelos jornais alternativos Open City e Nola Express, mas precisou buscar outros meios de sustento:
trabalhou catorze anos nos Correios. Casou, teve uma filha e se separou. É considerado o último escritor "maldito" da
literatura norte-americana, uma espécie de autor beat honorário, embora nunca tenha se associado com outros
representantes beats, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg.
Sua literatura é de caráter extremamente autobiográfico, e nela abundam temas e personagens marginais, como
prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas, corridas de cavalos, pessoas miseráveis e experiências escatológicas. De estilo
extremamente livre e imediatista, na obra de Bukowski não transparecem demasiadas preocupações estruturais. Dotado de
um senso de humor ferino, autoirônico e cáustico, ele foi comparado a Henry Miller, Louis-Ferdinand Céline e Ernest
Hemingway.
Ao longo de sua vida, publicou mais de 45 livros de poesia e prosa. São seis os seus romances: Cartas na rua
(1971), Factótum (1975), Mulheres (1978), Misto-quente (1982), Hollywood (1989) e Pulp (1994). Bukowski publicou
em vida oito livros de contos e histórias: Ereções, ejaculações e exibicionismos (1972), South of No North: Stories of
Buried Life (1973), Tales of Ordinary Madness (1983), Hot Water Music (1983), Bring Me Your Love (1983), Numa fria
(1983), There's No Business (1984) e Septuagenarian Stew (1990). Seus livros de poesias são mais de trinta, entre os
quais Flower, Fist and Bestial Wail (1960), You Get So Alone at Times that It Just Makes Sense (1996), sendo que a
maioria permanece inédita no Brasil. Várias antologias, além de livros de poemas, cartas e histórias foram publicados
postumamente.
Bukowski morreu de pneumonia, decorrente de um tratamento de leucemia, na cidade de San Pedro, Califórnia, no
dia 9 de março de 1994, aos 73 anos de idade, pouco depois de terminar Pulp.

Texto de acordo com a nova ortografia.
Este livro foi publicado em 1999, pela L&PM Editores, em formato 14x21.
Capa: Ivan Pinheiro Machado sobre cartaz do navio Normandie (1935).
Tradução: Bettina Gertum Becker
Revisão: Renato Deitos, Cláudia Laitano e Flávio Dotti Cesa

B932c
Bukowski, Charles, 1920-1994
O capitão saiu para o almoçar e os marinheiros tomaram conta do navio / Charles Bukowski;
tradução de Betina Gertum Becker; ilustrações de Robert Crumb. ­ Porto Alegre: L&PM,
2011.
(Coleção L&PM POCKET; v. 330)
ISBN 978.85.254.2309-2
1.Ficção norte-americana-novelas. 2.Crumb, Robert, il. I.Título. II. Série
CDD813.3
CDU 820(73)-32

Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329.
© 1998 by Linda Lee Bukowski.
Illustrations. Copyright © 1998 by Robert Crumb.
Todos os direitos desta edição reservados a L&PM Editores
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