Unhas Defeitas em UAI-UI
Performance por Corpos Informáticos
Maria Beatriz de Medeiros
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas ­ UnB
Professora Associada ­ Pós-doutor em Filosofia ­ CIPh
Bolsista Pq - CNPQ
Corpos Informáticos

Fernando Aquino Martins
Bacharel e Licenciado - Artes Visuais - UnB
Corpos Informáticos

RESUMO:
O presente texto faz uma reflexão acerca da composição urbana denominada "Unhas Defeitas em
UAI-UI", performance realizada em 2010, em Brasília, no Festival 1277 minutos de arte efêmera,
CONIC. O CONIC é a antena do movimento e da circulação na capital federal. Seus corredores
respiram a contradição e a multiplicidade: cinemas pornôs ao lado de igrejas evangélicas e sindicatos
dividindo espaço com o Hip Hop. Partindo do princípio da agregação, o Grupo de Pesquisa Corpos
Informáticos realizou, por propulsão, o afloramento de desejos do público. As ações se mostraram
excentricidades precisas no que se refere a alguns elementos usados pelo grupo: o esmalte e o
batom nos entornos. Foi utilizada uma escrita-arte que se aproxima da pele e se distancia do verbo.

PALAVRAS-CHAVE: Composição Urbana, arte efêmera, propulsão.

Um corpo jamais nasceu antes de ter dançado
Michel Serres

A composição urbana compõe, irrompe da terra como semente forte, levanta o
húmus e se instala na respiração da urbis. Traz consigo a lembrança da árvore e afunda
prolongamentos na pedra dura e verdadeira da realidade podre. Ela se pretende rizoma (já
nasce com vontades intelectuais deleuzianas!), mas no âmago se quer maria-semvergonha: árvore e rizoma, frágil e quase imortal, imoral, banal, pura água de chuva tornada
cor, arte. Composição urbana, nem intervenção, nem interferência. Compõe com o
degradado do cerrado ou outro terreno.
A composição urbana pode ser física ou virtual, isto é, se instalar no meio da cidade,
transeuntes, ônibus e dióxido de carbono (combustão de produtos ricos em carbono),
monóxido de carbono (combustão incompleta de combustíveis ditos fósseis), dióxido de

enxofre (emanações das centrais elétricas e veículos), óxido de azoto (aviões, fertilizantes e
indústrias), fosfato (detergentes e fertilizantes), mercúrio (diversos), chumbo (indústria de
química e de pesticidas), petróleo, radiações.

A composição urbana pode se instalar na internet: iteração, criação coletiva, trânsito,
vírus, hacker, "aconteceu um erro fatal", "deseja reformatar?", Eletronic Disturbance Theatre,
mar-iasemver-gonha.net, coletivo jodi, corpos.org/weblandart, corpos.org/parafernálias.
Pode passar como vento, performance, esboçando sorrisos discretos ou desaforos.
Pode ser fuleragem, conceito bêbado, com odor. O corpo se debate em circunstâncias. É
característica não material, não objetual, é a seiva da fruta. Propulsão humana dos corpos
espremidos e misturados, antes talvez. Não é qualquer coisa diversa do animal. A vivência
do animal é a circulação irrestrita do interior dos corpos com as circunstâncias
imperceptíveis do ambiente. Carcaça, rastros rápidos de um saque natural, agricultura
rústica, alimento que se move, caça. Cogito, ergo sum? Odor, logo existe. Não cogito, ergo
a enceradeira e danço. Te convido para dançar, a música escorre pelo pavilhão auricular,
janela oval na cóclea, martelo, bigorna, estribo, membrana do tímpano. Escutar é
movimento de vibração, emissão.
O nó existe entre o cheiro da presa, as circunstâncias e a ação do animal. Mas é um
nó? O nó se deixa escorrer pelo caminho, volta, entrelaçamento, outro caminho ou o
mesmo. Descaminhos de urbana confusão desejada ou naufrágio na rede mundial de
computadores. O odor existe pela dúvida, na ambiência. Qual odor? O predador existe pela
dúvida ou pela procura?
Instrumento da pele, o odor é a inquietude. A mobilidade do animal é qualquer
fragmento de luz, de som, de ti ou instinto em ação. Em situação de presa, de frágil caça,
existir é somente ter consciência de tua situação?
As circunstâncias estão colocadas, o jogo continua: não tenho mais consciência do
meu corpo, tudo é instinto, correr, arrebentar os músculos que não passam de máquinas
orgânicas ou mecânicas naturais prontas para um limite qualquer. Da enceradeira ao
martelo, bigorna, estribo. O cavalo está presente no cavalgar, na corda que roda na noite
fulera onde nos instalamos em performance: "Unhas Defeitas em UAI-UI", acontecimento
performático realizado em 2010, em Brasília, no Festival 1277 minutos de arte efêmera,
CONIC, realizado pela Faculdade Dulcina de Moraes, com o apoio do Ministério da Cultura.
Pensar aqui é um fracasso.

Fazer as unhas se tornou conhecimento, rotina, açucar. A performance é dura, dura
na afetação do instinto animal, siriema, cobra, lagarto, cotia não. O açucar é chiclete cola,
borracha entre os dentes, sem odor desafeta, infecta. A composição urbana arde a rigidez
do doce.
Michel Serres e a cosmética

Michel Serres (1985, 29) oscila: "A cosmética tende para a estética no sentido da
teoria das Belas-Artes". Bonnard, Boucher ou Fragonard. Unhas defeitas sente o gosto de
Witkin, irmãos Chapman, mas prefere a gambiarra, os sinais nomadizantes e a cicatriz.
Michel Serres vascila: "a mulher nua no espelho tatua sua pele". A tatuagem é sinal
noRmatizante. A cicatriz e o pixo deixam entrever o tráfico, o odor, o CONIC. "O nu tatuado,
caótico e provocante traz sobre si o lugar comum e instantâneo de seu sensorium próprio".
A tatuagem é linguagem, escolha à direita, discurso, sensorium próprio induzido. Mesmo
pleno é índice, semiótica, ciência. A fuleragem inverte a coméstica, escorre por lugares
nunca valorizados do corpo indigesto.
"A mulher nua [...] força o olho e o olhar". Interessa ao Corpos Informáticos,
deformado, o corpo inteiro, o corpo animal, a cutícula, o calo, aquele que dança quadrilha
com o desconhecido, aquele que compõe, sua e se espreme: meu desejo na tua coxa está
ornado pelo seu peixe elasmobrânquio, pleurotremado, da família dos esfirnídeos. Estamos
no Centro-Oeste e a seca persiste, sinto o odor do mar e ostra, vagina, mexilhão.
O corpo tatuado é marca d'água no papel e na rede mundial de computadores onde
elas se maqueiam no meio do bombardeio de eléctrons das telas dos computadores
impessoais. Na cicatriz a janela não é window pois não há mais janela, ninguém mais se
interessa pelo trabalho. Todos bebem, fumam. Corpos distribui cachaça, cigarro barato e, na
atitude quase degradante das manicures, se senta aos pés dos convivas para defazer
unhas.
Não somos nem moralistas nem jovens. Somos muitos, répteis e baratas, deixamos
a persona em casa, vestimos o vermelho das veias dos becos do CONIC. Não traçamos
mapas, aferimos em Mar(ia-sem-ver)gonha, isto é, em privilégio da carícia sobre o olhar.
Sim, "riachos de ouvido, rios de paladar, lagos de escuta".
"Não, a mulher não põe uma máscara como dizem os
moralistas, nem remedeiam o irremediável como
1
pretendem os jovens; ela traça o Mapa da Ternura do
tato, e seus riachos de ouvido, rios de paladar, lagos de
1

Ver Carte de tendre por Madeleine de Scudéry, também conhecida como Mademoiselle de Scudéry

(15 de novembro de 1607 - 2 de junho de 1701.

escuta, águas misturadas frementes de onde se ergue a
beleza" (SERRES, 1985, 29)

Performance: Unhas defeitas por Corpos Informáticos. Lago Paranoá. Performer: Bia Medeiros.
Fotografia: Camila Soato.

E se o animal, se o fedor recaíssem sobre nosso corpos constituído de bandos
aloprados, desgovernados e imprudentes? Gafurina de um POP moribundo, a fuleragem
escapa ao contêiner do verbo e ao esquadro da precisão. Esta faca - canivete e bainha - dá
ao frequentável o mistério do segredo, da articulação silenciosa do tráfico, dente de animal e
sua melhor qualidade: firmeza e sutileza, certa dimensão para a morte, ovo, erro
disassociado da punição. Quem está autorizado a revelar o segredo? Quem poderia
autorizá-lo? Isso não sabemos, não pode ser dito, esculpido, remodelado. Atenção!
sofrendo aquela lâmina
e seu jato tão frio
passa, lúcido e insone,
vai fio contra fios
(João Cabral de Melo Neto. Uma faca só lâmina)

Forjar a existência, afiar o corte, rasgar o nó com o verso da faca. Instrumento oculto
da vivência, parceiro, salivas de importância, esquecer o conhecimento, o saber remenda o

vazio. Por que não pinta o corpo? Quer se parecer com animal? A metalurgia foi segredo
por pelo menos 300 anos com os Hiitas, povo nômade, inimigos dos babilônicos. A Torre de
Babel começou a ser construída numa época que "em toda a Terra, havia somente uma
língua, e empregavam-se as mesmas palavras" (Gênesis 11:1-9). A guerra espalhou a
tecnologia do metal (máquina) e rompeu o mítico segredo. Destruição que desaba e queima
a pele, seca a diversidade.
A dança e seu movimento selvagem faz do cabelo gafurina, antes talvez um beijo,
música do corpo, mística da vida, ato sem palavras (carícia). Terreiro urbano, instrumento
do verbo coroado, compondo com o terreiro eletrocandombláico (Zé Celso Martinez Corrêa),
ambos contaminados em ações, secreções e contaminações, com o público, com o privado
tornado público, mistura alquímica do corpo social. O beijo reverte o verbo em ação.

Performance: Unhas defeitas em UAI UI por Corpos Informáticos em Festival 1277 minutos de arte
efêmera. Performer: Diego Azambuja. Fotografia: Corpos Informáticos.

Construir o animal emblemático: caapii-uara. Mais que a possibilidade de construí-lo
é torná-lo circunstância, calo, instrumento abstrato. Pintar o corpo e com carícias animais,
beijos de importância imediata, remendar o divíduo com saliva, fundir o lábio com a fruta.

Na periferia do corpo bandido há um ruído. Gemidos do orgão pele faz cair a língua,
daí a cicatriz, o tato corrompido inaugura a dimensão do erro. Sinal nômade devido à e
tornado circunstância. Machucar com arma efêmera a convenção contratual é trabalhar o
esmalte desassociado de sua função fugaz. As coisas que chamamos grosseria e cafonice,
defeito mesmo, jato frio na sensibilidade cujo ponto nunca é demonstrado ou localizado,
onde escritos e discursos, tratados, mapas e informações, desmoronam ao tentar captar sua
mística, sua existência de fruta, o detalhe maior, as circunstâncias, sua dissociação.
Entre o mar perigoso e o lago da indiferença - pequenos cuidados, negligência,
probidade, grande coração - cacos se unem e se refazem nos cantos empoeirados. Ventos
incessantes que acumulam plásticos velhos nas entradas de bueiros já entupidos sopram os
cabelos, muitos, alisados, outros desgrenhados. A beleza impera e desliza gorda, banhas
em shortinhos, cabelos archi-longos extremamente lisos por processos naturais: cremes de
um cheiro mordaz que muitos acham delicioso (odeio perfume!). São as meninas e meninos
mais ou menos extremamente velhos, como nós, que esperam a hora do culto. Outros
esperam a hora da ronda: a caça. Outros esperam a hora da ronda: o caçador.
Alguns saíram do trabalho, portam ternos roídos, camisas brancas impecáveis com
colarinhos rotos, amarelos ocre. A cerveja esquecerá tudo. E se demorar a passar, a
cachaça será acrescentada. Outros tomam cerveja diferentemente: larica. Os punks são
muitos ­talvez, nem tantos- mas podem ser vistos à distância: bandos. Pequenos ou
extremamente fortes, sexuados de uma turma diferente do casal papai-mamãe, chamados
de gays, lésbicas, viados, trans sexuados, trans gêneros, efeminados, sapatos, bichas,
loucas, todas queridas, desfilam irreverentemente como lhes é de direito.
O local é sombrio, diríamos mesmo extremamente agradável. O cheiro é,
dependendo do vento, fétido, revigorante. Trata-se do coração de Brasília, do CONIC.
CONIC quer dizer Conselho de Igrejas Cristãs do Brasil é o que afirma a primeira pesquisa
no Google. Lindo! Linda coincidência para um espaço mesclado de putas, boates gays,
bares, restaurantes, estômagos junkies ou orgânicos, templos evangélicos, loja de artigos
de umbanda, a faculdade Dulcina de Moraes, seus teatros, Hip Hop, skatistas, etc, você.
O CONIC2, no Setor de Diversões Sul, Brasília, é a antena do movimento e da

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Explica o sociólogo Brasilmar Ferreira Nunes (Professor-UnB/ Pesquisador ­ Cnpq) e Naraina de Melo Martins
Kuyumjian (Bolsista ­ IC) em A "sociologia" de um edifício urbano: O CONIC no Plano Piloto de Brasília: (egroups.unb.br/ics/sol/urbanidades/brasilmarnara.htm):
A inauguração do CONIC se deu por volta de 1967, ou seja, sete anos após a inauguração da nova capital,
sendo o primeiro edifício voltado para a Esplanada dos Ministérios. Foi batizado informalmente por CONIC a
partir do nome da construtora pernambucana que o edificou, com seu nome numa enorme placa durante a obra,
terminando por se fixar na memória dos passantes como uma das referências da área. Na época Brasília

circulação na capital federal. Seus corredores respiram a contradição e a multiplicidade.
Partindo do princípio da agregação, o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos realizou, por
propulsão, o re-agenciamento, o afloramento de desejos do público. As ações se mostraram
excentricidades precisas no que se refere aos dois elementos de dispersão usados pelo
grupo: o esmalte e o batom nos entornos. Escrita-arte que se aproxima da pele e se
distancia do verbo. O verbo é o açucar. Unhas defeitas é a materialidade de uma periferia
utópica que propõe o outro, o animal, o defeito.
Este local é perfeito para uma ação de corpos, corpos compondo, corpos desafiando o
conceito de arte e interrogando sobre o espaço atual para a arte. Corpos informáticos foi um
dos grupos que se apresentou no evento Festival 1277 minutos de arte efêmera. Com ele, o
coletivo 13 Numa Noite, Grupo Empreza, Anti Status Quo Companhia de Dança, Teatro do
Concreto, Kenia Dias, João Angelini, SCLRN, Mesa de Luz, entre outros.

Performance: Serão Performático por Grupo Empreza em Festival 1277 minutos de arte efêmera.
Performer: Keith Richard. Fotografia: Grupo Empreza.

contava com aproximadamente 90.000 habitantes, a maioria moradora do Plano Piloto (ainda em fase de
implantação) e algumas poucas cidades satélites (Taguatinga, Ceilândia, Sobradinho, Núcleo Bandeirantes).
E diz o site: overmundo.com.br
Compreender esta diversidade de tipos sociais que aí circulam pode ser um exercício interessante para analisar
os efeitos do projeto de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília. [...] uma multiplicidade de atividades que
terminam por ser os verdadeiros responsáveis para que o Plano Piloto seja um verdadeiro espaço urbano.
acesso em 16 de agosto de 2010.

O CONIC vive e compõe com a cidade; no centro da capital federal com suas
resoluções a perder de vista, alimentado por ritmos construídos pelo trânsito e pelo cheiro
dos transeuntes da rodoviária do Plano Piloto, todos transformados em massas, rebanhos
de trabalhadores mal remunerados que não rostificam e são rostificados em um rosto
gigante: povo.
O rosto - cabeção - educa pessoas frequentáveis, associa espaços, cria camadas,
ocupa mentes com códigos, produtos, detalhes da vida artística e pessoal de uns poucos
imbecis ou gera contratos milionários do futebol. A fortuna de Ronaldo, fenômeno, é de 250
milhões de dólares: açúcar. Jogar futebol exige unhas defeitas e cachaça, dançar com
enceradeira e fuleragem.

Performance: Unhas defeitas em UAI UI por Corpos Informáticos em Festival 1277 minutos de arte
efêmera. Fotografia: Corpos Informáticos.

O cabeção fala. O mundo à luz do dia se esguela neste carnaval de (des)ilusões:
celulares, tv digital, micro ondas espelhado, geladeira que versa gelo. Morosidade
impermeável que parece uma historieta sem graça, infrutífera, absoluta demais.

Arte de uma vida frágil e inesgotada como um fedor barato, sem desodorante, sem
spray, vida nua, cicatriz. UAI UI: ueb arte iteraiva, urbanos irrisórios, nós desprezíveis
contaminando o rosto: rugas, perebas, micoses penetrando a paisagem dos jardins do
poder. Quadrilha, como cheiro desprezado infiltrando o elevador do adversário.
O desespero - pézão - calcula desejos esmaltados e inaugura a eficácia, elemento
desértico de uma intensidade controlada. Respirar anúncios publicitários (síntese da escrita
verbal com a escrita visual) é perder o instinto da caça, do movimento na calada da noite.
Caçar é ocorrer outros sentidos, é corroer o sentido atualmente absoluto: o da visão.
O tráfico não se traga a qualquer hora. Segredo, ele se cala na noite, sopra baixinho
no ouvido cão. No CONIC, ninguém recebe, todo mundo soube, mas esqueceu, deixou a
agenda, perdeu o celular. A caça fareja, tateia, pula corda e dança quadrilha ao som da
fuleragem:
letra de música fulera
A ciência do verbo - linguarudo - três mil mísseis de rostidade para cada indivíduo:
banners, paredes, muros, prédios, internet, lojas, veículos, métodos, roupas, códigos,
bandeiras, relações de poder e trabalho. Colapso. As palavras não pertencem ao
interlocutor, pertencem ao cabeção. As palavras são degustadas pelo coletivo: X9, polícia,
boca de tramela, cagoete. Filósofos e acadêmicos não sabem porque só vêem, só falam o
que vêem, e só vêem o que sabem. O que eles sabem?
Na imensa parede/prédio, o vídeo indaga. Alguém nu tem pinto? E desde quando
você não pula corda? Pula corda em Taguatinga Centro, em Ceilândia no meio dos
camelôs, ao som do CD pirata. É o vento e todos correm, por que aqui o vento é polícia,
palavra, cabeção e linguarudo. Pula corda nu no deserto da cidade/poder que é, ou melhor,
pensa ser, Brasília. Pula corda dura, colorida, mato verde, céu azul, parede cinza, janelas
que escondem o segredo. As windows se transformaram em buracos negros do imenso
vídeo projetado.

Performance/vídeo: Sem título (Diego pulando corda) por Corpos Informáticos. Performer: Diego
Azambuja. Direção e edição: Márcio Mota.

Cidadãos preocupados padecem do mesmo mal. Mas por que eles correm? O que
ocorre? Igreja, internet, cinema pornô, restaurante, sebo, videogame, emprego. Percebam o
conceito de necessidade incorporado em cada um desses afazeres, caminhem no ritmo do
trânsito. O que é gramado? Desejo imediato, informações fugazes, religiosidade do NÃO,
fast-food, jogo, alimento pra alma. Desprezamos o ócio quando o confundimos com a
televisão.
O CONIC não é o trafico. MINHA CASA É O TRAFICO. CONEXÃO DA RUA. O
TRAFICO É SEGREDO. Aqui poderíamos convidar Derrida para falar do que ele jamais dirá:
o segredo.
(

)

AI UI UI AI AI UI UI AI
AI UI UI AI AI UI UI AI

AI UI UI AI AI UI UI AI
(Abdias dos oito baixos - Forró do ai ui - Baio)

"Sentimos que não convenceremos ninguém se não enumerarmos certas
características aproximativas do rizoma" (DELEUZE & GUATTARI, 1995, p. 15).
Características aproximativas de Unhas defeitas em UAI UI:
(1) música fulera
(2 e 3) videoarte projetado na parede/prédio (Diego pulando corda)
(3,5 e 4) cachaça e cigarro
(5, 6 e 7) quadrilha, pula corda, forró
(8) unhas defeitas (dimensão do erro)
(9) batom em lábios defeitos e beijos
(10) inexistente
(11) participação do público

Performance: Unhas defeitas em UAI UI por Corpos Informáticos em Festival 1277 minutos de arte
efêmera. Performers: público participante. Fotografia: Corpos Informáticos.

"Escrever nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar" (Deleuze
e Guattari, Mil Platôs 1, 13). Isto queriam Deleuze e Guattari nos idos dos anos 1970. Hoje
todos tornaram estes gênios palavra, linguagem, semiótica, linguistica, e até mesmo

ideologia. Todos se querem rizoma, falam em devir, acontecimento, hecceidade; discutem
platôs.
Corpos Informáticos, ornicofagia, UAI UI, Ceilândia, CONIC, espreitam o odor da
mar(ia-sem-ver)gonha, se defeitam de unhas vermelhas, dançam com encerradeiras, pulam
corda e brincam: quadrilha, e não matilha. Deixaremos aos cartógrafos o trabalho de
agrimensar. Desenhando garatujas haverá apenas alquimistas e o verbo se calará.

Referências bibliográficas
biblia
SERRES, Michel. Les cinq sens. Paris: Grasset, 1985.
DELEUZE, G. & GUATTARI, Félix. Mil Platôs. Rio de Janeiro: editora 34, 1995.